Anotações aleatórias sobre os estados d’alma
Samarone Lima
Dona Da Luz recebeu alta no domingo, depois de vários dias no ex-Hospital Infantil, que esqueci o nome agora. A vi hoje de manhã, faceira como sempre, com aquele sorriso manso de quem já viveu tudo, e encontrou a seiva da alegria para tocar o barco. Minha tia Flocely, que teve uma “isquemia temporária”, como bem disse o médico, está se recuperando do baque de uma forma vertiginosa. Para nosso espanto, brevemente vai estar completamente recuperada. Antes de ontem, assistimos juntos “Sociedade dos Poetas Mortos”, e ela chorou muito no final, eu não menos, principalmente quando os alundos sobem na cadeira e dizem “Ó captain, my captain”, uma homenagem ao professor, ao Walt Whitman, à poesia, à liberdade.
Ontem, estávamos nos primeiros dez minutos de ” Diários de Motocicleta”, e chegou uma visita, que falou muito, depois tia ficou cansada e desistiu, então eu fui ler e escrever.
Seu Vital está se preparando para uma cirurgia depois da Copa, e anda contrariadíssimo porque não vai poder beber nos próximos dias. Hoje mesmo acertei de emprestar minha TV 29 polegadas para a turma ver os jogos da Seleção lá em Vital. Fiquei sabendo que o professor Davi contratou Boy como seu funcionário às segundas-feiras. A única exigência é beber com ele até a noite. Naná me contou que ontem, a cachaçada foi grande.
Estou morando no Cabo, a 55 quilômetros do Recife, e não sei se voltarei ao Poço. Minha mesinha fica defronte a uma goiabeira, numa rua sem saída, e a escada tem 16 degraus. Minha vista agora não é mais para o bar de Seu Vital, mas para a Escola Luísa Guerra, onde impera uma gritaria infernal, uma baderna infinita. Prefiro Seu Vital. Hoje de manhã, os alunos soltaram dois rojões de São João. Pensei que o mundo estava caindo em cima da casa, justo agora que tia estava ficando boa. O cachorro da casa se chama Bam Bam, e só come galinha cozida.
Tenho usado o Fiat vermelho de tia, e gosto de ir ao Recife nas horas de menor trânsito, a 60k por hora, curtindo a lentidão e a paisagem, deixando os apressados passarem voando. A Internet no Cabo é uma beleza: descolei um lugar que cobra R$ 0,50 por 20 minutos, e é de lá que mando minhas crônicas de sempre. Ontem, a moçca foi almoçar e me deixou tomando conta do lugar.
Tem chovido muito no Cabo. Eu gosto de chuva. Fico sentado, olhando pela janela e tentando entender as coisas que estão acontecendo, a tristeza que descobri, nos últimos dias. Arregimentei forças no meu próprio espanto, creio. Continuo com esta esperança de tudo se ajeitar, de tirar a lição de cada encontro, de tentar ir ao mais sagrado em mim e nos que me rodeiam. Não sei se tenho conseguido, se os fracassos se acumulam livremente, até que algo maior reverbere.
Tanto arrodeio para confessar tristezas profundas e capitulações, sinceramente…
Melhor buscar o velho Adolfo Montejo, que pergunta onde estão os seus olhos.
“Se a paisagem mudou, que olhar é este que ainda mantenho”, pergunta.
Vou aqui, pegar a estrada, com os vidros abertos, para entrar o vento.
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