Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Aproximações, ou afinidades afetivas

15 de maio de 2006, às 16:55h por Samarone Lima

Não sei exatamente de onde veio isso, talvez depois de uma manhã inteira dando aulas para jovens que moram em bairros periféricos do Recife, na tal “Oficina da Palavra”. O fato é que aprendo muito com os alunos, acho que acontece o fenômeno da troca. Sei algumas coisas, passo para eles, em troca recebo novos olhares sobre as coisas e o mundo. Isso me deixa muito cheio de idéias, quase todas sem importância nenhuma para a humanidade.

Na volta, entro no Unibanco para ver se um cheque caiu, e tem um camarada na porta do banco, numa cadeira de rodas.

“O senhor pode me dar um minuto de sua atenção?”, pergunta.

Acontece que nunca é um minuto, e já sei o assunto – doação para alguma coisa que está faltando. E era mesmo. Ele tinha uma medalha no peito, e estava fazendo campanha para comprar outra cadeira de rodas, certamente mais confortável.

“Rapaz, estou liso que só um gambá. Se o dinheiro cair, te ajudo”, respondi. Não deu tempo ele dar mais detalhes sobre o processo da compra da tal cadeira. Agora mesmo, enquanto escrevo esta crônica, me vem uma gravíssima dúvida existencial – quanto custa uma cadeira de rodas?

O cheque não caiu. O saldo da conta era R 0,58. No bolso, eu tinha outros R 0,65 e um vale A. Dar um vale A para o sujeito que quer comprar uma cadeira de rodas nova é covardia.

“Deu zebra. Meu dinheiro ainda não caiu”, disse, antes de caminhar para casa, ali pela 17 de Agosto.

E o tema ficou latejando na minha cabeça – aproximações. Mas o que diacho é isso, pensei. Será o tema da minha próxima crônica, chegando sem pedir licença, enquanto avanço rumo ao Poço da Panela, com meu passo de camelo?

Então veio um carteiro suado, passou por mim levando as cartas para alguém, isso quase uma da tarde. Caiu a ficha. As aproximações que eu vinha ruminando em silêncio eram uma espécie de afinidade afetiva. Há muitos e muitos anos, tenho uma simpatia ancestral pelos carteiros, uma raça que anda. Eu gosto muito de gente que anda. Gosto mais de gente que anda do que gente que corre, apesar de ter uma frustração, que é não ter sido maratonista.

Resolvi passar no Hiper Bompreço, para olhar os livros, o que chega a ser patético. O sujeito com R 0,65 no bolso vai a um supermercado olhar livros! Então veio a segunda aproximação (ou afinidade) da tarde – fui olhar as TVs, fingindo que iria comprar algo, mas somente para ver os gols da rodada de ontem, do Brasileirão, e a lista dos jogadores brasileiros convocados para a Copa. Outros malandros estavam lá, gente de bem, fingindo olhar a marca da TV, mas esperando os gols e a lista do Parreira. Em poucos segundos, surgiu uma mesa redonda, e respiramos aliviados – ele convocou o Rogério Ceni para o gol. Os cronistas do supermercado reprovaram em peso a convocação do Ricardinho, que “não é jogador de seleção”. Eu, que não sou de ferro, também desci a lenha.

Passo no setor de DVDs e vem a aproximação/afinidade número três. Estão exibindo um show antigo do velho Luís Gonzaga. Acho que esse negócio de aproximações é uma forma simples de dizer as coisas que gosto: gente que leva cartas, a escalação do nosso selecionado canarinho, Luís Gonzaga cantando, com Dominguinhos na sanfona. Sinto um remorso muito antigo por nunca ter visto Luis Gonzaga tocando ao vivo.

Depois de enrolar, saio do supermercado sem gastar nada. No caminho, tem uma padaria, lembro que o café expresso custa R$ 0,60. Paro, tomo um baita de um café expresso no calor “arrombante” do Recife, como diz a velha Grão de Bico, e continuo a jornada. Pocot, pocot, pocot, pocot. Percebo outra aproximação – café. Ainda tenho R$ 0,05 no bolso, dá para uma bala.

Chego em casa suado, cansado, e resolvo dar uma geral na casa (por conta da grave crise financeira deste que vos escreve, no primeiro semestre, tive que cancelar provisoriamente os inestimáveis serviços quinzenais da gloriosa dona Fátima). Mandei ver. Do lado de fora, Zé Carlos, nosso bêbado de estimação aqui do Poço, dava seus gritos lancinantes. Ele é aquele típico bêbado esculhambado, que fica de calção, descalço, errante pelas ruas. Ele chega aqui na frente de casa, dá um grito e depois completa:

“Samarão, iurruuu uêeeee iau uôoool!’

É uma língua estranha, mas entendo tudo. Às vezes eu saio, e dou uma moedinha para ele bicar mais um pouco, mas gastei todo o orçamento no café. Tinha só o vale A, mas é covardia dar um vale para o cabra beber. E R$ 0,05 não dá nem para meia cana. Finjo que não estou em casa. Ele grita, grita, até cansar. Depois vai embora, perturbar outro.

Além disso, iria aparecer um sujeito politicamente correto para reclamar:

“Tu tem coragem de dar o passe para um bêbado, e não dá para o cara numa cadeira de rodas?”

Não posso fazer nada. São as tais afinidades afetivas.

Além do mais: quem disse que o sujeito da cadeira de rodas não vai entornar todas e errar o caminho de casa?

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