Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Das vantagens de ser pidão

19 de abril de 2006, às 9:16h por Samarone Lima

Chego ao lançamento de “Zarattini: a paixão revolucionária”, na Livraria Cultura. Fico por ali, perambulando, tomo um cafezinho, espio os livros, vejo os convidados chegarem, até que vejo Lucila, minha amiga, toda sorridente. Esteve no Rio de Janeiro, reencontrou o filhote Zeca, que agora vive por lá. Me leva até Vanja Campos, que me entrega, assim de sopetão, o livro “Sempre aos domingos”, que comentei outro dia aqui neste espaço. Comentei não, pedi mesmo um exemplar a alguém, porque sou meio pidão mesmo. O livro é uma coletânea das crônicas publicadas por Renato Carneiro Campos, aos domingos, no Diário de Pernambuco.

Pronto, ganhei a noite. Fiquei lambendo o presente, olhando, cheirando as páginas. É uma linda edição da Editora Bagaço, de capa dura e tudo o mais. Fiquei pensando comigo sobre as inúmeras vantagens de ser pidão, tema para crônica futura.

Coordenei o debate sobre o livro de Zarattini, tudo correu bem, muita gente foi ao lançamento, Zarattini autografou uns 200 livros, mas por dentro eu já estava com aquela psicanálise: mais tarde, vou ler coisas lindas. Esperei como um menino que recebe um presente no Natal, mas tem que esperar o dia amanhecer, para abri-lo.

Cheguei em casa, fiz um chá, liguei o ventilador no três e comecei a ler. Dormi em cima da página 99.

É um livro que os amantes da crônica deveriam obrigatoriamente ler, e que os recifenses não podem deixar de ter em casa, num lugar privilegiado da estante. Vamos a alguns trechos:

“Acontece que alguns dias atrás, aqui na minha rua de subúrbio, voltando do trabalho, descobri, de repente, que as mangueiras estão carregadíssimas de frutos. Que os balaieiros já começam a perfumar as ruas de caju. À noite, vi cadeiras nas calçadas, um grupo de jovens tocando violão na esquina, a noite estrelada como no poema de Pablo Neruda. Valia a pena o meu amigo vir. Eu próprio, estando no Recife, tive a sensação de haver voltado”.
(In “Vitrine de verão“)
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“Foi um homem de muito sangue e muita alma: do bom comer, do bom beber e do bom amar. Comia, bebia, e amava, com fé, os bons pratos, as bebidas e as mulheres. Estava mergulhado na vida até a raiz dos cabelos. Deve ter ssaído dela sem querer, como um penetra que se põe para fora de uma grande festa. O aviso rude da morte, porém, não o atemorizou, compareceu ao encontro marcado sem xaropes, pílulas e barbitúricos, procurando testar o coração chumbado da dor da angina e da mágoa da saudade”.
(Numa crônica sobre Antônio Maria)
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“A fraternidade e o espírito boêmio, no melhor sentido da exporessão, eram os denominadores comuns, os requisitos necessários para se ingressar em tais reuniões. Os maledicentes, os censores da vida alheia, os caçadores de defeitos, os abstêmios sentenciosos, os sectários, todos esses não tinham vez. Gente assim desonera uísque e esquenta cerveja”.
(In “Sempre aos sábados“, em que fala de um gruo de amigos que se encontrava todos os sábados, para uma salutar farra.)
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“Andersen, minha boa e delicada Andersen, onde você estiver, bordando os seus paninhos ou lendo poemas de amor, escrevendo cartas em papel de linho ou pagando promessas, bebendo chá com bolacha Maria ou assistindo a novelas, conferindo a dieta ou regulando as doses de barbitúrico de mulher mal-amada, acredite que você foi o toque mais ameno desta cidade no ano que corre”.
(In “Um Zorro da Cultura“)
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“E a vida para quem não tem coragem de morrer ou de ser ridículo, de se renovar, é pior do que uma prisão, não vale grande coisa”.
(In “Tristeza do carnaval“)
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“A notícia está em todos os jornais: Joaquim Cardozo foi denunciado pelo promotor da Sétima Vara Criminal de Belo Horizonte, Francisco Raposo Lima, como um dos responsáveis pelo desabamento do Pavilhão Parque da Gameleira.
(…) Creio que, para qualquer advogado, nada mais fácil do que fazer a defesa de Joaquim Cardozo. Basta ler uma de suas poesias, fazer o rol do que ele já ajudou a construir no Brasil”.
(In “Uma injustiça de doer“)
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Só me resta perguntar a Vanja, filha do Renato Carneiro Campos, onde o livro está sendo vendido, bem como o preço. Ontem, o busquei na Livraria Cultura e não estava nem catalogado para venda. Se eu fosse dono ou gerente de vendas da citada livraria, colocaria “Sempre aos domingos” bem na entrada, para concorrer com um monte de livros recém-lançados que não dizem muita coisa. Aliás, não dizem coisa nenhuma mesmo. Geralmente, são os mais vendidos.

Vou terminando por aqui, porque terei um dia longo. Tenho ainda 320 páginas pela frente. Acabei de olhar para a rede. Não contem comigo para reuniões, trabalhos, lançamento de livros, aniversários, eventuais noivados ou a reles farra. Passarei o dia com o Renato Carneiro Campos, este pássaro pernambucano de canto raro.

Obrigado, Vanja.

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Homenagem aos que pedalaram naqueles anos

18 de abril de 2006, às 16:56h por Samarone Lima

“Muito já se falou sobre o heroísmo dos que tentaram assaltar os céus, pegando em armas para enfrentar a ditadura. As homenagens são merecidas, especialmente porque muitos, generosamente, deram suas vidas ou enfrentaram provações terríveis para que o Brasil fosse um dia melhor. Mas pouco se falou sobre o trabalho miúdo e anônimo dos que mantiveram acesa a chama da resistência nos anos de pesadelo de 1973 e 1974, quando a ditadura se pavoneava de haver aniquilado toda e qualquer oposição e parecia inútil enfrentar os donos do poder. Naquelas circunstâncias, os que teimavam em lutar sequer tinham o estímulo da crença numa vitória próxima. Seu objetivo, bem mais modesto, era simplesmente não deixar a peteca cair e impedir, de alguma forma, que a ditadura se consolidasse e o dia de amanhã fosse pior que o de hoje. Manter a bicicleta pedalando, ocupando os claros deixados pelos que estavam nos cemitérios, nas prisões e no exílio – isso era o essencial. Aos que pedalaram naqueles anos de terror, mesmo que por pouco tempo e por curtas distâncias, o país deve mais do que se imagina”.

Trecho do prefácio do livro que Franklin Martins escreveu para o livro “Zarattini: a paixão revolucionária“, do jornalista José Luiz Del Royo.

O lançamento do livro será hoje (18/04), às 19h, na Livraria Cultura, no Recife.

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As muitas vidas de um revolucionário

17 de abril de 2006, às 9:41h por Samarone Lima

Conheci Ricardo Zarattini Filho em 1993, quando eu tinha 23 anos e começava a suar naquelas velhas escadas de madeira do Diário de Pernambuco, em busca de uma boa reportagem. De tarde, estágio na redação, de noite, curso de Jornalismo na Católica, com escalas obrigatórias na lendária Cristal, ali na rua do Imperador, com Otávio de Souza, Toscano, o velho Zé Maria etc. Bons tempos aqueles.

Eu penava para concluir o curso, e escolhi como pauta para a série de reportagens, o famoso “projeto experimental”, o mistério que sempre envolveu o atentado a bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 1966. Dois engenheiros foram presos em 1968 e acusados de terem planejado e colocado a bomba, que resultou em duas mortes e muitos feridos: Edinaldo Miranda de Oliveira e Ricardo Zarattini Filho. Os dois sempre negaram a autoria da ação, mas quem fez mesmo o atentado, uma turma da Ação Popular (AP), que jamais assumiu publicamente a autoria, mesmo com a democratização do País.

O fato é que somente agora, 13 anos depois, estou conseguindo terminar aquela pesquisa, no formato de um livro. Neste intervalo, a Cristal virou uma lanchonete moderna e horrível, o saudoso Edinaldo morreu, Zarattini se elegeu Deputado Federal (PT-SP), venceu um câncer e fomos nos tornando amigos. Em 1995, o Jornal do Commercio publicou uma série de reportagens, mostrando que os dois engenheiros eram realmente inocentes, e finalmente foi feita uma pequena justiça sobre o episódio. Falo “pequena justiça”, porque o que eles sofreram nas mãos da repressão, é impagável.

Consegui às duras penas uma entrevista com Zarattini, quando eu morava em São Paulo. Foi aquela conversa meio truncada, em meio ao aniversário de uma das netas. Zarattini, com toda a razão, nunca simpatizou muito com nossa raça. Grande parte das matérias publicadas sobre ele, citavam indevidamente a história do Guararapes. Desconfio que ele também me achava moço demais para escrever sobre a vida dele. Concordo.

Outro dia, fiquei sabendo por Amparo, do Movimento Tortura Nunca Mais, que o velho combatente estava dando uma série de entrevistas a um jornalista, que vive há muito tempo na Itália. Me bateu uma dor de cotovelo dos diabos, mas a vida é assim mesmo, é preciso aceitar.

Zarattini me ligou recentemente, para falar do livro que vai ser lançado hoje, na Livraria Cultura. Sábado, fui correndo comprar a jóia, que se chama “Zarattini: a paixão revolucionária”, do jornalista José Luiz Del Roio (Editora Ícone).

Foi a leitura do sábado à tarde, entrando pela noite. Ao final da leitura, a impressão que me deu foi na verdade uma certeza que tenho há muitos anos – há pessoas que vivem demais, que têm várias vidas dentro de uma mesma vida. Uma delas é o Ricardo Zarattini.

Desde a campanha do “Petróleo é Nosso”, com 17 anos, ele já estava lutando por suas idéias, quando foi preso a primeira vez. Outras prisões vieram, após o golpe de 1964. Vieram também as torturas, morte de amigos e outros arrebentamentos, até que foi incluído na lista dos presos que foram trocados pelo embaixador norte-americano, em 1969. Esteve no México, mas queria mesmo era derrubar a ditadura. Foi para Cuba, depois saiu pela Coréia, China, Moscou, enfim.

Estava no Chile quando chegou outro golpe, o de Pinochet, e tratou de ajudar a salvar algumas vidas, encaminhando-as para embaixadas. Por último, salvou a própria pela e foi para o exílio.

Retornou ao Brasil em maio de 1974, com passaporte falso de nacionalidade italiana. Como bem diz o livro, “todos estavam mais velhos e profundamente marcados no corpo e no espírito e, sobretudo, faltavam aqueles que haviam caído na luta”. A última prisão foi em maio de 1978, quando já se pronunciava a palavra Anistia, para permitir a volta do irmão do Henfil, e tanta gente que partiu, como disseram os poetas…

Em 28 de agosto de 1979, foi finalmente sancionada a Anistia. Os exilados voltaram e os presos políticos foram finalmente libertados. Um deles era Zarattini. “Como seus companheiros, tinha os cabelos enbranquecidos e o rosto marcado de rugas”.

Ao sair da prisão, encontrou a filha Mônica, que estava com 17 anos, junto com familiares, amigos e companheiros. Apoiou-se na filha e mancando, disse:

“Dói, filha, dói esta perna. Mas vamos lá, ainda há tanto o que fazer!”

Essa frase é a cara dele.

O incansável Zarattini estará na Livraria Cultura, a partir das 19h de hoje, falando sobre sua paixão revolucionária. Por arte do destino, fui convidado para participar da mesa-redonda. Neste caso, usarei uma pequena dose de prudência. Falarei pouco e escutarei muito. Há muitas vidas dentro daquela alma, que vergou muitas vezes mas nunca quebrou. É preciso escutar com reverência.

O autor do livro estará presente.

Na ocasião, falarei diretamente da minha profunda inveja.

**
Serviço
Lançamento do livro “Zarattini: a paixão revolucionária”
Local: Livraria Cultura
Data: 18/04
Horário: 19h
Preço do livro: R$ 27,00

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Anotações aleatórias numa sexta-feira santa

14 de abril de 2006, às 2:47h por Samarone Lima

Constatações:

Agora ninguém mais chama a empregada doméstica de empregada doméstica. É a “minha secretária” pra cá, “minha secretária” pra lá e por ai vai. Agora, se o sujeito tem uma empresa com 150 pessoas trabalhando, ele diz que tem 150 empregados. Deve ser a história do politicamente correto, mas eu confesso que ainda estranho.

Acho a frase “Minha empregada está de folga hoje” muito mais bonita do que “Minha secretária está de folga hoje”. É besteira minha, eu sei, mas o que seria de mim sem minhas besteiras?
**
Nós brasileiros somos um povo esquisito. Temos negro pra caralho em tudo que é canto, salvo alguns estados que são mais branquinhos, lá pelas bandas do sul, mas temos também uma dificuldade imensa, filosófica, existencial, de chamar um sujeito de “negro”, isso do topo ao pé da famosa pirâmide social. Você pergunta como era o sujeito que acabou de passar, pode ser um negão mesmo, e o sujeito ao lado diz:

“Ah, era um bem moreno…”

Todo negro é moreno e em todo documento, o brasileiro é um “pardo”. Fiz centenas de reportagens em delegacias, e todo criminoso, seja meio branco, amarelo, negão meso, era registrado como pardo. Fui olhar no pai dos burros, o velho Aurélio, e encontrei:

“Pardo: 1. De cor entre o branco e o preto; quase escuro. 2. De um branco sujo, duvidoso. 3. De cor pouco brilhante, entre o amarelo e o castanho. 5. Mulato”.

Sinceramente, acho muito mais bonito o sujeito ser chamado de “mulato” do que “pardo”.

O professor Davi mesmo, um grande amigo meu, um sujeito formidável, negão dos pés ao cocoruto, muitíssimo admirado pela ternura e capacidade boêmia. Numa conversa com um amigo, aqui no Poço, ele me diz que o professor Davi é um sujeito gente boa demais. Bebe um copo e solta a frase:

“O Moreno se garante”.

Então eu não entendo nada.
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Vi ontem que já somos o oitavo país do mundo em quantidade de velhos. Querem que a gente use esse negócio de “terceira idade”, mas acho que um sujeito, quando envelhece, fica é velho mesmo. Se eu chegar lá, quero ser chamado de velho, nem venham com esse papo de “Samarone Lima, o cronista da terceira idade”. Melhor mesmo “Samarone, o cara que escreve sobre velhos”.

Inventaram de criar um espaço na parte dianteira dos ônibus, só para os velhinhos. Ali eles não pagam. Eles ficam lá se espremendo, em poucas cadeiras, todo mundo vai entrando e olhando, às vezes reclamando, eu acho isso uma safadeza bem brasileira. O velho deveria ter uma carteira e passar pela roleta, sentar onde quiser, como todo mundo.
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Aqui onde eu moro, no Poço da Panela, é impossivel alguém citar uma pessoa já morta sem dizer “o falecido Marco”, “o finado Barrabás”, e por aí vai. É como se a conversa tivesse que separar o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Dizem que o nome disso é cultura. Não sei se na Inglaterra é assim, a Fabiana bem que poderia explicar. Ou seja: será que os ingleses são capazes de fazer a crueldade de falar de uma pessoa, sem informar que ela já morreu? Creio que sim.
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Estou curiosíssimo para ler “Sempre aos domingos”, livro de crônicas de Renato Carneiro Campos, que morreu aos 44 anos, em 1977. O lançamento foi na quinta-feira, na editora Bagaço, da saudosa Elita, mas o liseu particular não permitiu ir ao evento – apesar de ser a 500 metros da minha casa. Vou chegar no lançamento e ficar de fulozôsô, comendo os petiscos e bebericando o vinho? Não, lançamento de livro, o camarada tem que sair com um exemplar debaixo do sovaco. É uma desvantagem esse troço de estar muito liso.

O livro é uma coletânea das crônicas que ele escreveu no Diário de Pernambuco, entre 1969 e 1977. Dizem que tem coisas lindas, e pelos trechos publicados na matéria do José Teles (Jornal do Commercio, 12 de abril de 2006), o Campos se garantia no ofício.

“Há pessoas que trabalham como se fizessem strip-tease. É uma exibição. Carrascos de horas, carcereiros de qualquer tempo livre”, diz ele, em uma de suas crônicas.

O melhor é saber que ele escreveu sobre um período glorioso do Recife, quando o Savoy era o ponto de encontro da boemia, quando a Livro 7 era “a” livraria do Recife, quando o Mustang agregava a galera da esquerda e todo mundo sonhava em tirar os milicos do poder. Hoje, o Savoy é uma melancólica lembrança, a Livro 7 acabou, o Mustang não tem o velho charme, mas pelo menos os milicos voltaram para os quartéis, pela graça de Deus.
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Tudo bem, eu confesso: se alguém quiser me dar o livro de presente, eu aceito na hora, e pago duas cervejas em Seu Vital!
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Informo que ganhei a primeira rifa na minha vida, feita pela comunidade aqui do Poço. Comprei duas cartelas (R$ 1,00 cada) e ganhei uma toalha grande, outra pequena. Ontem, Marquinho veio me trazer o pacote, embrulhado em papel de presente. Tinha um agradecimento, numa letra bem bonita:

“Obrigado por você ter colaborado para a nossa festinha ficar mais alegre. As crianças do reforço”.

Claro que vou dar as toalhas de presente a Dona Da Luz.

Haverá algum país em que uma senhora velha, muito linda, se chame “Dona Da Luz”?
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“Celebrar lo que no existe
?hay otro camino para celebrar lo que existe?
Celebrar lo imposible.
?Hay otro modo de celebrar lo posible?”
(Roberto Juarroz, poeta argentino)

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Paixão de Cristo – versão Poço da Panela

12 de abril de 2006, às 8:37h por Samarone Lima

O pernambucano é um sujeito obcecado. Quando vai chegando o Carnaval, tudo se torna festa, o ar se torna carnavalesco, não se fala em outra coisa, o comércio se transfigura, para você comprar uma fantasia, precisa enfrentar uma multidão, em lojinhas abarrotadas e calorentas, ali no centro, nas ruazinhas ao lado do Mercado de Sào José. Os músicos, que passam o ano na magra, tocando aqui e ali, tocam feito uns desesperados (tem saxofonista que termina a festa quase sem beiço), mal têm tempo de comer um queijo com mortadela.

Passado o Carnaval, o pernambucano olha para o lado e busca sua nova obsessão – a Semana Santa, que falarei logo em seguida.

Na época do São João, não se escuta outra coisa, a não ser o velho, obsessivo, fundamental, insuperável forró. Todos os sanfoneiros vivos, semi-vivos e mortos são evocados, relembrados, recuperados, tem sanfoneiro que toca três vezes na mesma noite, o mês inteiro, os dedos tudo inchados, o “arraial” é obrigatório em cada esquina, as cidades ardem em fogueira ancestrais, parece que a vida seria uma marcha patética e triste, rumo ano nada, uma melancolia profunda e celeste, sem um bom forró pé-de-serra e a espiga de milho cozida no barrigão.

Entre o Carnaval e o São João, tem outra obsessão pernambucana: a Páscoa, ou, melhor dito, a Semana Santa.

Tudo na vida de uma pessoa é a Paixão de Cristo, Nova Jerusalém, o eterno Cristo, José Pimentel, a Via-Sacra. Só hoje (vi agora há pouco no jornal), teremos sete apresentações da Paixão de Cristo, em diferentes bairros e cidade, com diferentes Cristos e Marias, apóstolos os mais diversos, interpretados das formas mais intensas. Me interessa muito a Paixão de Cristo no Morro do Peludo, em Ouro Preto, Olinda, de graça.

Os mercados ficam empanturrados de gente, em busca de peixe, todos descobrem que não podem viver sem bacalhau, o vinho sai comendo no centro, do Concha y Toro ao Carreteiro, ou galões imensos de Sangue de Boi, que Deus o tenha.

Sobre a Paixão de Cristo, tenho algo a lhes contar.

Há alguns anos, foi realizada uma encenação muito caprichada, aqui no Poço da Panela, com arquibancada e tudo o mais. Aconteceram alguns fatos que fugiram ao controle da organização, e por conta dos tais fatos inesperados, foi a última vez que a Paixão do Poço foi realizada. Após um exaustivo trabalho de reportagem, consegui descobrir o motivo do fim do evento em nossa comunidade. Vamos a eles.

Primeiro, tivemos problemas com o burrinho que trazia Jesus. Não se sabe ainda o motivo, mas o fato é que o dito animal vinha num passo lento, diria manco, com Jesus acenando, acho que com uma oliveira nas mãos, eu sempre confundo os episódios, mas pouco importa, o que importa é que na Paixão, Jesus chega num bucólico burrinho de algum canto. Lá pelas tantas, o jumentinho daqui arretou-se e saiu em disparada, atravessou a multidão e mudou os rumos da histórica cena. Muitas ruas depois, Jesus foi resgatado com vida, assustado e pálido, mas conseguiu retornar à encenação, após muita adulação com nosso jerico.

Tivemos problemas com Marco Careca, que foi escalado para ser um soldado romano. Marco é um sujeito simples daqui, um negro careca e com poucos dentes, vive de bicos, sempre passa de bicicleta com um sorrisão, mas não se enganem – é o pior jogador de futebol que já tive oportunidade de ver em campo. Pois bem, ele recebeu a roupa do soldado e incorporou mesmo o personagem. Com um chicote na mão, começou a fustigar Jesus (infelizmente não consegui descobrir quem interpretava Jesus).

“Calma, Marco, que isso é uma encenação. Tá doendo, visse?”, sussurrou Jesus, já bastante avariado e com as costas ardendo.

O sol estava de rachar e Marco, numa pose de soldado romano recém-contratado, não quis saber de acordo.

“Encenação o caralho, comigo é na vera”, respondeu, descendo mais uma chibatada no lombo do nosso Jesus.

A platéia achou lindo aquele realismo.

Sabe-se que Jesus apanhou pra caramba, até chegar à cruz, que estava aqui, defronte à Igreja do Poço. Amarraram Jesus. Novamente, Marcos Romano entrou em ação. Amarrou os pulsos de Jesus com toda a força que tinha, e a mão do camarada começou a ficar preta.

“Marco, tá doendo, cara”.

“Eu tô dizendo mesmo…”, respondeu o soldado Marco. “Jesus levou foi prego nas màos, e tu não quer sofrer…”

A situação estava complicada, quando uma galera de outro bairro chegou, e começou uma confusão com a moçada do Poço. Sei apenas que era uma rixa antiga. Daqui a pouco, o cacete estava comendo no centro, soldados romanos brigando com inimigos do outro bairro, os apóstolos dando pedradas, Maria parece que se escondeu, foi cacete até umas horas, até que a cruz, onde estava pendurado Jesus, começou a cair, e ninguém percebeu.

“Minha mão, minha mão”, gritava Jesus.

Alguém acudiu Jesus, não sei se foi Maria, deve ter sido, Maria é piedosa e boa.

Foi a última Paixão de Cristo por aqui. Depois dessa, ainda tentamos organizar uma Via-Sacra, mas a definição dos personagens foi uma confusão, acabou não dando certo, e somos muito preguiçosos para decorar as falas.

Outro dia, conversando com Marco Careca, aqui em Biu Coió, perguntei se era verdade as lapadas que ele tinha dado em Cristo.

“Ôx, e apois. Eu vou ficar alisando, é?”.

Tomou mais uma lapada de cana e completou, orgulhoso:

“Botei foi quente em Jesus”.

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