Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Vitórias e derrotas em um domingo recifense

10 de abril de 2006, às 16:41h por Samarone Lima

No domingo, 6h20 da manhã, chego à pelada. Ainda chove, mas já estão todos, os loucos por peladas. O jogo começa, nosso time está desarrumado, vamos levando um vareio de bola. Lá pelas tantas do primeiro tempo, já vamos levando um 5 x 1 inacreditável.

Então acontece o impossível. Lando é expulso, por esculhambar o juiz, que é Moura (o cara é chato pra caramba quando está bicado). Daqui a pouco, levamos o sexto gol, e estamos com um a menos em campo.

Então, acontece um mistério. O time é tomado por uma força misteriosa. Eu na zaga, Peitão no gol, Egildo Vôvô na lateral direita, Cacá na esquerda e Dai pelo meio. Fazemos 6 x 2, 6 x3, 6 x4, e acontece um fenômeno. Estamos todos alucinados pelo empate. Corremos feito cães furiosos, marcamos, tocamos, gritamos a cada bola. depois fazemos o 6 x 5 e no final do jogo, acontece o impossível: 6 x 6 e o gol de Dai, já no finzinho.

Daqui a pouco, Moura acaba o jogo. Estamos exaustos, mas felizes. Quem assiste ao jogo vem comentar. Nos cumprimentamos. Fizemos o impossível.

Mais tarde, depois de banhado, vou à Liga de Dominó, aqui em Vital. Todo mundo sabe que não sei nem pegar nas pedras do dominó, e detesto que olhem meu jogo. Sento com Duda a Milhão e pegamos, logo de frente, Seu Vital e Seu Paulo, dois mestres do dominó. Pedra vai, pedra vem, enfiamos um 5 x 0 e depois ganhamos de carroça. Resultado: 7 x 0 e o nome da dupla adversária vai para o famoso “caderno das buchudas”. Jogamos mais três partidas e ganhamos de todo mundo. Na última, estamos levando de 5 x 0, mas os deuses do dominó brincam, e damos uma “buchuda de ré”, como dizem por aqui. Ganhamos de 7 x 6, numa estranha combinação de pedras.

Saio com meus amigos para a decisão do Estadual. Meu time, o Santa, faz um gol aos 45 do segundo tempo, e tenho um surto psicodélico, fico louco, saio pulando e gritando na arquibancada da Ilha do Retiro.

Nos pênaltis, perdemos o título, o sonhado bicampeonato.

Volto pra casa abatido, desencantado da vida, daria a vitória milagrosa da pelada e as vitórias incríveis do dominó pela vitória do Santinha nos pênaltis. Hoje acordei com aquele sentimento da profunda tristeza futebolística.

Mas, como dizia Seu Biu, um dia a gente ganha, outro a gente perde. No meu caso, foram vitórias e derrotas no mesmo dia, e me parece que assim é a vida.

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Um pequeno texto antigo

10 de abril de 2006, às 10:50h por Samarone Lima

Esse texto estava datilografado, em uma pequena e finíssima folha azul, dentro de um caderno meu, de 2002. Achei que seria bom compartilhar.
**
Minha voz intransigente descia a escada da vida, desamarrando meu queixo duro, dentes que roçavam um no outro, arrancando a alvura amarelada. Meu corpo aquietava sua febre , sua fome, seu último desvendar que me assustava.

Sempre quis chegar a este ponto, ao movimento de uma prece sem mãos, de uma dança sem chão. Mas esse querer, mais antigo que a fabricação da minha infância, me roubou as horas dadas pela vida, essas horas que nada pedem, a não ser o vagar pelas ruas recém-descobertas.

Fiquei mudo, em respeito à escada da vida, adormecida no chão avermelhado, aceitando meu queixo despreparado para o embate.

Senti que meus dentes agora somente mordiam frutas, sem conseguir feri-las como minha fome.

Então percebi que minha fome já não mais me feria.

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