Ponderações imediatas sobre os cajás
Samarone Lima
Começou a festa dos cajás no Recife. O fenômeno cíclico da generosidade nos oferece pés abarrotados. A árvore, da família das anacardiáceas, é muito freqüente nas várzeas e nas matas de terra firme argilosa do Amazonas, informa o digníssimo Aurélio, à página 317. Não estamos nas terras do Amazonas, mas aqui tem cajá pra chuchu. As folhas são compostas de muitos “folíolos oblongos”, “flores insignificantes e agregadas em inflorescências racemosas”. Não sei o que são “folíolos” e também não vou ficar consultando o dicionário a manhã inteira, mas discordo em um ponto: não existe flor insignificante. Agora: “agregadas em inflorescências racemosas”, é poesia pura, em pleno dicionário.
Aqui ao lado, onde moro, há duas gigantescas árvores, que espalham a fruta pelo chão, desde as primeiras horas. Às seis da manhã, é possível ver o senhor Rabaçã passar com seu andar leve, seu cigarro no canto da boca, catando atenciosamente o fruto que, segundo o Aurélio, é “uma drupa elipsóide amarela, aromática, muito sucosa e fortemente azeda, própria para refrescos e sorvetes”. Não sei o nome de Rabaçã. Sei que ele viajava muito, parecendo uma ave de arribação, e ganhou o apelido. Todo mundo só o conhece como Rabaçã mesmo, e ele é o pai de Raimundinho e Sprite. Também não sei o nome de Sprite, mas não sou tão burro, sei o nome de outros vizinhos, como Naná, que é Evaldo Gomes de Moura.
Não sei o que é uma elipsóide, mas no meio da minha burrice sobre a botânica e frutânica, lembro ao senhor Aurélio que ele esqueceu de uma coisa – o cajá é a fruta própria não apenas para refrescos e sorvetes, mas para boas lapadas de cana. Um bom e reluzente cajá pede, incontinente, como diz o mestre Davi, uma dose. Era a fruta oficial do nosso finado amigo Barrabás. A essa hora, Barrinha, como era conhecido, já teria consumido uns seis cajás, com a mesma quantidade de cachaça. Onde hoje passa Rabaçã, estava sempre Barrabás, rondando, com seu óculos de basculante, sem camisa, com uma eterna bermuda quase até os joelhos, à procura da fruta para “uma lapadinha”. De Barrabás, sei apenas que era Severino, e nada mais. O apelido Barrabás veio do teatro. Na Paixão de Cristo, ele se destacou no papel do citado personagem, e o nome seguiu para a vida.
Hoje, a fruta é a cara de Zinho, mais conhecido por aqui como “Garotinho”, nosso ex-taxista, que agora se dedica ao esporte nacional da Pitu. Também não sei o nome de Zinho, mas sei que ele joga um bom dominó e que bebe uma latinha da aguardente ao meio dia, outra à noite. Com a chegada da safra de cajás, o garotinho anda rindo à toa, mas está sem freios. À noite, aqui em Vital, pode ser visto bem vermelho, suado e com os olhos brilhando. É muito aperitivo, meus amigos, haja fígado e disposição para enfrentar o tranco. Do meu pequeno reduto, lanço a proposta: que o cajá seja a fruta oficial dos caneiros do Recife. E tomara que a safra não dure tanto, porque zinho já não é mais esse garoto todo.
Lembro que voltei ao Recife em 2000, depois de seis anos em São Paulo, e estava no tempo dos jambos. Meu deus, era jambo para tudo que era lado! Mas o que eu gostava mesmo era de umas ramagens avermelhadas, que o jambeiro solta, que formam um tapete pelo chão em várias ruas e calçadas. Acho uma espécie de delicadeza da natureza, enfeitar as ruas para a gente, isso tudo de graça. A beleza mata outras fomes.
Há a safra de mangas, quando meninos fazem a festa, e passam com sacos imensos, abarrotados da deliciosa manga-espada. Só aqui no meu quintal, caem em média de cinco a seis por dia, na época mesmo da safra. Dona Jane, a proprietária, já ameaçou cortar a mangueira umas três vezes, por motivos ainda não muito claros, e fiquei meio atormentado. Usei argumentos diversos, falei do efeito estufa, lembrei da importância das frutas, até que parti para o reles dramalhão mexicano. Fiz cara de choro e disse, num tom melancólico:
“Tudo bem, dona Jane, mas deixe para cortar a mangueira quando eu estiver viajando, porque vai ser muito triste”.
Acho que isso mexeu com ela. A árvore ainda está lá. Fui dar uma olhada pela janela do meu quarto. Está frondosa, cheinha de mangas, ainda verdes. Daqui a pouco, começam a cair, para a nossa festa. Não há nada mais delicioso do que acordar, pegar uma boa manga-espada no quintal, sentar num tamborete, sob o sol matinal, e comer a fruta, se lambuzando um bocado.
Mas confesso um medo secreto e não revelado: voltar de viagem e encontrar somente o cotoco da árvore.
Como diz o velho e bom Nana, “vai magoar”.
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