Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

abril 2006
D S T Q Q S S
« mar   mai »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Arquivos


Usuários online

2 Usuários Online
Leitores:

2 Caranguejos

Paixão de Cristo – versão Poço da Panela

12 de abril de 2006, às 8:37h por Samarone Lima

O pernambucano é um sujeito obcecado. Quando vai chegando o Carnaval, tudo se torna festa, o ar se torna carnavalesco, não se fala em outra coisa, o comércio se transfigura, para você comprar uma fantasia, precisa enfrentar uma multidão, em lojinhas abarrotadas e calorentas, ali no centro, nas ruazinhas ao lado do Mercado de Sào José. Os músicos, que passam o ano na magra, tocando aqui e ali, tocam feito uns desesperados (tem saxofonista que termina a festa quase sem beiço), mal têm tempo de comer um queijo com mortadela.

Passado o Carnaval, o pernambucano olha para o lado e busca sua nova obsessão – a Semana Santa, que falarei logo em seguida.

Na época do São João, não se escuta outra coisa, a não ser o velho, obsessivo, fundamental, insuperável forró. Todos os sanfoneiros vivos, semi-vivos e mortos são evocados, relembrados, recuperados, tem sanfoneiro que toca três vezes na mesma noite, o mês inteiro, os dedos tudo inchados, o “arraial” é obrigatório em cada esquina, as cidades ardem em fogueira ancestrais, parece que a vida seria uma marcha patética e triste, rumo ano nada, uma melancolia profunda e celeste, sem um bom forró pé-de-serra e a espiga de milho cozida no barrigão.

Entre o Carnaval e o São João, tem outra obsessão pernambucana: a Páscoa, ou, melhor dito, a Semana Santa.

Tudo na vida de uma pessoa é a Paixão de Cristo, Nova Jerusalém, o eterno Cristo, José Pimentel, a Via-Sacra. Só hoje (vi agora há pouco no jornal), teremos sete apresentações da Paixão de Cristo, em diferentes bairros e cidade, com diferentes Cristos e Marias, apóstolos os mais diversos, interpretados das formas mais intensas. Me interessa muito a Paixão de Cristo no Morro do Peludo, em Ouro Preto, Olinda, de graça.

Os mercados ficam empanturrados de gente, em busca de peixe, todos descobrem que não podem viver sem bacalhau, o vinho sai comendo no centro, do Concha y Toro ao Carreteiro, ou galões imensos de Sangue de Boi, que Deus o tenha.

Sobre a Paixão de Cristo, tenho algo a lhes contar.

Há alguns anos, foi realizada uma encenação muito caprichada, aqui no Poço da Panela, com arquibancada e tudo o mais. Aconteceram alguns fatos que fugiram ao controle da organização, e por conta dos tais fatos inesperados, foi a última vez que a Paixão do Poço foi realizada. Após um exaustivo trabalho de reportagem, consegui descobrir o motivo do fim do evento em nossa comunidade. Vamos a eles.

Primeiro, tivemos problemas com o burrinho que trazia Jesus. Não se sabe ainda o motivo, mas o fato é que o dito animal vinha num passo lento, diria manco, com Jesus acenando, acho que com uma oliveira nas mãos, eu sempre confundo os episódios, mas pouco importa, o que importa é que na Paixão, Jesus chega num bucólico burrinho de algum canto. Lá pelas tantas, o jumentinho daqui arretou-se e saiu em disparada, atravessou a multidão e mudou os rumos da histórica cena. Muitas ruas depois, Jesus foi resgatado com vida, assustado e pálido, mas conseguiu retornar à encenação, após muita adulação com nosso jerico.

Tivemos problemas com Marco Careca, que foi escalado para ser um soldado romano. Marco é um sujeito simples daqui, um negro careca e com poucos dentes, vive de bicos, sempre passa de bicicleta com um sorrisão, mas não se enganem – é o pior jogador de futebol que já tive oportunidade de ver em campo. Pois bem, ele recebeu a roupa do soldado e incorporou mesmo o personagem. Com um chicote na mão, começou a fustigar Jesus (infelizmente não consegui descobrir quem interpretava Jesus).

“Calma, Marco, que isso é uma encenação. Tá doendo, visse?”, sussurrou Jesus, já bastante avariado e com as costas ardendo.

O sol estava de rachar e Marco, numa pose de soldado romano recém-contratado, não quis saber de acordo.

“Encenação o caralho, comigo é na vera”, respondeu, descendo mais uma chibatada no lombo do nosso Jesus.

A platéia achou lindo aquele realismo.

Sabe-se que Jesus apanhou pra caramba, até chegar à cruz, que estava aqui, defronte à Igreja do Poço. Amarraram Jesus. Novamente, Marcos Romano entrou em ação. Amarrou os pulsos de Jesus com toda a força que tinha, e a mão do camarada começou a ficar preta.

“Marco, tá doendo, cara”.

“Eu tô dizendo mesmo…”, respondeu o soldado Marco. “Jesus levou foi prego nas màos, e tu não quer sofrer…”

A situação estava complicada, quando uma galera de outro bairro chegou, e começou uma confusão com a moçada do Poço. Sei apenas que era uma rixa antiga. Daqui a pouco, o cacete estava comendo no centro, soldados romanos brigando com inimigos do outro bairro, os apóstolos dando pedradas, Maria parece que se escondeu, foi cacete até umas horas, até que a cruz, onde estava pendurado Jesus, começou a cair, e ninguém percebeu.

“Minha mão, minha mão”, gritava Jesus.

Alguém acudiu Jesus, não sei se foi Maria, deve ter sido, Maria é piedosa e boa.

Foi a última Paixão de Cristo por aqui. Depois dessa, ainda tentamos organizar uma Via-Sacra, mas a definição dos personagens foi uma confusão, acabou não dando certo, e somos muito preguiçosos para decorar as falas.

Outro dia, conversando com Marco Careca, aqui em Biu Coió, perguntei se era verdade as lapadas que ele tinha dado em Cristo.

“Ôx, e apois. Eu vou ficar alisando, é?”.

Tomou mais uma lapada de cana e completou, orgulhoso:

“Botei foi quente em Jesus”.

Postado em Crônicas | 12 Comentários »

12 Comentários

  1. Claudia Disse:

    Ao menos foi diferente e, pelo visto, bastante realista!!

  2. andrea guerra Disse:

    Querido Sama, seus últimos posts foram maravilhosos, mas esse tá demais. A via crucis do pobre do Jesus do Poço tá de matar de rir. Beijo de sua eterna fã

  3. Ane Disse:

    Samuca: fui lendo, visualizando as personagens e dando boas risadas. Adorei, e sugiro que inclua a “paixão da via sacra do Poço” num próximo livro, com histórias que você vai colhendo em seu perambular diário. Ane

  4. keila aquino Disse:

    Sama… essa encenação deve ter ficado mesmo na história do Poço!
    Eu imagino o desespero do “Jesus” vendo suas mãos ficarem pretas! Coitado!!
    Mas que deve ter sido muito engraçado, isso deve ter sido sim!!
    Beijos.

  5. Priscila Disse:

    Samarone, realmente você é muito bom no que faz… Seus textos crescem a cada momento! Meu caro, amei esse da Via Crucis!
    Um grande abraço e Feliz Páscoa,
    Priscila

  6. Anonymous Disse:

    Sama, até agora estou dando risadas e imaginando o soldado romano acabando com Jesus. A via-crucis mineira ficou mais leve. Tb concordo com a leitora que esta crônica merece estar no próximo livro. Feliz Páscoa. Mano PH

  7. monica crisostomo Disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Samarone, assim não vale. Quase caio da cadeira de tanto rir, imaginando o pobre Jesus, ofegante, achando que o pior já havia terminado quando foi resgatado do lombo do burrica irado e ai surge o soldado insano para lhe meter chibatada… ai, ai!
    Monica

  8. Cusca Disse:

    Olah o teu blog tá muito fixe visita o meu site e fica a saber as tultimas novidades dos famosos bjs****

  9. Mariana Disse:

    Ixe, me acabei de rir…

  10. Anonymous Disse:

    KKKKKKKKKKKK
    estava com saudades desse seu senso de humor.. quase morri de rir, tbem!
    muito boa a crônica, Sama
    beijos
    Lu

  11. Davi Disse:

    Cara, quase não conseguia ler de tanto rir, achei o máximo, pois consegui ver o soldado metendo a chicotada.
    Legal mesmo!!!!!!
    PS: não tem como colocar a foto desse sujeito.
    Tchau, abraco!

  12. Mariana Dantas Disse:

    Conversando com amigos sobre a Paixão de Cristo, lembrei do seu texto maravilhoso. Reli e morri de rir do mesmo jeito ahahhahah abraços

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.