Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Perambulações matinais

22 de maio de 2006, às 9:29h por Samarone Lima

Segunda-feira, sete horas da manhã. Espero o ônibus para ir à escola, dar aulas. Fico esperando, com meus livros, e pratico um dos meus esportes prediletos: olhar as pessoas, os anônimos, essa legião que desconheço, e que passa, todos os dias, indo para algum lugar. À minha frente, muito quieta, diria que num estado de serenidade pura, uma moça jovem, belíssima, uma beleza intacta, com aqueles cabelos macios que caem pelos ombros. É dessas mulheres que têm uma penungem nos braços, umas sobrancelhas intensas e o olhar doce. Segura seus livros e espera o ônibus. A beleza em excesso deve também atrapalhar um pouco sua vida. Há carros que buzinam e homens que passam, de bicicleta, com aquele olhar meio faminto para ela. Aquele olhar invasivo, que vai da cabeça aos pés. Eu só observo, em silêncio, até que ela pega o Dois Irmãos/Rui Barbosa, e vai para alguma aula.

Às sete da manhã, todos os ônibus para a “cidade”, como dizemos por aqui, estão lotados. É muita gente, todos os dias. Ainda tem besta dizendo que o povo brasileiro é preguiçoso. Acho que o povo trabalha demais. Espero sempre algum ônibus mais folgadinho e embarco. Do meu ponto até o Bairro do Recife, são uns 47 minutos. No ônibus, as crianças têm as pequenas introduções à gentileza. Sempre há alguém pedindo para segurar a bolsa do outro, sempre alguém se levanta para dar o lugar ao mais velho. Hoje mesmo, vi uma mocinha pedir para segurar os cadernos de um rapaz. Sem esse pequenos afagos, essas micro-ternuras, a vida seria mais difícil.

Ah, as conversas dentro dos ônibus… Aguço sempre os ouvidos, fico atento aos detalhes. Hoje, duas senhoras conversavam muito. Melhor: falavam alto, sem se importar com os outros. Pareciam estar na cozinha de casa, mas estavam no Sítio dos Pintos/Dois Irmãos. Lá pelas tantas, a conversa girou em torno de um cachorro do filho, creio. Foram uns dez minutos falando sobre o caráter do animal.

“Aquele cachorro é triste. Outro dia, cagou em cima do sofá!”, disse uma delas. Eu, claro, já simpatizei com o vira-latas.

Adoro esse jeito do pernambucano usar as palavras. “Aquele cachorro é triste”, não quer dizer que o animal é macambúzio, depressivo, quer dizer que ele, o cão, não vale nada. “Aquilo é um triste”, se usa para dizer que o camarada é uma praga do Egito. “Eita bicho febrento” se usa para alguém não muito agradável. “Isso é que é uma miséria”, se diz quando o sujeito é muito, mas muito ruim de bola.

Sim, mas onde eu estava mesmo? Ah, no Sítio dos Pintos/Dois Irmãos, escutando admoestações sobre o cão. Informo que ali, depois do Hospital da Restauração, surgem os primeiros assentos livres, se der sorte, dá para descolar uma janelinha. Sou amante das janelas e do vento. É melhor para reparar as pessoas e criaturas, ver o bailado matinal de tanta gente, indo para tantos destinos diferentes, numa cidade que amanhece a mil por hora.

O ônibus perambula ali pelo bairro de São José, passa pelo Forte das Cinco Pontas, o suficiente para revelar a fulgurante presença dos vigilantes, muitos com aquela cara amarrotada, uns porque dormiram demais, outros porque ficaram atentos à madrugada.

Vou chegando ao Bairro do Recife, essa pérola que o Recife maltrata. Desço do ônibus, caminho um pouco e vou chegando à escola, numa rua com nome lindo e redundante: Rua do Bom Jesus. Jesus, pelo que sei, nunca poderia ser ruim. No caminho, já tem gari esfregando com raça as ruas do Recife. Flagrei um mijando atrás de uma árvore, ele me olhou meio sem graça. Tem gente ainda se espreguiçando, uns motoristas de táxi com aquela cara de tédio, já na segunda-feira.

Chego à escola cheio de livros, fotocópias, o plano de aula etc. Sou informado que me enganei com o calendário, minha aula não é hoje, mas na segunda-feira que vem.

Então pego um cafezinho venho escrever minha cronicazinha, debaixo de um toró medonho. É tanta água, que tenho medo de terminar o texto com o Recife fazendo glub glub glub.

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Para não cairmos na reles histeria

19 de maio de 2006, às 15:13h por Samarone Lima

Esta semana tive uma discussão pesada com um grupo de amigos, todos de classe média, e com acesso farto às informações sobre o Brasil e o mundo. Lá pelas tantas, entre uma cerveja e outra, surgiu o tema do PCC, ou Primeiro Comando da Capital. Para quem não sabe, esta semana, a organização criminosa tomou conta de São Paulo, e em dois dias, fez estragos feios na vida brasileira: 180 ataques a prédios públicos, 56 a ônibus e 8 a bancos. Mais de 80 mortos, muitos deles policiais, e motins em 73 dos 105 presídios do estado, com 351 reféns.

O placar ficou assim: dois amigos achavam que a Polícia deveria matar todo e qualquer preso em rebelião, não importando a quantidade. Podia ser 20, 30, 40 mil presos. Rebelião? Bala. Pou! Pou! Um avaliou que era preciso matar “somente” os líderes. O quarto defendia que chegassem também as famílias dos presos. E não estavam brincando.

Do lado de cá, tentando pensar um pouco nessa coisa chamada “estado de direito”, ponderando que a eliminação física dos caras não vai resolver nada, apenas gerar mais violência, ficamos eu e Ivanzinho, mas Ivanzinho trabalha no Centro Luis Freire, uma ONG que defende os direitos humanos, então sua visão crítica já era esperada.

Eu cada vez ando mais alheio a esses debates acalourados, em voz alta, com posições muito definidas e conceitos estabelecidos. Mas teve uma hora que não deu para ficar só escutando a linguagem da matança, que se você tiver um filho você vai sentir na pele, que bandido tem que morrer mesmo, que estão dando muita folga, que esse negócio de direitos humanos só defende bandido, enfim.

Entrei na discussão e relembrei um ano fundamental em minha vida: 1997.

Foi quando comecei a trabalhar na redação do Diário Popular, hoje Diário de São Paulo, cobrindo Polícia. Foi quando conheci o jornalista Josmar Josino, que considero o maior jornalista do Brasil, hoje.

Alheio a entrevista, incapaz de dar uma entrevista, Josmar recusa sempre participações em debates na TV, quer ficar no anonimato mesmo. É o outro lado da moeda do jornalismo médio brasileiro, que adora aparecer, que tem a vaidade a mil, os mauricinhos da mídia, que se acham o máximo porque trabalham na Folha de São Paulo, na Globo, e por aí vai. Lamento, mas são muitos.

Pois foi no anonimato, entrando e saindo de prisões, que Josmar começou a entrevistar os caras do PCC, quando o troço ainda estava surgindo. Lembro da primeira vez que ele chegou à redação com o “Estatuto do PCC”. Muitos riram daquele “exagero”. Josmar começou a entrevistar os familiares dos caras, as esposas, os pais. Ano passado, ele lançou um livro sobre o Primeiro Comando, intitulado “Cobras e Lagartos” (editora Objetiva), que hoje é nome de novela. As cobras e os lagartos das prisões são bem mais barra-pesadas que os da TV, garanto.

Sugiro aos candidatos à histeria, aos que defendem a eliminação de todo e qualquer preso em rebelião, a leitura do livro. O PCC não surge do nada, meus amigos. Surge logo após o massacre do Carandiru (2/10/1992), quando 111 presos foram fuzilados. O governador era Luis Antonio Fleury, hoje deputado federal e defensor do estado de direito. O comandante era o coronel Ubiratan Guimarães, que se elegeu deputado com o simbólico número 1111. Voilá.

A idéia dos caras era simples: se mataram 111, vão entrar em outros presídios e matar mais gente. “Eles resolveram se organizar para evitar um novo massacre”, diz Josmar, que atualmente trabalha no Jornal da Tarde.

O PCC nasceu também de uma realidade nas prisões brasileiras que a classe média histérica se recusa a olhar ou aceitar, e talvez até ache normal. Maus-tratos, surras, espancamentos, banho frio nas madrugadas (para presos com tuberculose), presos com cinco anos detrás das grades, sem direito a visita, outros confinados em solitárias por várias semanas, sem ver o sol. Nas cadeias brasileiras, a lei não chegou. O Aníbal Bruno, aqui ao lado, é um inferno pegando fogo.

O problema é que o negócio cresceu, e os caras descobriram que também poderiam se organizar para o crime, e o PCC virou uma máquina estruturada, com funções, obrigações, atribuições e missões. “Os caras cumprem ordens como se fosse um fanático religioso”, me conta Josmar.

O PCC tem estatuto, arrecadação mensal (mensalão, versão presídio), o “arrecadador” (o Delúbio deles), tem solidariedade com os presos fodidos, os que têm família passando fome, do lado de fora, tem advogado e tem muitas outras coisas que não sabemos.

Pelos cálculos de Josmar, dos 140 mil presos de São Paulo, 95% estão filiados ao PCC. Do lado de fora, cerca de 10 mil homens fazem o que o Partido mandar. Para “eliminar” o problema, como querem meus amigos, teríamos que matar mais ou menos 130 mil pessoas.

As notícias não chegam direito, mas a Polícia de São Paulo está dando sua contribuição para essa eliminação. Já foram mortos cerca de 120 “suspeitos”. Todos estão sendo enterrados como indigentes, no cemitério de Perus, do mesmo jeito que a ditadura fazia com os presos políticos.

Pior: o governador Cláudio Lembo negociou o comando do PCC o fim das rebeliões. Vão entrar TVs para a Copa, e o número de visitas vai dobrar. É ano eleitoral, certo?

Em 2 de novembro de 1992, o massacre do Carandiru não foi noticiado. Era véspera de eleição.

Estamos no famoso beco sem saída. Meu medo é que entremos na reles histeria. É quando escolhemos a pior saída.

Para Josmar, que me avisou em 1999: os caras vão dominar tudo.

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Um cronista e suas teorias malucas

18 de maio de 2006, às 11:34h por Samarone Lima

Amados leitores, me desculpem a demora em atualizar o Blog, mas é que andei ocupado em tentar consertar o mundo, e o mundo está muito trabalhoso. Tentei fazer remendos, botei umas soldas aqui e ali, conversei com uns e outros, mas cheguei à conclusão que é um projeto muito grande, este de querer ajeitar o mundo. Cansei logo aos quinze minutos do primeiro tempo. Olhei para um lado, para o outro, e cheguei à conclusão que é melhor mesmo escrever minhas cronicazinhas, que pelo menos eu fico mais feliz.

Pois bem. Ontem no glorioso Tepan, contei ao César Maia que estou escrevendo um Livro das Teorias. Ele quis saber detalhes. Citei exemplos.

Exemplo 1: tenho uma teoria de que quanto menos o sujeito entende de futebol, mais alto ele fala. Na mesa, estavam Gilberto e Giba, dois pernas-de-pau em se tratando de futebol. Eles não entendem uma grama de futebol, e não falavam na mesa – urravam para o Tepan inteiro. César Maia concordou comigo.

Tenho outra teoria: a de que quanto mais o sujeito está num carro novo, espaçoso e com ar-condicionado, menos tolerante ele é.

Você pode fazer o teste. Vá pelas ruas do Recife. Vem aquele velhinho numa Brasília 1976 ou 1977, caindo aos pedaços, o pára-choque amarrado com um barbante, com IPVA vencido, pneu careca, retrovisor rachado pelas intempéries da vida. Você quer entrar, ele pára de longe, faz sinal e diz para você passar. Melhor que isso: ele sorri, antes de engasgar o carro, e sair, mansamente, achando que não adianta ter pressa, o melhor é sair na hora certa.

Agora, lá vem um Honda Civic 2006, ar-condicionado, CD, DVD, Karaokê, banheira, frigobar, forno de microondas, sala de lazer, churrasqueira, piscina, quadra de tênis, o escambau. O sujeito não abre nem a pau, tranca o cruzamento, bota pra foder na buzina. Pior que isso: está sempre de mau humor por algum motivo que nem Freud explica.

Outra teoria: quando a gente entra no mestrado, descobre que é burro.

Aconteceu comigo e com vários amigos. Você é um bom profissional, dá conta do recado, lê seus livrinhos, vai ao cinema, tem uma base crítica, não é nenhum babacão, mas resolve fazer o mestrado. Na primeira semana, você descobre que o mundo está discutindo coisas muito mais interessantes, que suas leituras são magricelas, que você é meio burrinho mesmo. A sorte é que no segundo semestre, você já leu que só um camelo, começou a falar coisas interessantes, e não se acha mais tão burrinho assim.

Teoria número quatro: crítico de cinema vê o filme que você viu, mas é outro filme.

Tirando a Luciana Veras, do Diário de Pernambuco, que gosto muito, crítico de cinema parece que vê sempre outra coisa. Quando a gente vê um drama humano, um sofrimento para repensar a vida, o cara acha que Holywood está em crise, e não acerta o paradigma de uma estética existencialista. Quando o filme é aquela coisa cabeça do início ao fim, e você sai do cinema com dor de cabeça, querendo tomar umas para relaxar, o crítico entende que “a estética inovadora deu um novo pulso à narrativa, optando pela pluralidade”. Dá vontade apenas de dizer: é ruim, heim?

Outra teoria: cachorro é a cara do dono.

Podem olhar. Vem um gordinho, o cachorro é gordinho. Vem uma madame empiriquitada, o seu poodle parece uma boutique.Vem um sujeito meio vira-lata, ao seu lado estará um vira-lata.

Teoria seis: tem gente que só vai ao cinema comer pipoca com a boca aberta.

Eu realmente não entendo. Assisto vários filmes aqui em casa, nunca vou ali, fazer uma pipoquinha. Nenhum amigo que assiste filme comigo tem fome de pipoca. Mas você chega ao cinema, senta, e lá vem o sujeito, com a namorada, e uma saca de pipoca. Não, não é um saco, mas uma saca, de 12 quilos. O sujeito vem e senta ao seu lado. O filme começa. Ele joga as pipocas na boca e amassa, com a boca aberta. Srec, srec, srec. O cara não vai ao cinema para ver um filme, mas para saciar uma tara íntima de comer pipoca no escuro, com a boca aberta, coisa proibida em casa. Essa teoria eu detesto, mas é verdade.

Outra teoria: em casamento, padre só fala em traição.

Não sei qual a formação atual dos padres brasileiros, mas eu, que moro ao lado de uma igreja, onde são realizados muitos casamentos, posso dizer – padre tem uma tara punitiva e complexa pelo tema da traição. No sermão, eles acham que a humanidade não pára de se comer. Pode ser verdade, mas ele precisa dizer isso justamente na hora em que pergunta se o sujeito vai ser fiel na doença e na pobreza, na tristeza e na angústia?

Teoria oito: do jeito que as coisas estão indo, o PT vai acabar tendo o PFL como vice.

A briga pelo poder ficou tão maluca, é tanta foiçada de tudo que é lado, que daqui a uns dias, vamos encontrar esta pérola: Para prefeito de Bezerros: Zeca bigode (PT). Vice: João Matuto (PFL). Meu medo maior, no entanto, é um casamento de Sísifo com a pedra. para presidente: Lula. Para vice: FHC.

Eu garanto que vou me mudar para a Turquia, e torcer pelo Talagharesa.

Bem, vou encerrando por aqui. Tenho mais 36 teorias já anotadas no meu caderno, e não quero encher a paciência dos meus leitores com minhas besteiras, que parecem intermináveis.

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Aproximações, ou afinidades afetivas

15 de maio de 2006, às 16:55h por Samarone Lima

Não sei exatamente de onde veio isso, talvez depois de uma manhã inteira dando aulas para jovens que moram em bairros periféricos do Recife, na tal “Oficina da Palavra”. O fato é que aprendo muito com os alunos, acho que acontece o fenômeno da troca. Sei algumas coisas, passo para eles, em troca recebo novos olhares sobre as coisas e o mundo. Isso me deixa muito cheio de idéias, quase todas sem importância nenhuma para a humanidade.

Na volta, entro no Unibanco para ver se um cheque caiu, e tem um camarada na porta do banco, numa cadeira de rodas.

“O senhor pode me dar um minuto de sua atenção?”, pergunta.

Acontece que nunca é um minuto, e já sei o assunto – doação para alguma coisa que está faltando. E era mesmo. Ele tinha uma medalha no peito, e estava fazendo campanha para comprar outra cadeira de rodas, certamente mais confortável.

“Rapaz, estou liso que só um gambá. Se o dinheiro cair, te ajudo”, respondi. Não deu tempo ele dar mais detalhes sobre o processo da compra da tal cadeira. Agora mesmo, enquanto escrevo esta crônica, me vem uma gravíssima dúvida existencial – quanto custa uma cadeira de rodas?

O cheque não caiu. O saldo da conta era R 0,58. No bolso, eu tinha outros R 0,65 e um vale A. Dar um vale A para o sujeito que quer comprar uma cadeira de rodas nova é covardia.

“Deu zebra. Meu dinheiro ainda não caiu”, disse, antes de caminhar para casa, ali pela 17 de Agosto.

E o tema ficou latejando na minha cabeça – aproximações. Mas o que diacho é isso, pensei. Será o tema da minha próxima crônica, chegando sem pedir licença, enquanto avanço rumo ao Poço da Panela, com meu passo de camelo?

Então veio um carteiro suado, passou por mim levando as cartas para alguém, isso quase uma da tarde. Caiu a ficha. As aproximações que eu vinha ruminando em silêncio eram uma espécie de afinidade afetiva. Há muitos e muitos anos, tenho uma simpatia ancestral pelos carteiros, uma raça que anda. Eu gosto muito de gente que anda. Gosto mais de gente que anda do que gente que corre, apesar de ter uma frustração, que é não ter sido maratonista.

Resolvi passar no Hiper Bompreço, para olhar os livros, o que chega a ser patético. O sujeito com R 0,65 no bolso vai a um supermercado olhar livros! Então veio a segunda aproximação (ou afinidade) da tarde – fui olhar as TVs, fingindo que iria comprar algo, mas somente para ver os gols da rodada de ontem, do Brasileirão, e a lista dos jogadores brasileiros convocados para a Copa. Outros malandros estavam lá, gente de bem, fingindo olhar a marca da TV, mas esperando os gols e a lista do Parreira. Em poucos segundos, surgiu uma mesa redonda, e respiramos aliviados – ele convocou o Rogério Ceni para o gol. Os cronistas do supermercado reprovaram em peso a convocação do Ricardinho, que “não é jogador de seleção”. Eu, que não sou de ferro, também desci a lenha.

Passo no setor de DVDs e vem a aproximação/afinidade número três. Estão exibindo um show antigo do velho Luís Gonzaga. Acho que esse negócio de aproximações é uma forma simples de dizer as coisas que gosto: gente que leva cartas, a escalação do nosso selecionado canarinho, Luís Gonzaga cantando, com Dominguinhos na sanfona. Sinto um remorso muito antigo por nunca ter visto Luis Gonzaga tocando ao vivo.

Depois de enrolar, saio do supermercado sem gastar nada. No caminho, tem uma padaria, lembro que o café expresso custa R$ 0,60. Paro, tomo um baita de um café expresso no calor “arrombante” do Recife, como diz a velha Grão de Bico, e continuo a jornada. Pocot, pocot, pocot, pocot. Percebo outra aproximação – café. Ainda tenho R$ 0,05 no bolso, dá para uma bala.

Chego em casa suado, cansado, e resolvo dar uma geral na casa (por conta da grave crise financeira deste que vos escreve, no primeiro semestre, tive que cancelar provisoriamente os inestimáveis serviços quinzenais da gloriosa dona Fátima). Mandei ver. Do lado de fora, Zé Carlos, nosso bêbado de estimação aqui do Poço, dava seus gritos lancinantes. Ele é aquele típico bêbado esculhambado, que fica de calção, descalço, errante pelas ruas. Ele chega aqui na frente de casa, dá um grito e depois completa:

“Samarão, iurruuu uêeeee iau uôoool!’

É uma língua estranha, mas entendo tudo. Às vezes eu saio, e dou uma moedinha para ele bicar mais um pouco, mas gastei todo o orçamento no café. Tinha só o vale A, mas é covardia dar um vale para o cabra beber. E R$ 0,05 não dá nem para meia cana. Finjo que não estou em casa. Ele grita, grita, até cansar. Depois vai embora, perturbar outro.

Além disso, iria aparecer um sujeito politicamente correto para reclamar:

“Tu tem coragem de dar o passe para um bêbado, e não dá para o cara numa cadeira de rodas?”

Não posso fazer nada. São as tais afinidades afetivas.

Além do mais: quem disse que o sujeito da cadeira de rodas não vai entornar todas e errar o caminho de casa?

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Pequena lembrança de longas conversas

11 de maio de 2006, às 16:49h por Samarone Lima

Recebo um email do Gustavo, meu interminável amigo, falando de algo espetacular – acaba de ser lançada,em espanhol, uma edição daquelas tipo “obra completa”, do nosso amado argentino Antonio Porchia, que sempre cito aqui neste espaço. Mais que isso: o livro traz um DVD, com a voz do Porchia, lendo suas coisinhas, suas pequenas frases que encantam, que abrem horizontes. Pena que dificilmente este lançamento chegue ao Brasil. Demoraremos a escutar coisas do tipo “Hace mucho que no pido nada al cielo y aún no han bajado mis brazos”, ou “Donde hay una pequeña lámpara encendida, no enciendo la mía”.

O email chegou num momento em que estou relendo uma encadernação puída, sem data, mas que deve ser de uns cinco anos atrás, somente com material impresso sobre o Porchia e a interlocução seu grande amigo, o poeta Roberto Juarroz.

A amizade de Porchia e Juarroz é algo fascinante, e convém algumas linhas, num tempo de tanta velocidade, afazeres, onde há tantos encontros para falar de tudo, do futebol, passando por alguma mazela amorosa, questões de relacionamento, sacanagens no trabalho etc. Tudo, menos do essencial, disso que se chama mistério, ou simplesmente o mais profundo da alma, sei lá. Acho que sempre tive isso na minha amizade com o velho Gustavo, este espírito de crença no humano e afirmação da vida, e cada vez que nos aquietávamos para longas, intermináveis conversas, deixávamos os assuntos do cotidiano em banho maria. Acho que nos dedicávamos a essas conversas do espírito, como faziam Porchia e Juarroz.

Juarroz, esse poeta imenso, diz que uma das coisas mais apaixonantes da vida poética são os encontros, especialmente os não-buscados. “Como o amor, os encontros não buscados são sempre os mais frescos”.

Ele já tinha visto o velho Porchia andando pelas ruas de Buenos Aires. Ficava observando de longe seu jeito manso, absorto. De vez em quando, o velho Porchia se abaixava e pegava um papelzinho na rua, “talvez pensando que encontraria o segredo, a chave”. Depois de saber que Porchia tinha publicado um pequeno livrinho de aforismos, o “Voces”, Juarroz resolveu “investigar” onde vivia aquele homem. Encontrou a casa modesta onde vivia, na periferia da capital. O primeiro encontro foi simples – pareciam velhos amigos.

“Um ser muito humilde em seu aspecto, de estatura pequena, de voz indescritível. Essa voz tem que ser escutada”, lembraria Juarroz, muitos anos depois. Para ele, escutar a voz de Porchia era a possibilidade de escutar o profundo, o mais profundo.

Os dois se tornaram amigos até o fim da vida. Juarroz fazia uma peregrinação à casa de Porchia, do outro lado da cidade, somente para o mistério do encontro, da conversa, do mergulho na alma humana. “Seu modo de vida era extremamente humilde, saía com uma bolsinha a comprar suas verduras. Mas o caracterizava a generosidade”, diz Juarroz. Ele jamais esqueceria a oferenda do velho amigo, que sempre o recebia com pão, vinho, queijo e salame. As conversas começavam às oito, nove da noite, e seguiam até o amanhecer. Lá pelas duas da manhã, Porchia puxava uma maça do bolso e dava de presente a Laura, esposa de Juarroz, que adorava maçãs. Sempre assim, a cada encontro. A maçã parecia ser um detalhe – “não esqueci de você”.

Juarroz passou a chamá-lo de Dom Antônio. Estava sempre cuidando do seu jardim, e neste momento, conseguia “escutar” as frases que fizeram parte de sua obra. Viveu sempre à margem dos circuitos literários, academias etc. Foi um homem simples e bom, que amou uma “mulher da vida”, mas se afastou, quando soube que poderia causar problemas para ela.

Uma vez, uma grande revista de Buenos Aires pediu alguns textos, que ele entregou de imediato. Com a demora na publicação, Porchia perguntou o que estava acontecendo. Falaram de “alguns problemas de gramática”. Ele foi à revista, pediu os originais de volta e foi embora, sem alarde. Era sempre assim.

“Era um ser de uma humildade exemplar, mas, ao mesmo tempo com essa coisa inconvertível, imodificável, que nos faz pensar nas árvores centrais, aquelas em que o bosque inteiro parece se apoiar”, diz Juarroz.

Ao se despedir, Porchia sempre dizia:

“Tratem de estar bem”.

Segundo Juarroz, era quase um pedido, algo assim como “uma apelação infinitamente terna e delicada: um chamado à nossa possibilidade, apesar de tudo”.

Muitas vezes, acrescentava:

“Acompáñense”.

Algumas frases de Porchia iluminam meus dias, outras iluminam a vida inteira. “Um amigo, uma flor, uma estrela não são nada, se não pões neles um amigo, uma flor, uma estrela”.

Há outra frase maravilhosa dele – “Quiero tu bondad, pero no sin una sonrisa en tus labios”.

Bem, vamos lá, tocar a vida…

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