A cidade e suas feridas
Samarone Lima
Se você é recifense como infelizmente eu não sou, evite ir ao centro da cidade. Evite ir ao núcleo intenso, onde a cidade poderia respirar esplêndida, em meio às pontes, atravessadas pelo eterno Capibaribe, o nosso rio. Não sei o que há, mas tudo está murchando, tudo está feio e maltratado. É como um imenso jardim, sem jardineiro, sem adubo, sem flores.
O lendário Diário de Pernambuco não está mais lá. Tudo em seu entorno, os bares, os mata-fome, os pega-bêbados, já não existem. Acabou aquela movimentação de jornalistas, fotógrafos, carros, acabou uma vida que se respira ao lado de um jornal. O Jornal do Commercio também deixou o centro da cidade, e está próximo ao Diário, ali pela rua do Lima. Os jornais não estão mais no centro, nem na periferia, então não entendo nada.
Os botecos, os velhos e deliciosos botecos, estão sendo engolidos por essa máfia intensa, a do “crédito pessoal”, ou do “empréstimo consignado”, para os velhos, os nossos velhos, que estão cheios de dívidas. Triste de um país que tem mais empresas de empréstimo consignado para seus velhos, do que botecos ou livrarias. Algo vai mal, muito mal, quando os velhinhos vão caminhando, e há bandos de rapazes e moças oferecendo dinheiro na hora. Para mim, são como urubus, em cima de quem mal tem algo para sobreviver. Emprestam dinheiro fácil, com os juros mordendo o pescoço, em prestações fixas, com o dinheiro descontado em folha. Assim é fácil emprestar dinheiro. E nem me venham com essa de terceira idade, porque velho é uma palavra linda, forte, e que define tempos.
Há muitas farmácias no centro, para as doenças do nosso povo. Há dezenas de lojas de jogo do bicho, no centro do Recife. Há milhares de camelôs, vendendo pipoca, guarda-chuva e óculos escuros. Todas as mulheres do Recife agora querem usar imensos óculos escuros, escondendo o rosto e alguma tristeza, creio.
Não há uma livraria no centro do Recife. Pode rodar por todas as ruas, que a mendicância cultural é imensa. Me sinto como aquele cego, oferecendo o chapéu em busca de trocados. “Uma livraria para o ceguinho, pelo amor de deus!” Mas nem chapéu tenho. O Bndes tem bilhões e bilhões em seus cofres, financiou agricultores, produtores de vinho, fábricas as mais diversas, tinha a obrigação de chamar Tarcisio Pereira, o nosso “Livro 7″ e dizer:
“Vamos te dar um dinheiro para tu fazer novamente uma grande e deliciosa livraria no centro do Recife, com café e espaço para lançamento de livros”.
O Savoy já era. A Cristal já era. O Dom Pedro eu não sei, fui muito pouco.
Passo nos sebos. Há somente livros de primeiro e segundo grau à venda. Nunca vi sebo que não tem sequer um Henry Miller gasto, largado num canto, por cinco contos. Olho o “Camelódromo”, inaugurado com pompa e circunstância outro dia, por algum prefeito que não lembro. Está lá, um resto de sobra de obra que rendeu muita grana a alguém. Carcaças urbanas e uns pobres diabos jogando dominó, debaixo de um calor infernal. Ó ceus.
Nem vou falar do Bairro do Recife. A parte mais linda do Recife está ao deus-dará. Era para ser o centro de uma vasta produção cultural, mas é o arremedo de algo que não vingou.
A melhor parte desta visita melancólica, foi quando peguei o Alto Santa Isabel e voltei para casa.
Deixemos de louvar tanto o Recife. A cidade está cheia de feridas.
Ps. Renilde, recebi o presente. Obrigado. Não sei ainda como agradecer.
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