Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Breve relato de inaugurações

29 de maio de 2006, às 12:58h por Samarone Lima

Lembro de muitas inaugurações em minha vida. O primeiro livro que me emocionou, a primeira viagem sozinho, para outro estado, o primeiro trabalho como jornalista profissional, o primeiro amor, a primeira viagem para o exterior. Inaugurações que continuam pela vida, sempre em mutação. A primeira aula na Universidade, a primeira crônica, a primeira aula no mestrado, a primeira cana com o melhor amigo, a primeira faixa de campeão do meu time, enfim.

E na semana passada, presenciei a inauguração de vários alunos, que caminham comigo na Oficina da Palavra, na escola Kabum!, onde estou ensinando. Gosto muito cada vez mais disso: minha profissão agora é educador. A inauguração foi simples - fomos juntos à Livraria Cultura, aqui perto. Fomos caminhando, olhando os prédios do Bairro do Recife.

No caminho, esbarramos na bela exposição do Romero de Andrade Lima, no Espaço da Alfândega, homenageando 30 escritores. Os alunos olharam tudo com atenção e seguiram para a livraria. Quase nenhum deles tinha entrado naquele espaço. Olharam tudo, leram trechos de livros, vieram tirar dúvidas. Hoje, fui com o restante dos alunos, todos na faixa dos 16 aos 19 anos, moradores de bairros da periferia, aqui do Recife.

Fiquei lá em cima, bebericando um café, enquanto eles se espalhavam pelos espaços da Cultura. O que me encantou foi simples - ver muitos deles sentados nos duros sofás da livraria (acho que os sofás da Cultura dizem o seguinte: “podem ler os livros, mas aqui você não agüenta ficar muito tempo”) - , absortos em leituras, fazendo anotações, perguntando preços. Uma hora de vivência com o universo dos livros.

Na volta, um deles veio me contar, com uma alegria sincera, um conto dos Irmãos Grimm, que acabara de ler. Foi falando do texto, foi me contando a história em detalhes, enquanto atravessávamos o Bairro do Recife. Estava eufórico. Chegamos à escola, e ele ainda não tinha terminado. Vai contar o restante depois. Outra aluna contou que está lendo um livro aos pouquinhos, com visitas diárias à Cultura. Ela vai, lê um capítulo e depois segue para casa. Veio me perguntar o que é “psicologia evolutiva”, mas, apesar de ter muita gente de psicologia por perto, não sei o que é. Prometi resolver a questão na próxima aula. Aceito ajudas on line.

Então lembrei de uma história, acho que quem me contou foi o Inácio, se não foi, fica sendo. Dizem que Tarcísio, da gloriosa Livro 7, ficou sabendo que uma pessoa ía todos os dias, pegava um livro, lia, marcava e deixava escondido.Era, de certa forma, o “seu” livro, mesmo sem tê-lo comprado. O vendedor percebeu e avisou, mas Tarcísio disse que deixasse como estava. A pessoa leu o livro inteiro, em pequenos goles de alegria, em encontros silenciosos, certamente num temor contido de que o livro fosse vendido, e seus encontros terminasse. Ao final, Tarcísio deu o livro de presente, creio, não sei exatamente se deu, mas está dado, é a minha licença poética, quando a gente escreve, pode mudar o passado também.

Voltamos para a escola, eles me falaram da visita, dos livros, daquela inauguração. A alegria espantada era geral. “Dá vontade de levar todos os livros, professor”, disse um aluno, repetindo a mesma vontade que tenho.

Uma aluna se encantou com um livro do Carlos Drummond, onde citava o Fernando Pessoa. Aproveitou a visita para copiar o poema inteiro. Tímida, não quis ler para a turma. Espero que esses alunos se encantem com o mundo da literatura, e façam seus vôos.

Lembro que cheguei ao Recife, em 1987, e trazia poucas coisas para começar a vida. Uma bolsa com as roupas e uma caixa, com meus livros fundamentais. Sem eles, eu não sairia de Fortaleza. Aliás, sairia sim, porque tenho uma alma de andarilho, mas ficaria capengando pela vida, até reencontrá-los. Percebi agora, escrevendo esta crônica, que isso foi há 18 anos, naquele intenso mês de julho. Por sorte do destino, fui morar em Casa Amarela, bairro popular e misturado, populoso e intenso. Definitivamente, sou um homem da Zona Norte do Recife, mas acho que isso não tem nada a ver com a crônica de hoje, que fala de inaugurações, estou misturando os assuntos, melhor parar por aqui.

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