Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Um ano perfeito para a vadiagem, ou "anotações sobre a Copa do Mundo".

20 de abril de 2006, às 12:54h por Samarone Lima

Amigos leitores, amanhã já tem outro feriado, o dia de Tiradentes, e vamos todos render homenagens ao célebre inconfidente. Semana passada, já teve feriado por conta da Páscoa e o Recife ficou uma beleza, porque quase todo munto resolveu cair fora. Resultado: poucos carros, ausência de buzinas (vi até motoristas fazendo gentilezas com pedestres e ciclistas), aquela maravilha da cidade mais silenciosa, quieta, na ausência generalizada de filas e chatices.

Maio já vai começar com o feriado do Dia Mundial do Trabalho. Para nossa turma, aqui do Poço da Panela, o primeiro de maio é o dia do aniversário de Seu Vital e Dona Severina, e fim de papo. Vamos fazer a tradicional “festa surpresa”. Fingimos, de ambos os lados, que nada vai acontecer, mas tudo acontece.

Junho está na boquinha, e no dia 13, o Brasil joga contra a Croácia, dando início ao mais longo feriado nacional: a Copa do Mundo.

Se tudo der certo, no dia 9 de julho estaremos jogando a final, em Berlim. Durante um mês, seremos aquela massa uniforme, milhões de roedores de unhas e suadores frios profissionais, a cada toque de bola do selecionado. Durante um mês, tudo vai funcionar de forma ainda mais precária em tudo que é de repartição, empresa, escritório, galpão. Perdão, amigos, mas eu sou louco por futebol, e a Copa do Mundo é a Copa do Mundo.

No meu caso particular, tenho uma obsessão que me prejudica terivelmente. Gosto de torcer pelo mais fraco, nem que seja numa partida de dominó. Dia 10 de junho, por exemplo, estarei perfilado diante da TV, com a mão no peito esquerdo, cantando o hino do Paraguai, que enfrentará a Inglaterra. Dia 12, vestirei a camisa do selecionado de Gana e farei mandingas as mais diversas, no jogo contra a Itália. Acenderei velas, incensos, farei promessas para Gana virar o jogo no finalzinho. Viverei dilemas existenciais, como no jogo México x Angola (dia 16), mas até os 12 minutos do primeiro tempo, terei escolhido o time.

Togo x França? Claro que sou toguense desde a mais tenra infância, nos arrebaldes do Crato e Brejo Santo, no Ceará. A bandeira da República Popular do Togo será desfraldada pouco antes do início da peleja, aqui na Visconde de Araguaya. Já estou decorando o hino dos toguenses, que fala de amor à pátria, mas todo hino fala de amor à pátria.

Lembro que na Copa de 98 eu estava em São Paulo, em um boteco, assistindo França x Paraguai. Os paraguaios seguraram um empate heróico no jogo normal, se fecharam até o final da prorrogação, se fossem para os pênaltis, ganhariam a partida e eliminariam os franceses, era uma certeza profunda e irreversível que eu tinha. No finalzinho da prorrogação, um francês, acredito que o maldito Blanc, fez o gol, e os paraguaios foram eliminados. Dei um murro no balcão que estremeceu o bar, paguei a conta e voltei para casa, arrasado, depressivo, triste, solitário e final, como diz o velho e bom argentino. Ali, eu era o mais triste dos paraguaios de todo o globo terrestre. Faltou pouco para eu abrir o gás e ir dormir.

Eu iria escrever sobre a vadiagem que está sendo este ano, que ainda vai ter as eleições no segundo semestre, mas me empolguei com a Copa e me desviei do assunto. Minto. Na verdade, eu tinha escrito um texto bem grandinho, esqueci de salvar, acabei perdendo tudo. Ora, tem gente que perde tudo na vida, eu lá vou reclamar porque perdi uma reles crônica?

E por mais que adore a literatura argentina, por mais que tenha amigos de montão por lá, por mais que sempre queira voltar a Buenos Aires, não tem jeito. No jogo Argentina x Costa do Marfim, serei costa-marfiniano desde o útero da dona Ermira. Argentina x Sérvia e Montenegro, serei servo-montenegrense de coração. Holanda x Argentina? Ora, eu tenho todos os motivos para ser Holanda até os nervos, porque o conde Maurício de Nassau construiu umas belas pontes aqui no Recife. Até onde eu sei, o conde era holandês, e nunca vi um argentino dar um prego numa barra de sabão pelo Brasil.

Vou parar por aqui. Esse assunto, Copa do Mundo, faltando reles 50 dias para o início do torneio, me deixa com os nervos à flor da pele, suando frio e sem dormir direito. Só mesmo a seleção canarinha e o Santinha me deixam assim.

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