Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Dois artistas e o fascínio da poesia

29 de junho de 2006, às 12:15h por Samarone Lima


Não sei para que serve a poesia, mas cada vez mais tenho uma fé em seu poder de transformação. A poesia pode mudar destino, salvar pessoas, transformar sentimentos, alimentar.

Há pouco, ela, a poesia fez tudo isso, fez uma escola entrar em festa, a festa da emoção. Tudo porque dois artistas-saltimbancos, o Rafa e o Ju, que estão de férias no Recife, aceitaram vir na escola em que ensino (a Kabum!), para apresentar um trabalho simples, modesto, doce, chamado “intervenções”.

Eles chegaram durante o lanche, circularam de mansinho entre os 80 jovens, todos na faixa de 16 a 19 anos. O espetáculo se resume a um ato – recitar poesias no ouvido das pessoas. Fiquei de longe, olhando esses jovens serem “invadidos” pelas palavras poéticas. No final, nos reunimos para conversar um pouco.

É impressionante o que a beleza provoca nas pessoas. Primeiro, o silêncio. A vontade de simplesmente não dizer nada, como se a alma dissesse “quero sentir”. Os olhos se dilatam, ficam brilhantes e mais vivos. Por fim, o sorriso aparece sabe-se lá de onde, como agradecimento pelo milagre da beleza.

Todos ficamos emocionados. Educadores, alunos e os artistas. Conversamos sobre temas que estão fora da pauta nacional ou local. Aqui pertinho, na Rua Velha, um prédio desabou na terça-feira, e sete pessoas morreram. Os ventos da eleição de outubro já começaram a soprar, mas nossa fome, nossa grande fome, era pela poesia, pela emoção e descoberta de mundos. Ao final, todos agradeciam. Os alunos me agradeciam por ter trazido os dois “nômades”, como uma aluna disse; os professores, pelo momento de emoção, em meio às muitas aulas, e os dois saltimbancos, porque se emocionaram muito no contato com os jovens.

Então me veio a idéia de bálsamo. A poesia como bálsamo para a vida, ungüento. Olhando a crônica que escrevi ontem, tão cheia de chateações, tanta falta de cuidado nas relações, uma certa vulgaridade na vida brasileira, me vejo renovado. Que venham outras chateações, tenho aqui uma capa de super-herói, cheia de poetas. Tenho cá o meu escudo de Fernando Pessoa, de Manuel Bandeira, de Gullar. Hoje, a poesia veio, me deu a mão, me puxou para o alto. É preciso agradecer. Vai aqui minha reverência aos dois saltimbancos que vieram nos encher de alegria e beleza.

“Ah, abram-me outra realidade!

Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos

e ter visões por almoço,

quero encontrar as fadas na rua!

Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,

desta civilização feita com pregos.

Quero viver, como uma bandeira à brisa,

símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!”

(Álvaro de Campos)

Para Rafa e Ju, poetas.

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Conversas com moças-máquinas e uma lan-house repleta de não-silêncio

28 de junho de 2006, às 16:32h por Samarone Lima

Amigos leitores, não desejo a nenhum de vocês o que ando vivendo, no mundo da Internet. Sem meu notebook, estou sendo obrigado a usar as tais “lan-house”, em diversos lugares do Recife. Há tempos não convivo com uma gente tão desagradável e barulhenta. A questão é simples: os tarados por jogos fazem uma espécie de competição em grupo, e dos 20 computadores ligados, agora, deve ter uns dois ou três com gente olhando email ou reparando no tal Orkut, o frisson do momento na Internet. O restante é só alucinado, tarado, fissurado e mal-educado. Ao meu lado, um sujeito de uns 30 anos dá berros e uiva, porque perdeu não sei o que, um monstro qualquer parece que devorou uma parte de seu cérebro. Ele grita ao meu lado, e não pensa que eu gostaria só de um pouco de silêncio.

Mas vamos à crônica de hoje, que estou inspiradíssimo, vocês nem imaginam, especialmente das três tentativas que fiz, hoje, para resolver pendências financeiras pelo telefone. Descobri tardiamente que o Brasil está ficando um país burro, e me senti meio burro também.

Primeiro, liguei para a Telemar, para resolver uma e somente uma reles conta atrasada. Por causa desta besteirinha, não estou podendo ligar para os amigos. Descobri que a figura famosa da atendente, aquela que diz, num sotaque paulistano “eu vou estar te mandando uma segunda via da conta”, quando poderia dizer “vou te mandar a cópia da conta”. Pois bem, agora você liga, uma voz melíflua diz que é a “atendente virtual” da empresa citada, e pede para que eu fale meu problema. Não gosto de conversar com máquinas, muito menos de falar meus problemas para máquinas. Falo meio constrangido meu problema, a moça-máquina responde que não entendeu. Ficamos nessa lenga-lenga, digo o problema, ela diz que tenho uma conta atrasada, e foi justamente por isso que eu liguei. Lá pelas tantas, a moça-máquina desliga o telefone na minha cara.

Depois de 37 minutos conversando com ninguém, fiquei sabendo que vão mandar uma cópia da minha conta atrasada em até 10 dias, e respiro aliviado. Mas, interiormente, me vem uma chateação afetiva - durante muitos minutos, conversei com uma voz gravada, impessoal, distante, cavernosa. Cansado do meu drama espiritual, vou tomar um café e aqui na esquina, quando chega Ricardo, o taxista. Explico meu problema, em 22 atos, ele mata a charada:

“É só tu ir numa farmácia Pague Menos, que a segunda via sai na hora”.

Me sinto burro.

Ligo para a Cabo Mais, porque não estou mais usando tanto a Internet, e não preciso mais de banda larga. Mais uma confusão dos diabos. Falo com três atendentes, que pedem meus dados religiosamente, entrego os dados, e no final da ligação, sou informado que a ligação vai ser transferida para a “área de cancelamento”. Me avisam que terei que pagar mais um mês de serviço, porque não avisei com um mês de antecedência, aquele caralho todo, para me arrancar uma grana extra.

No final, me informam também que terei que efetuar o pagamento em Setúbal, um bairro muito longe de todas as minhas coisas, do outro lado da cidade, e nesse momento eu dei a gota serena. Reclamei do atendimento, da falta de atenção, lembrei que no futuro eu poderia querer uma empresa de internet, e não usaria a Cabo Mais, que era falta de respeito, a moça escutou com aquela cara de sempre e disse um “tudo bem, senhor”. Tudo bem nada, minha filha, cliente precisa ser melhor tratado, eu nunca mais vou querer serviços da Cabo Mais.

Mas pior que isso tudo é mesmo a lan-house aqui de Casa Forte, onde moro. Está lotada até a tampa, e tem gente à beça com aquela carinha de maluco. Poderiam estar jogando uma boa pelada, na calçada. O cara ao lado urrou há pouco: “caralho, que leg da porra!”

É, amigo, é um leg da porra mesmo. Vou sair daqui, correndo, que está me dando dor de cabeça, e vai chegando o entardecer no Recife. Amanhã tentarei escrever algo decente, num lugar qual ermo, qual incessantes sussurros de noites indormidas em hotéis baratos, como dizia o velho T.S.Eliot, que não me deixa mentir.

Quanto à Copa do Mundo, aqui vai um desabafo: essa TV Globo está transformando a competição em um exercício de estupidez. Imploro transmissões dos jogos em silêncio, em respeiro aos nossos ouvidos e corações.

Vamos que vamos.

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Um olhar perdido numa tarde chuvosa

26 de junho de 2006, às 16:46h por Samarone Lima

Foi semana passada, em meio às muitas viagens que estou fazendo para o Cabo de Santo Agostinho, para a casa de uma tia-avó, que já vai na casa dos 79, bem recuperada de um infortúnio, o tal do derrame.

Estava chovendo, e a avenida Dantas Barreto estava gelada, acreditem. Era tardinha, e um vento forte soprava, a gente tentava se proteger, e o diabo do ônibus Centro do Cabo não chegava nunca. Todos os guarda-chuvas se revelavam inúteis, e os abrigos dos pontos de ônibus do Recife são feitos especialmente para molhar os passageiros.

No meio daquela correria toda, olhei para um senhor, que vendia milho. Um senhor negro, na faixa dos 50 anos, um sujeito bem gasto pelo tempo, com uma barba desgrenhada, meio rala, com fios brancos e duros. Estava escorado na parada do ônibus, o fogo aceso, as brasas sem queimar nada, um vento gelado molhando a gente. Muitos vendedores faziam graça, especialmente quando as saias das mulheres levantavam, eu não sabia nem que as moças do Recife gostavam tanto de saia.

O homem estava quieto, ensimesmado, para dentro. E os olhos dele me doeram. Eram olhos muito tristes. Carregavam uma tristeza profunda, algo que parecia sintetizar a dor e o sofrimento de milhões de outros, como ele, que rangem para garantir esse tão difícil pão de cada dia. Olhei várias vezes para ele, mas aos poucos, fui ficando envergonhado. Quem era eu, diante daquele homem? O que terá passado, para chegar a ter esse olhar? Com que direito eu o olhava insistentemente? Senti o que a Clarice Lispector revelou, em suas crônicas: uma espécie de descompasso com o mundo. Depois o ônibus chegou, entrei, e fui embora. Dificilmente o verei novamente. Posso até ver, mas não sei se haverá o reconhecimento, este fenômeno tão singular, que define tantos caminhos.

Mas isso não vem ao caso. Na verdade, nada vem ao caso. Eu apenas queria falar desse homem, e dessa gente que às vezes vaga pelas ruas, tentando vender um milho, uma pipoca, uma tapioca, um pedaço de qualquer coisa, que possa se transformar em outra coisa, essa outra coisa que chamam, por aí, de esperança.

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Caramujos e eleições

21 de junho de 2006, às 21:36h por Samarone Lima

Tenho um amigo que não gosta de contrariar ninguém. Se ele estiver andando na rua, passar um conhecido, de carro, e disser “entra aí”, ele entra, mesmo sem saber para onde vai, muito menos quando volta. O que não quer é contrariar os mais chegados, e às vezes se mete em frias antológicas.

Ando meio assim ultimamente. Meu amigo Serjão iria me emprestar uma grana, me deu carona logo cedo, e avisou, de raspão, que iria dar “uma passadinha” no T.R.E, que vem a ser o Tribunal Regional Eleitoral. O Recife estava debaixo d’água, muitos bairros fazendo glub glub, e lá vou eu, com o Serjão, para o Tribunal.

Era uma reunião para mostrar como vai ser a questão das campanhas eleitorais, como prestar contas, como gastar o dinheiro, essas coisas que me interessam profundamente, da mesma forma que me interesso por sânscrito, os trovadores franceses e a fabricação de lajotas no Camboja. Serjão entrou no auditório, a moça do Tribunal, muito educada, ofereceu uma cadeira, e quando o sujeito falou que “se o candidato usar dinheiro de pessoa física, pode ser até 10% do gasto da campanha”, e “a arrecadação deve ser debitada em conta corrente, antes de efetuar o pagamento”, saí de mansinho, fingindo uma contusão no tornozelo esquerdo.

Essa brincadeirinha começou às 9h e terminou perto do meio dia. Como Serjão iria me emprestar uma grana boa, nem fiz cara feia. Chovia canivetes, sentei numa cadeira e puxei minha salvação de sempre, um bom livro. Fiquei lendo, até que reparei no jardim do Tribunal. Estava até razoável, mas olhei os pontinhos pretos. Amigos, os caramujos que combato tenazmente, no meu jardim, estavam devorando tudo. Perguntei ao pessoal da limpeza quem matava os caramujos dali, e veio um sujeito de bigode, um falso magro, disse que ele “derrubava tudinho”. Pegou um pau no banheiro e zapt! zapt! - começou a derrubar os caramujos. Sim, Pedro Bó, só que os caramujos daqui a pouco começavam a se mover (não sei se posso dizer “andar” com caramujos), e se aboletavam de novo nas plantas, flores. O falso magro era um falso matador de caramujos.

Visivelmente contrariado, voltei a ler. Lia dois parágrafos, e os caramujos lá a todo vapor. Lá dentro do auditório, a nova lei de prestação de contas. Daqui a pouco, três pessoas desorientadas me abordam. Ela, uma senhora, parecia ser mãe dos outros dois, igualmente desorientados. Marcaram com uma tal de “Eva”, advogada, para tratar assuntos de herança. Que manhã, amigos! Papo vai, papo vem, as moças da limpeza entraram na onda, descobrimos que o encontro estava marcado, possivelmente, para o Tribunal Regional Federal, o TRF, aquele prédio bilionário, perto da Prefeitura. A moça da limpeza, dona Adriana, explicou o caminho 22 vezes. Na saída, a mulher desorientada, com um guarda chuva absolutamente inútil, disse:

“Obrigado, Márcia”.

“É engraçado, eu dei toda a dica, e ela me chama de Márcia”, resmungou Adriana, contrariada. Nesse momento, os caramujos já estavam na terceira ceia, e o jardim do Tribunal não vai passar do primeiro turno das eleições.


Olho para o lado, está um imenso gato preto. Perguntei o nome e fiz chip chip para o bichano, mas ele nem deu bola.

“É uma gata. Vive aqui mesmo, até ração compram pra ela”, informou Adriana. A gata se chama Preta pelo simples fato de ser preta, dos pés à cabeça.

Teve intervalo, todo mundo bebeu café, todo mundo comeu bolachas de água e sal e todo mundo falou ao celular ao mesmo tempo. Parecia até que um estava falando com o outro. Serjão disse que ia só ver umas besteirinhas finais, e voltava “daqui a pouco”. Voltei às minhas leituras, sabendo, pelo tom da voz, que o negócio seria demorado.

Lá pelas tantas, me arretei, comecei a derrubar os caramujos com a caneta. Zapt! zapt! Fui à copa, perguntei se tinha sal, porque é um santo remédio para esses predadores cruéis. Uma pitadinha de sal, e eles morrem, possivelmente de pressão alta. Informo aos digníssimos leitores, que o Tribunal Regional Eleitoral do Recife não abastece sua copa de sal. Voltei à minha luta. Procurei uma pedra, para uma batalha mais campal, mas cadê as pedras deste país?

Já tinha derrubado inúmeros caramujos, quando a reunião acabou. Eles ficaram lá, no chão molhado, mas todos vivos, os caramujos. Saí derrotado. Fiquei pensando que gato bem que podia comer caramujo, seria perfeito, a Preta salvaria o jardim e ainda economizariam com ração.

Saímos de lá debaixo de um toró. Molhei as sandálias numa poça, Serjão resolveu que almoçaríamos, antes de tirar o dinheiro. Comi uma salada supimpa, no bar central, que o dono quer que escreva com o “c” minúsculo mesmo, e ainda vimos um pedaço da Copa, num telão imenso. Não fui convidado a pagar a conta, e me fiz de desentendido, para não causar maiores problemas. Serjão tirou o dinheiro às 13h43, pela graça divina.

Mas desconfio que o país não pode dar muito certo mesmo, se falta uma reles pitada de sal na copa de um Tribunal Eleitoral, para manter um jardim bonito. Aqui vai minha sugestão: ou comprem sal, ou contratem um jardineiro.

ps. Não sei o que está acontecendo com este Blog, que agora cismou de modificar o tamanho das letras. Hora está grandona, hora minúscula. Segurem firmes, amigos leitores, que estou buscando assessoria bloguiana.

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A urgência de amigos

20 de junho de 2006, às 10:40h por Samarone Lima

Foi no domingo de manhã, após jogar uma pelada razoável com meus amigos do “Caducos Futebol Clube”, no Poço da Panela, que me ocorreu esta saudade repentina, diria que se tratou mesmo de uma urgência de gente. Peguei a agenda e comecei a dar uns telefonemas. Procurei os nomes de pessoas que não venho encontrando, por causa das coisas da vida, até por falta de cuidado mesmo. Liguei para minha amiga Luzilá, mas Luzilá não vale, porque ela é minha vizinha, no Poço da Panela, e de vez em quando estou por lá, para conversarmos sobre literatura e a vida, que são a mesma coisa, no final das contas.

Liguei principalmente para pegar o telefonema de um casal muito querido, o Marcus Galindo e a Stellinha. Meu deus, há quantos meses não troco umas palavras, não tomo com ele sum reles café de padaria! Lembro que no período em que eles moravam na Holanda, fazendo os doutorados da vida, a gente se comunicava bastante, era email para tudo que era lado, tínhamos notícias de como andava a vida, sempre tínhamos umas linhas para dedicar ao outro, parece que a saudade se instala imediatamente, logo que a gente sai da cidade em que vive. Se a gente for para o exterior, então a saudade vira quase uma doença crônica. Nós brasileiros, somos saudosos de tudo. Mas, como estamos no Recife, parece que podemos nos dar ao luxo de um encontro perdido, ocasional, entre um trabalho e outro. Isso às vezes demora meses.

Vou aqui mudando o rumo da prosa: quero mais encontros intencionais, menos ocasionais. Tenho sentido uma urgência de amigos.

Conversei um bom pedaço com o Marquinho, depois com Stella. Se brincarmos, não nos vemos há mais de um ano, o que é um absurdo. Como estou ficando velho rapidamente, e priorizando outras coisas, não vou mais ficar esperando: esta semana, irei à UFPE, ter com os dois. Quero ir num dia sossegado, para botarmos as conversas e saudades em dia.

Depois liguei para o Bruno Fontes, que foi meu aluno de “Técnica de Reportagem” na Católica. O Bruno, que agora é repórter de TV, sempre chega com aquele sorrisão amigo, aquela conversa boa, e nunca mais nos falamos pra valer. A última vez que o vi, foi naquele fatídico, diria trágico dia, em que meu Santinha perdeu o título nos pênaltis, para o adversário rubronegro. Bruno estava trabalhando, em campo, e prometeu uma bela matéria sobre o título, mas não deu. No dia do casamento dele, eu estava em São Paulo, e não pude ir.

Por falar nisso, estou num débito infinito com o meu velho e grande amigo Valdemir Leite, o Valzinho, amigo desde as primeiras aulas do curso de Jornalismo, na Unicap. Ele trabalha muito, tem duas filhotas, a agenda é cheia, eu não trabalho tanto assim, não tenho filhos, então cá entre nós: o que custa a gente almoçar juntos uma vez por semana?

Não sei se foi nostalgia o que me deu, talvez o sentimento de que certas pessoas não podem ficar tão distantes, que a amizade vale muito mais que ouro, num mundo repleto de competições e vaidades. No fundo, me deu uma vontade de compartilhar coisas, saber como andam as vidas, o que andou acontecendo nos últimos tempos. A vida às vezes vai passando, e essas conversas bestas, com gente querida, trazem alento, esperança, renovam o espírito.

Dei sorte na sexta-feira, quando fui à Prefeitura, tirar um documento. Na descida, esbarrei com a Eleonora, minha ex-terapeuta, que agora está morando no interior (desconfio que ela foi para o interior depois de tentar, em vão, durante uns dois anos, consertar meu cabeção). Sentamos por ali mesmo e conversamos um bocado sobre a vida. Não nos encontrávamos desde outubro do ano passado. Depois tomamos um café, na Livraria Cultura. Valeu mais que qualquer terapia.

Aos amigos, vai o aviso: acabou a folga. Cansei de “vamos marcar um café”, coisas deste tpio. Aos que moram longe, fiquem sabendo que já comprei um pacote de envelopes. Voltarei a mandar minhas cartas sem futuro, mas cheias de saudades do presente.

Para Stella e Marquinhos, claro, e mais a Suzy, que está morando em Lençóis.

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