Os rios da memória
Samarone Lima
Volto ao lugar onde morei, entre 1992 e 1994: a casa da tia-avó Flocely, numa rua sem saída, por detrás da igreja. Quando cheguei, vindo de quatro anos de Casa do Estudante Universitário, ela estava com 65 anos, e encerrava sua carreira como diretora de escola, uma mulher comprometida e engajada com o ensino de qualidade. Eu estava com reles 23, e começava minha vida de jornalista. Era um estagiário no caderno de Vida Urbana, do Diário de Pernambuco.
Foram dois anos de uma convivência amorosa. Tia, sem marido ou filhos, eu, sem mulher ou filhos, com a família distante, insistindo em tocar saxofone por várias horas, arruinando certamente seu ouvido e a tranquilidade da vizinhança. Mas um dia, o jornalismo falou mais alto e tive que ir para São Paulo. Nossa despedida, durante o almoço, foi silenciosa, lágrimas escorrendo pelo rosto, se misturando à comida que não tinha gosto.
Agora, tudo se modificou. Na segunda-feira, depois de uma grande chateação, tia sofreu um derrame. Foi atendida a tempo, e não afetou o corpo. Mas o cérebro, sempre tão lúcido, a cabeça sempre antenada com a realidade do país, o humor, as respostas rápidas, foi atingido. Desde a segunda-feira, os tempos e lembranças se misturaram. Presente, passado e talvez até o futuro, dialogam por entre as frases e devaneios.
É como se o rio da memória não fizesse um percurso claro. É como se a cada curva, surgisse outro rio, braços de bar, estuários dentro de estuários, água doce e salgada se misturando. É como se a ampulheta estivesse de pé, depois virada ao avesso, e por momentos permanecesse deitada, com a areia do tempo sem dizer nada, enquanto respiramos o hoje.
Desde a segunda, tia às vezes chama Renato, filho da valorosa Rosa, seu braço direito, de “Zelito”, que é o nome do irmão, morto há alguns anos. Há momentos em que surgem pessoas e se instalam na conversa, enquanto tomamos café e falamos sobre coisas imprecisas, no aprendizado das imperfeições, que espero levar para a vida inteira.
Sim, a memória se tornou um rio. Minto: há vários rios que se misturam, num encontro de vidas. E ontem, enquanto me preparava para dormir, no primeiro andar, descobri que eu também estava dando voltas no tempo, e nadava nas mesmas águas da memória, da saudade, do amor. Vi claramente aquele ano de 1992, quando eu caminhava para o fim do curso de Jornalismo, fazia estágio, chegava no Cabo já bem tarde, cansado e cheio de sonhos, e ainda encontrava uma janta morna, que ela aquecia antes de dormir.
Estou triste, me recompondo, mas sinto que há um certo egoísmo nisso, em querer tudo intacto, como se viver não fosse também deixar uns pedaços pelo caminho. Decido apenas estar mais perto, fazer junto este percurso entre a névoa, a neblina, a penumbra. Quero estar junto, ao lado, rindo com a mistura dos nomes dos parentes, dos fatos, ajudando a relembrar certas coisas da família, permitindo também o esquecimento, quando a saudade não chegar a tempo.
No fundo, talvez seja uma penumbra compartilhada, atravessada pelos rios da memória, o que pode ser traduzido também como amor, esse eterno encontro entre o lembrar e o esquecer.
Nota: Obrigado aos leitores pelos comentários tão cheios de beleza e força. Informo que nos últimos dias, a tia teve uma recuperação fantástica, algo mesmo surpreendente, mas revelador de sua força e amor à vida, aos 79 anos.
Logo mais, coloco outra crônica no ar.
Samarone, 5 de junho de 2006.
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