Se é para falar de pequenos delitos…
Samarone Lima
Bem, fui tocar no assunto dos “pequenos delitos”, na crônica passada, e choveu de gente fazendo pequenas confissões. Agora vamos e convenhamos: roubar o “Aurélio” é algo meio descarado demais.
Então, como é manhã de sábado -melhor, manhã de sol depois de uma chuva, fiquei aqui a revolver meus miolos, pensando nos pequenos delitos, indo bastante contra o politicamente correto dos tempos atuais. Encontrei alguns pequenos delitos que não considero de todo ruins.
Ter roubado a Livro 7 parece que já é crime prescrito, pois a livraria fechou há alguns anos, e desconfio que vários larápios do mesmo tipo andaram por lá.
Quando fiquei hospedado em um albergue, em Buenos Aires, conheci uma sueca chatíssima, que só queria ser a dona da cocada preta. Em tudo ela queria levar vantagem. Pois bem. À noite, eu ficava lendo até tarde, e quando o albergue dormia, eu ía à geladeira e atacava a cestinha da sueca. Como um bom rato, dei umas roídas no seu queijo, acompanhado do azeite de oliva maravilhoso.
Já entrei várias vezes no estádio com a cachaçinha escondida por baixo do bermudão. Como apertaram a fiscalização, o produto agora vai debaixo do pandeiro de Josimar.
Na adolescência, pegava escondido a Playboy debaixo do colchão do meu pai, e uma vez botei a culpa no meu irmão, o Tonho.
Na quinta-série, levei um saca-rolha para a escola e comecei a furar uma carteira. Depois, passei para os colegas. Quando já íamos na oitava carteira furada, o crime foi descoberto. Desconfio que não assumi a autoria do delito, e ficou por isso mesmo.
Uma vez eu disse para minha terapeuta que tinha amadurecido como pessoa.
Dizem que joguei o rádio de pilha, que Seu Vital sempre me emprestava, nos jogos do Santa Cruz, num bandeirinha ladrão. Não lembro se é verdade, mas o rádio desapareceu.
Roubei fotos esporádicas de amigos e amigas.
Já disse que estava liso, em divisão de contas, mas era lorota. É que eu tinha achado a conta cara demais.
Gatunei alguns livros de Gustavo, mas ele fez o mesmo com alguns meus, então tudo bem.
Quando tem visita aqui em casa, uso o shampoo da visita, que é sempre melhor.
Pedi o celular de Sóstenes, um dia, para uma “rápida ligação”. Passei mais de quinze minutos na linha, e nunca o comuniquei do fato.
Já escondi as chaves do carro da namorada, para ela não ir embora, e perdi as chaves. Bem, eu já tinha tomado umas garapas.
Bem, são todos delitos prescritos. Diante do que a turma tem feito em Brasília, minha ficha criminal poderia ir para o setor dos anjinhos.
Ah, ía esquecendo: afanei um Verlaine e um Rimbaud de Luzilá. Vou devolver logo hoje, porque estou lendo cada vez pior em português, quanto mais em francês. Além disso, é muito feio roubar a vizinha, enquanto ela está viajando.
Vou parar por aqui, enquanto não lembro de coisas piores.
ps. voltei a atualizar o blog de poemas:
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