Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

maio 2006
D S T Q Q S S
« abr   jun »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos


Usuários online


De volta à vida…

7 de maio de 2006, às 21:10h por Samarone Lima

Descobri que estava recuperado da virose barra pesada quando acordei logo cedo, no domingo, e dei um pulo do colchão, pensando na pelada dos Caducos. Mas o corpo me deu uma cotovelada e avisou que seria um exagero. Fui lentamente para o campo de Seu Abdias, de sandálias havaianas, feito moleque adulto malamanhado, e assisti aos vários jogos de nossa gloriosa pelada. Tive que quebrar o galho como juiz, na última partida, e não fiz feio. Apliquei amarelo em Daí (uma solada feia em Noé) e outro em Xande (que estava me esculhambando direto).

Depois, casa de tia Flocely, no Cabo, para matar saudades da amadíssima criatura de cabelos brancos. Fiquei de longe, porque não queria passar nenhum vírus, mas na hora do almoço ela me intimou a ir para a mesa. Recusei, alardeando que ela poderia pegar a virose etc.

“Pode vir, que eu me garanto”, disse ela.

“Não, tia, melhor não. Essa virose é pra lascar”.

“Eu tenho o corpo fechado, rapaz”.

Nem assim. São meus cuidadinhos. Ela está com seus 79 anos.

Cheguei em casa à tardinha, olhei a confusão dos muitos livros ao redor do colchão, os DVDs, cadernos. Pela primeira vez, desde o começo de maio, me vi sozinho em casa, um domingo à tardinha, recém-convalescente.

E se de um lado me senti mais forte no corpo, aquele gosto bom da cura, surgiu um desamparo, uma tristeza, talvez uma nostalgia de coisas vividas e não vividas, apesar de ser tudo muito quieto, sem agitação, sem vontade de procurar alguém para contar algo e tentar me consolar. Uma tristeza, só isso, essas coisas da alma - e quem tem alma sabe quando dói.

Dei uma geral nas coisas, arrumei a confusão, tomei um banho e fui devolver um filme que não assisti, intitulado estranhamente “De tanto bater meu coração parou”. Não sou de ferro: levei uma pipoca no bolso. Entreguei o filme e fui para a praça de Casa Forte. Reparei numa moça muito bonita, sentada num banco, mas com excesso de maquiagem. Parecia esperar alguém e o olhar era triste. Talvez estivesse triste pelo contrário: não tinha ninguém para esperar. Dois bancos depois, um desses moradores de rua ou de praças. Fiquei no banco seguinte, olhado a paisagem, que é linda.

Então me pus a reparar nele, no meu amigo vagabundo, de soslaio. Estava de boné, um daqueles bonés encardidos, uma camisa encardida, um bermudão encardido. Não sei se sua alma estava encardida, creio que não. Há tanta gente limpa e cheirosa que leva podridões por dentro…

Então, ele puxou timidamente um saco de plástico, e começou a comer um pão com qualquer coisa dentro, à seco mesmo. Não tinha um reles Kisuco para adoçar a vida. O detalhe é esse: ele comia com uma rara elegância, sem pressa, mastigando bem aquele quase nada, olhando para as plantas na água, para algum vazio ao redor. Parecia estar pensando em algo muito distante. Eis o ser humano, pensei, sentado numa praça, noite de domingo, comendo seu pão duro, com a ajuda somente da saliva. Tem gente que parece ter somente sua própria água como amparo: saliva e lágrima.

Comi minha pipoca, joguei algumas para os peixes, fui embora, deixando meu amigo jantando sozinho. Passei numa barraca, pedi uma água de côco e bebi devagar. A barraca estava quase fechando, quando chegou um camarada com cara de hippie (olha quem fala).

“Zeza, estou te devendo um e cinqüenta. Segura aí, que o Santa está muito ruim, e quando melhorar, te pago”.

Zeza fez um muxoxo.

Voltei chutando pedrinhas. Voltei sem medo de assalto, porque não tinha um tostão no bolso. Quase em casa, encontrei dois bebinhos aqui do Poço, tropeçando um no outro e falando alemão. Me pediram uma moeda para encerrar a noite. Como falo alemão perfeitamente, cutuquei tudo, encontrei vinte centavos, uma merreca.

“Essas moedinhas vão te trazer muita felicidade”, disse o bebinho.

“Imshalah”, disse eu, invocando o velho Daniel Raton, antes de entrar em casa.

Postado em Crônicas | 9 Comentários »