Descobertas debaixo de um pé de jambo, num domingo de chuva no mercado da Boa Vista
Samarone Lima
Aconteceu ontem, e tudo está claro em minhas lembranças afetivas. Estávamos eu e meu amigo Serjão, visitando alguns botecos do Mercado da Boa Vista, para um projeto modesto mas simpático – estamos fazendo um guia dos botecos de mercados do Recife. Aos domingos, temos esta dura, quase estafante tarefa, a de visitar os bares, falar com o dono ou dona do estabelecimento, ver se a cerveja está gelada, provar os petiscos, tudo com o profissionalismo adquirido ao longo de anos de garapa.
O início de tarde estava belo e calmo. Começou a chover, e ficamos debaixo de um pé de jambo, um dos muitos daquele velho e aconchegante mercado. Recebemos explicações detalhadas, da dona Maysa, sobre o surgimento do bar “Escritório”, que completou 30 anos em 2006. Estávamos na terceira cerveja, depois de dominar um miúdo de galinha com lascas de cebola e rodelas de tomate, quando, não sei de onde, surgiu o assunto.
A princípio, estranhei. Meu amigo sabia muitos detalhes sobre derrame, a recuperação dos velhos e dos jovens, falou longamente sobre o assunto que venho acompanhando de perto. Há 15 dias, minha tia-avó sofreu um princípio de derrame, e vem se recuperando de uma forma impressionante.
Fiquei então sabendo que meu amigo perdeu uma filha há dois anos. Ela, “o que fiz de mais belo na vida”, como disse meu amigo, teve um problema neurológico quando tinha seis anos. Como era muito jovem, o impacto foi devastador. Ficou tetraplégica. O restante da vida foi em uma cama.
E súbito, aquele início de tarde teve outro sentido. Serjão me falou sobre aqueles anos, sobre a dor, mas por mais que as palavras terminem iguais, ele falou mesmo foi sobre o amor. E me contou coisas do fundo da alma, que nunca imaginei, porque sempre o vejo sorrindo, animado, tocando projetos, realizando coisas. Quando escuta os relatos de pessoas que julgam estar com “problemas sérios”, ele às vezes acha graça.
“Essas pessoas lá sabem o que é a dor…”
Ele me citou um trecho de um forró muito famoso no Nordeste:
“Pra todo mundo a minha cara é de alegria/ Porque ninguém tem nada a ver com a minha dor”.
Concordei imediatamente.
“Essa dor é minha”, respondeu ele.
Me falou de Daniela com tanto amor, que quase pude vê-la. Melhor que isso, acho que a senti por ali, por entre as mesas de plástico, os bêbados molhados, entre as TVs, que transmitiam mais um jogo da Copa do Mundo, nas goteira de um toldo de plástico, que passou a nos abrigar. Imaginei os seis anos de alegria que ela proporcionou, e tentei imaginar o sofrimento que foram aqueles anos com ela à cama, sem dizer uma palavra, cada dia morrendo um pouco, apesar de toda a infra-estrutura montada em casa.
E Serjão me contou que um dia foi jantar na casa de uns amigos. Era um jantar de natal, e a filha dos amigos não estava à mesa por um motivo: tinha quebrado um jarro caríssimo, de uns R$ 500,00.
“Por que ela não está aqui com a gente?”, perguntou Serjão.
Os pais explicaram o fato do jarro caríssimo, a punição etc. Meu amigo disse o seguinte:
“Eu peço a permissão de vocês para trazê-la à mesa”.
Os pais não entenderam a “intromissão” e perguntaram o motivo.
“Eu daria tudo o que eu tenho na vida para que a minha filha, hoje, quebrasse não só um jarro de quinhentos reais, mas a minha casa inteira. Eu daria a maior festa do Recife se ela tocasse fogo na casa, ficaria com ela, na calçada, olhando o fogo queimar tudo, rindo ao lado dela, até que ficassem só as cinzas”, respondeu meu amigo.
Mas a filha não podia. Estava em casa, na cama, cercada de equipamentos, tubo de oxigênio, enfermeiros. Não podia quebrar nada, muito menos um jarro caríssimo.
Depois que falou isso, Serjão trouxe a menina de volta para a mesa. Talvez tenha mudado muita coisa na vida dela e dos pais, não sei. Sei apenas o que ele transmitiu naquele jantar, e o que me transmitiu, enquanto contava essas lembranças, no domingo de chuva.
Perguntei ao meu amigo porque ele nunca tinha me contado aquela história. Ele respondeu o mesmo:
“Essa dor é minha, Samarone, ninguém tem nada a ver com ele. Só eu posso senti-la”, respondeu.
Concordei em silêncio, ainda com espantado com a intensidade quase serena dos que foram testados pela vida, e sobreviveram.
Para o meu amigo Serjão, com afeto.
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