Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Para não cairmos na reles histeria

19 de maio de 2006, às 15:13h por Samarone Lima

Esta semana tive uma discussão pesada com um grupo de amigos, todos de classe média, e com acesso farto às informações sobre o Brasil e o mundo. Lá pelas tantas, entre uma cerveja e outra, surgiu o tema do PCC, ou Primeiro Comando da Capital. Para quem não sabe, esta semana, a organização criminosa tomou conta de São Paulo, e em dois dias, fez estragos feios na vida brasileira: 180 ataques a prédios públicos, 56 a ônibus e 8 a bancos. Mais de 80 mortos, muitos deles policiais, e motins em 73 dos 105 presídios do estado, com 351 reféns.

O placar ficou assim: dois amigos achavam que a Polícia deveria matar todo e qualquer preso em rebelião, não importando a quantidade. Podia ser 20, 30, 40 mil presos. Rebelião? Bala. Pou! Pou! Um avaliou que era preciso matar “somente” os líderes. O quarto defendia que chegassem também as famílias dos presos. E não estavam brincando.

Do lado de cá, tentando pensar um pouco nessa coisa chamada “estado de direito”, ponderando que a eliminação física dos caras não vai resolver nada, apenas gerar mais violência, ficamos eu e Ivanzinho, mas Ivanzinho trabalha no Centro Luis Freire, uma ONG que defende os direitos humanos, então sua visão crítica já era esperada.

Eu cada vez ando mais alheio a esses debates acalourados, em voz alta, com posições muito definidas e conceitos estabelecidos. Mas teve uma hora que não deu para ficar só escutando a linguagem da matança, que se você tiver um filho você vai sentir na pele, que bandido tem que morrer mesmo, que estão dando muita folga, que esse negócio de direitos humanos só defende bandido, enfim.

Entrei na discussão e relembrei um ano fundamental em minha vida: 1997.

Foi quando comecei a trabalhar na redação do Diário Popular, hoje Diário de São Paulo, cobrindo Polícia. Foi quando conheci o jornalista Josmar Josino, que considero o maior jornalista do Brasil, hoje.

Alheio a entrevista, incapaz de dar uma entrevista, Josmar recusa sempre participações em debates na TV, quer ficar no anonimato mesmo. É o outro lado da moeda do jornalismo médio brasileiro, que adora aparecer, que tem a vaidade a mil, os mauricinhos da mídia, que se acham o máximo porque trabalham na Folha de São Paulo, na Globo, e por aí vai. Lamento, mas são muitos.

Pois foi no anonimato, entrando e saindo de prisões, que Josmar começou a entrevistar os caras do PCC, quando o troço ainda estava surgindo. Lembro da primeira vez que ele chegou à redação com o “Estatuto do PCC”. Muitos riram daquele “exagero”. Josmar começou a entrevistar os familiares dos caras, as esposas, os pais. Ano passado, ele lançou um livro sobre o Primeiro Comando, intitulado “Cobras e Lagartos” (editora Objetiva), que hoje é nome de novela. As cobras e os lagartos das prisões são bem mais barra-pesadas que os da TV, garanto.

Sugiro aos candidatos à histeria, aos que defendem a eliminação de todo e qualquer preso em rebelião, a leitura do livro. O PCC não surge do nada, meus amigos. Surge logo após o massacre do Carandiru (2/10/1992), quando 111 presos foram fuzilados. O governador era Luis Antonio Fleury, hoje deputado federal e defensor do estado de direito. O comandante era o coronel Ubiratan Guimarães, que se elegeu deputado com o simbólico número 1111. Voilá.

A idéia dos caras era simples: se mataram 111, vão entrar em outros presídios e matar mais gente. “Eles resolveram se organizar para evitar um novo massacre”, diz Josmar, que atualmente trabalha no Jornal da Tarde.

O PCC nasceu também de uma realidade nas prisões brasileiras que a classe média histérica se recusa a olhar ou aceitar, e talvez até ache normal. Maus-tratos, surras, espancamentos, banho frio nas madrugadas (para presos com tuberculose), presos com cinco anos detrás das grades, sem direito a visita, outros confinados em solitárias por várias semanas, sem ver o sol. Nas cadeias brasileiras, a lei não chegou. O Aníbal Bruno, aqui ao lado, é um inferno pegando fogo.

O problema é que o negócio cresceu, e os caras descobriram que também poderiam se organizar para o crime, e o PCC virou uma máquina estruturada, com funções, obrigações, atribuições e missões. “Os caras cumprem ordens como se fosse um fanático religioso”, me conta Josmar.

O PCC tem estatuto, arrecadação mensal (mensalão, versão presídio), o “arrecadador” (o Delúbio deles), tem solidariedade com os presos fodidos, os que têm família passando fome, do lado de fora, tem advogado e tem muitas outras coisas que não sabemos.

Pelos cálculos de Josmar, dos 140 mil presos de São Paulo, 95% estão filiados ao PCC. Do lado de fora, cerca de 10 mil homens fazem o que o Partido mandar. Para “eliminar” o problema, como querem meus amigos, teríamos que matar mais ou menos 130 mil pessoas.

As notícias não chegam direito, mas a Polícia de São Paulo está dando sua contribuição para essa eliminação. Já foram mortos cerca de 120 “suspeitos”. Todos estão sendo enterrados como indigentes, no cemitério de Perus, do mesmo jeito que a ditadura fazia com os presos políticos.

Pior: o governador Cláudio Lembo negociou o comando do PCC o fim das rebeliões. Vão entrar TVs para a Copa, e o número de visitas vai dobrar. É ano eleitoral, certo?

Em 2 de novembro de 1992, o massacre do Carandiru não foi noticiado. Era véspera de eleição.

Estamos no famoso beco sem saída. Meu medo é que entremos na reles histeria. É quando escolhemos a pior saída.

Para Josmar, que me avisou em 1999: os caras vão dominar tudo.

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