Amanheceres
Samarone Lima
O dia sempre começa. Pode ser bom, ruim, doce, pode trazer o mel ou fel, mas é uma lei cósmica: sempre amanhece. Diria que estamos num eterno amanhecer.
O dia começa com um telefonema, um despertador, um toque no corpo, de alguém que se ama muito, e que dormiu ao lado. O pequeno contato íntimo, que diz “estamos juntos”. Ou simplesmente amanhece, sem nenhum gesto brusco, na solidão apaziguada, somente os olhos abrindo para a claridade do mundo.
O dia começa com uma lembrança, uma saudade, um desejo. O que aconteceu ontem, um sentimento que atravessou a noite, o desejo instalado, nos primeiros instantes, de que algo aconteça hoje, algo melhor que ontem, não tão bom quanto o amanhã, onde costumamos depositar nossa melhor esperança.
Há dias que nascem sonolentos, em que os olhos pesam, bocejos intermináveis. Há dias apressados. Há dias que nascem já sepultados pela pressa, quando queremos chegar ao dia seguinte. Há dias que nascem já cansados, diante de uma agenda repleta de obrigações. Há dias em que pedimos mais do que o corpo pode dar. Dias em que damos à alma menos do que ela merece.
O dia começa com aberturas. De olhos, de cortinas, janelas, portas, armários, guarda-roupas. Começa com a palavra “bom”, de bom-dia. O dia começa com a proximidade dos que nasceram juntos ou se encontraram, na sinfonia da vida. O pai, arrastando sua sandália, os barulhos do banheiro, a água despertando corpos, o chacoalhar das escovas em dentes amarelados pelo cigarro, e a promessa de parar de fumar se renovando no espelho.
O dia começa com um olhar amoroso da mãe, que desperta mansamente a filha para a escola. Felizes os que despertam com um beijo, seja da mãe, do pai, de quem se ama. Ser despertado com um beijo é ter o dia abençoado.
O dia começa com uma canção na rádio, uma melodia cantada por alguém ao longe, um assovio do porteiro. Começa com a imagem de um animal de estimação, um pássaro ocasional, que se aboleta nos fios. Antes de fazermos algo de concreto, antes de aumentarmos o PIB do Brasil, nós simplesmente amanhecemos, tiramos a noite de nossos ombros, e recomeçamos.
Despertamos com a esperança de chegarmos inteiros ao final do dia, de não sermos atingidos por nada que entre tão fundo, pedindo que as palavras duras não magoem tanto, que saibamos calar quando tivermos apenas pedras na língua.
Muitos despertam com suas orações, pedidos. Alguns despertam apenas agradecendo. O obrigado por mais um dia concedido. Muitos, hoje, terão somente este dia. Amanhã, serão apenas lembrança e saudade.
O dia amanhece com café, pão e esperanças. Para muitos, resta apenas a esperança, embrenhada na fome tão imensa, fome de comida, que gera todas as outras fomes. Para outros tantos, o dia amanhece com fome de afeto, que torna toda a fartura mínima, pálida, insuficiente.
Alguns, açoitados pelo mau-humor antigo, vão deixar as horas chegarem, para o apaziguamento. Gente que não dá bom-dia nem para si mesmo. Gente que detesta acordar.
O dia amanhece, sempre amanhece. No dia em que não mais amanhecemos, junto com o dia, é porque veio a noite da vida.
A morte, que é um anoitecer.
Sim, porque os seres, como os dias, anoitecem.
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