Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Uma pequena celebração, em meio ao caos

26 de maio de 2006, às 12:31h por Samarone Lima

Foi ontem, nesses encontros ao acaso, desses que começam com uma proposta simples – uma cervejinha, depois de uma reunião de trabalho, antes de voltar para casa. De mansinho, foram chegando outros amigos, e em pouco tempo, éramos seis pessoas, num desses botecos fora de moda, no Bairro do Recife. A tarde deslizava suave, o sol estava exageradamente belo, quase sagrado, e tivemos aquela alegria de uma boa conversa.

Pode parecer simples, mas a boa conversa conversa é uma arte. A arte de sair do lugar-comum, falando das coisas mais simples. A arte de escutar com atenção, enquanto o outro fala. A arte de rir em conjunto, dizendo “eu não acredito”, quando alguém conta uma história inacreditável, mas verdadeira. A arte de não buscar a discussão, o certo e o errado, de não definir os culpados, de não apresentar a verdade gravada no mármore do hoje, mas agregar esperanças, pensar a vida, ir juntos numa espécie de bondade gratuita, de generosidade, uma partilha em que cada um dava um pouco de beleza ao outro.

Tivemos de tudo. Relembramos a época das “grandes liseiras”, quando a pessoa sai de uma festa e vai esperar, às três da manhã, o famoso “bacurau”, que é o último dos ônibus da face da terra, e não vem nunca. Ah, relembrei minha época de Casa do Estudante, quando minha mãe me levou de presente, uma caixa de Ypióka, e meu quarto virou um inferno de gente querendo “só uma dose”. O juntar os trocados para um táxi. O casal que cancelou uma viagem para a França, para comprar um terreno, onde vivem até hoje. A história de um poodle que se jogou do oitavo andar. Descobri, alarmado, que os animais também se suicidam (sempre desconfiei que isso era artimanha somente dos homens, para sair de cena mais cedo..)

Uma das pessoas deu explicações as mais complexas e definitivas sobre as personalidades dos cachorros. Disse que o labrador é “mais evoluído espiritualmente” que os outros. Seu marido foi mais longe. Avaliou que o labrador “é o símbolo da compaixão”.

“É o que estou precisando”, completou o recém-chegado à mesa, com sua cara de monge, e se preparando para ir morar para os lados de Maragogi. Ele tem um labrador. Perguntei a idade.

“Quatro meses”, respondeu rápido. “Completa hoje”. Esse gosta mesmo do seu cachorro, pensei.

Um dos nossos contou que o filho ganhou um poodle “tão fresco, mas tão fresco”, que quando começou a andar, feriu as patas. Sempre achei o poodle cheio dos faniquitos, mas ferir as patas porque começou a andar, aí é demais.

“Minha mãe fez sapatos de crochê para ele”, disse sua esposa. Neste momento, perdi a rara oportunidade de solucionar uma dúvida existencial – a diferença entre crochê e tricô. Se alguém souber, agradeço.

Fiquei sabendo finalmente que tenho um jabuti, não um cágado. O jabuti é terrestre, come frutas e verduras. O cágado tem membrana entre as patas, e tem que ter água por perto. Informo que o lá de casa não tem membrana entre as patas.

Depois falamos sobre carros. Mas era sobre nossa paixão por carros velhos. Eu tive um Fusca 68, que terminou sua carreira afundando um Honda Civic, o casal amigo teve uma Kombi, durante muitos anos, o recém-chegado teve um Fusca 1970 e depois um Puma. Eu nunca tinha conhecido alguém que já teve um Puma, finalmente conheci.

Lá pelas tantas, já estava anoitecendo, estávamos contentes, rindo, sem invocar, para nossa roda, as violências do PCC, da Polícia, as mortes todas, a sensação ruim das últimas semanas, que abateu tanta gente, aquele sentimento de que o Brasil realmente vai ser esse eterno desencontro, essa estupidez, esse eterno jogar fora de riquezas - ou como diria o mestre Edinaldo Miranda, “esse país que tem desperciçado tudo, principalmente gente”.

Não, estávamos no meio daquela boa conversa fiada, amena, apaziguadora. Ríamos de tudo, de nossas bobagens, amores, erros. Falávamos com ternura de nossas épocas difíceis, dando um sentido novo ao passado. O futebol não fez parte da pauta. Ninguém considerava seu time o melhor, sequer falamos da Copa do Mundo. Lá pelas tantas, duas amigas pegaram sandubas deliciosos, e partilhamos em pequenos pedaços.

Já era noite quando nos despedimos. Desconfio que fizemos uma pequena celebração, sem perceber

Para Rose, Sérgio, Rosana, André, Michela, e o Neto, que chegou depois.

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