Crime e Castigo na Livro 7, uma história de paixão pelos livros e lembranças que se encontram
Samarone Lima
Aconteceu algo incrível, na crônica anterior. Citei assim, de orelha, en passent, como dizem os franceses, um caso que Inácio França, meu dileto amigo, tinha contado. Era a história de um sujeito que ía à Livro 7, diariamente, lia um pedaço de um livro, deixava marcado e escondidinho, e no dia seguinte voltava. O dono da livraria, Tarcísio, ficou sabendo, orientou o vendedor a não importunar o leitor, e quando o rapaz terminou tudo, ganhou o livro de presente.
Pois bem. Eu não lembrava quem tinha me contado a história. Inácio me respondeu que foi ele mesmo. Por sua vez, Inácio não lembrava exatamente o nome do livro. Chutou o Crime e Castigo, do Dostoievsky, porque Inácio é o único amigo que conheço, que já leu Crime e Castigo inteiro, do crime ao castigo. Acho que Gustavo também leu, mas não tenho certeza, porque o velho potiguar anda mais caindo para o lado da poesia.
Pois bem de novo. Nos comentários dos meus poucos mas fiéis leitores, um sujeito disse apenas o seguinte:
“Sou eu quem li o Crime e Castigo na Livro 7. Ganhei de fato o livro de presente”
Acontece, meu amigo leitor, que isso não se faz. O comentário vem como “anônimo” (aliás, não sei porque cargas d’água, quase todos os comentários do meu blog vêm como “anônimo, eu não posso nem responder ou interagir com as pessoas). Meu amigo, por favor me mande um comentário com seu email, porque não é todo dia que a gente encontra um sujeito que leu Crime e Castigo, em pequenas goladas, no banco duro de uma livraria no centro do Recife, e ainda ganha o livro de presente do dono do estabelecimento.
Imagino sua liseira naquele período, seu amor aos livros, sua paciência, para ir diariamente (ou três vezes por semana, Inácio não me contou os detalhes). Como ficaria você, espiritualmente, psicologicamente, afetivamente, se chegasse por lá e o livro tivesse sido vendido? O que você teria feito da vida? Teria buscado outro Dostiévsky? Teria partido para outro russo, como o Maiakóvsky? Não, não, Maiakóvsky é poeta, sua praia parece ser o romance mesmo, e o romance denso. Teria passado para o Tchekov, Mandelstam ou Puchkin? Teria ficado amargurado, encheria a cara com aguardente barata, limão e espetinhos de caráter duvidosos? São muitas as minhas dúvidas, amigo, por favor não me mate de curiosidade.
Falo isso porque, dependendo do período, poderemos até ter nos esbarrado em meio aos labirintos de madeira da famosa livraria. Será que cheguei a folhear o seu livro? A sorte, amigo, é que nesta época, eu vivia num estado de liseira crônica, e o “seu” livro é um tijolão. Roubar Crime e Castigo, na minha opinião, já é muita cara de pau.
Acabei de pegar o meu exemplar de Crime e Castigo, comprado em fevereiro de 2002. Aqui vai uma confissão: parei na página 145. Estou até envergonhado por não ter encarado de frente um dos clássicos da literatura mundial. Você e Inácio me perdoem pela fraqueza, meu amigo. Às vezes, é preciso um pouco de raça, perseverança, para chegar ao deslumbramento de uma grande obra de arte. Fui realmente um reles leitor vagabundo. Como dizem os jogadores, ao perder um gol feito, eu “não estava num bom momento”.
Acabei de dar vários telefonemas, desmarcando compromissos inadiáveis, uma ida ao Detran, entrega de uma máquina de fotografia ao próprio Inácio, além do pagamento de duas dívidas e a compra de alguns mantimentos caseiros. Também nada de cinema, ver os gols da rodada de ontem, coisas sobre a Seleção Brasileira ou eventuais telefonemas.
Agora estou seco de curiosidade para saber que cargas d’água esse Raskólnikov andou aprontando, a ponto de fazer um sujeito bater ponto em uma livraria, buscando seu quinhão diário de beleza.
Sinto muito, amigos, mas tenho 416 páginas pela frente. Vai ser uma luta e tanto.
Ao leitor desconhecido da Livro 7.
Notas:
Depois da crônica, retomei a leitura do Crime e Castigo e é algo estrondosamente belo, recomendo.
Voltei a atualizar o blog de poemas (www.quemerospoemas.blogspot.com)
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