Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Para quem partiu muito jovem

11 de abril de 2006, às 10:31h por Samarone Lima

Tenho aqui um livro com o título “Ler e escrever, muito prazer!”, de 1998, junto com uma dedicatória:

“Para Nilza, com afecto”.

Gosto de escrever afeto com “c”, fica mais bonito, creio.

Não sei por qual motivo, não coloquei a data, mas julgo que é final de 1999, quando fiz uma longa viagem de ônibus, de São Paulo a Natal. Estava separado e triste, ela também vivia seus processos. Lembro que fomos, com mais amigos, para uma casa de praia, não lembro o nome da praia, mas sei que tinha um farol, e todo dia eu saía com meu caderno para um boteco e ficava escrevendo minhas besteiras por várias horas, sentindo aquela brisa. Como a casa estava juntinho do farol, começaram a me chamar de “o homem do farol”. Prometi voltar lá, um dia, quando estivesse curado, mas nunca fiz isso. Certos retornos são apenas pálidas lembranças de tempos que já passaram. É preciso cuidado com os retornos.

Tive longas conversas com Nilza sobre as coisas da vida, foi quando estivemos mais próximos. A casa estava cheia de crianças, e uma noite houve uma apresentação de teatro tão bonita, que até esqueci que estava sofrendo dores lancinantes de amor. O filho dela, Emanuel, é meu afilhado, e se divertiu muito.

Há tempos, soube que ela teve câncer, mas venceu a batalha. Respirei aliviado. Por essas coisas estranhas da vida, perdemos o contato. Soube apenas que ela estava bem, que foi morar em Brasília, com o filho, sempre trabalhando com Direitos Humanos, sua prioridade.

Há alguns dias, soube que a doença voltou, arrasadora, e ela morreu. Recebi a notícia assim, de sopetão, e tudo já havia terminado. Lembrei de um álbum com muitas fotos destes dias na praia, dias divertidos, com muitas crianças, cervejas, sorrisos. Está em algum lugar daqui de casa, mas outro dia olho.

Acabei de encontrar o livro com a dedicatória para ela, o livro que nunca entreguei. Mas não faz mal, está cheio de afecto, essa coisa que nem a distância nem o silêncio apagam, vou usá-lo na minha “Oficina da Palavra”, com os jovens da periferia do Recife.

Ela iria gostar disso, eu sei.

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