Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Pequena homenagem a um cidadão comum

4 de abril de 2006, às 9:22h por Samarone Lima

Desde que vim morar aqui no Poço da Panela, sítio histórico às margens do Capibaribe, encontrei um sujeito baixinho, gordinho, voz estridente e sempre sorrindo de tudo. É certamente o nome mais repetido no Poço: Naná. Desde o primeiro encontro, nos tornamos amigos e chegamos àquela fase especial na amizade, quando um fala exatamente o que o outro estava pensando em dizer. Eu só o chamo de “Montanha”, porque ele parece mesmo com uma montanha.

Ele mora aqui ao lado, e sobrevive da sua Kombi, que roda sem parar, todos os dias da semana. Trabalha para um buffet, levando e trazendo material para festas, mas faz de tudo um bocado: mudança de gente que separou, retorno da mudança de gente que fez as pazes, andaimes para obras de restauração, leva os amigos tricolores para os jogos do Santa Cruz, carrega doentes para hospital, sem cobrar nada, transporta os jogadores de futebol do Poço, quando vão jogar fora, enfim.

E Naná leva, voluntariamente, 32 crianças para a Escola Municipal Nilo Pereira, de segunda a sexta-feira. Faz o trabalho sem cobrar nada, em duas viagens, logo de manhã. A primeira viagem sai às 7h, a segunda vai às 7h15. É um negócio simples, mas que está conseguindo mobilizar a comunidade para instalar uma escola na própria comunidade. Na última eleição do Orçamento Participativo, da Prefeitura, o Poço colocou, pela primeira vez, o ítem “Educação” em primeiro lugar.

Ele faz esse trabalho há três anos, faça sol, faça chuva, tendo trabalhando de madrugada ou não. Só não faz as viagens com as crianças, se a Kombi estiver quebrada. É o único momento em que ele fica aperreado, o sorriso some. É seu ganha-pão. Cada dia com o carro quebrado, deixa de “gerar na alta”, como ele diz, e vai tomando prejuízos. Depois, trabalha em dobro para recuperar.

Acompanho Naná neste projeto, e é sagrado nos encontrarmos todo dia, ali pelas 7h. Depois da segunda viagem, é sagrado também um pequeno café em Seu Vital, para o tradicional bom-dia, e rumamos para sua casa, onde Teresa, a esposa magérrima, faz um sagrado café forte, um “café de soldado”, como ela diz, e comemos algo.

Nos encontramos umas três, quatro vezes por dia. Não é raro, no final da manhã, ele chegar com um prato de comida, algo suculento, e colocar em cima da minha mesa, sem avisar nada. Outro dia, ganhei um pirex com uma delícia de abacaxi, presente da namorada, e o primeiro pedaço foi para o gordinho, depois para Seu Vital.

Trata-se da pessoa mais generosa que já conheci na vida, uma espécie de gente que tem muito no Brasil, apesar de não percebermos bem. Não fossem essas pessoas, a vaca já teria ido para o brejo. Você vai pedir algo a Naná, e ele tem um sim na ponta da língua.

Andréa Ferraz, uma grande amiga, está fazendo um documentário sobre ele. Muitas imagens já foram gravadas, tem depoimento de muita gente do Poço, cenas engraçadíssimas. Em certo momento, ela perguntou o que o deixava mais triste.

Naná ficou longos minutos procurando, entre os seus miolos, o que o deixava triste. Pensou, pensou. Um longo silêncio se instalou na filmagem.

Foi a única pergunta que ele não conseguiu responder.

Hoje ele completa 39 anos, e resolvi fazer esta pequena saudação a um camarada que sobrevive na raça, com sua Kombi pelas ruas do Recife, mas separa, todos os dias, um pedacinho do seu tempo para levar crianças da comunidade para a escola.

O nome disso, para mim, não é solidariedade nem trabalho voluntário. É amor mesmo.

nota aos leitores: Continuo tentando arrumar a bagunça que fiz no Blog. Há pouco, fui tentar organizar os links, mas consegui mesmo foi aumentar o tamanho da letra dos textos, o que não é de todo ruim. Faltou pouco para excluir o Blog de vez. Aguardo ajuda de qualquer parte do planeta, já que minha professora, Macksandra, está de greve por tempo indeterminado.

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