Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Caramujos e eleições

21 de junho de 2006, às 21:36h por Samarone Lima

Tenho um amigo que não gosta de contrariar ninguém. Se ele estiver andando na rua, passar um conhecido, de carro, e disser “entra aí”, ele entra, mesmo sem saber para onde vai, muito menos quando volta. O que não quer é contrariar os mais chegados, e às vezes se mete em frias antológicas.

Ando meio assim ultimamente. Meu amigo Serjão iria me emprestar uma grana, me deu carona logo cedo, e avisou, de raspão, que iria dar “uma passadinha” no T.R.E, que vem a ser o Tribunal Regional Eleitoral. O Recife estava debaixo d’água, muitos bairros fazendo glub glub, e lá vou eu, com o Serjão, para o Tribunal.

Era uma reunião para mostrar como vai ser a questão das campanhas eleitorais, como prestar contas, como gastar o dinheiro, essas coisas que me interessam profundamente, da mesma forma que me interesso por sânscrito, os trovadores franceses e a fabricação de lajotas no Camboja. Serjão entrou no auditório, a moça do Tribunal, muito educada, ofereceu uma cadeira, e quando o sujeito falou que “se o candidato usar dinheiro de pessoa física, pode ser até 10% do gasto da campanha”, e “a arrecadação deve ser debitada em conta corrente, antes de efetuar o pagamento”, saí de mansinho, fingindo uma contusão no tornozelo esquerdo.

Essa brincadeirinha começou às 9h e terminou perto do meio dia. Como Serjão iria me emprestar uma grana boa, nem fiz cara feia. Chovia canivetes, sentei numa cadeira e puxei minha salvação de sempre, um bom livro. Fiquei lendo, até que reparei no jardim do Tribunal. Estava até razoável, mas olhei os pontinhos pretos. Amigos, os caramujos que combato tenazmente, no meu jardim, estavam devorando tudo. Perguntei ao pessoal da limpeza quem matava os caramujos dali, e veio um sujeito de bigode, um falso magro, disse que ele “derrubava tudinho”. Pegou um pau no banheiro e zapt! zapt! - começou a derrubar os caramujos. Sim, Pedro Bó, só que os caramujos daqui a pouco começavam a se mover (não sei se posso dizer “andar” com caramujos), e se aboletavam de novo nas plantas, flores. O falso magro era um falso matador de caramujos.

Visivelmente contrariado, voltei a ler. Lia dois parágrafos, e os caramujos lá a todo vapor. Lá dentro do auditório, a nova lei de prestação de contas. Daqui a pouco, três pessoas desorientadas me abordam. Ela, uma senhora, parecia ser mãe dos outros dois, igualmente desorientados. Marcaram com uma tal de “Eva”, advogada, para tratar assuntos de herança. Que manhã, amigos! Papo vai, papo vem, as moças da limpeza entraram na onda, descobrimos que o encontro estava marcado, possivelmente, para o Tribunal Regional Federal, o TRF, aquele prédio bilionário, perto da Prefeitura. A moça da limpeza, dona Adriana, explicou o caminho 22 vezes. Na saída, a mulher desorientada, com um guarda chuva absolutamente inútil, disse:

“Obrigado, Márcia”.

“É engraçado, eu dei toda a dica, e ela me chama de Márcia”, resmungou Adriana, contrariada. Nesse momento, os caramujos já estavam na terceira ceia, e o jardim do Tribunal não vai passar do primeiro turno das eleições.


Olho para o lado, está um imenso gato preto. Perguntei o nome e fiz chip chip para o bichano, mas ele nem deu bola.

“É uma gata. Vive aqui mesmo, até ração compram pra ela”, informou Adriana. A gata se chama Preta pelo simples fato de ser preta, dos pés à cabeça.

Teve intervalo, todo mundo bebeu café, todo mundo comeu bolachas de água e sal e todo mundo falou ao celular ao mesmo tempo. Parecia até que um estava falando com o outro. Serjão disse que ia só ver umas besteirinhas finais, e voltava “daqui a pouco”. Voltei às minhas leituras, sabendo, pelo tom da voz, que o negócio seria demorado.

Lá pelas tantas, me arretei, comecei a derrubar os caramujos com a caneta. Zapt! zapt! Fui à copa, perguntei se tinha sal, porque é um santo remédio para esses predadores cruéis. Uma pitadinha de sal, e eles morrem, possivelmente de pressão alta. Informo aos digníssimos leitores, que o Tribunal Regional Eleitoral do Recife não abastece sua copa de sal. Voltei à minha luta. Procurei uma pedra, para uma batalha mais campal, mas cadê as pedras deste país?

Já tinha derrubado inúmeros caramujos, quando a reunião acabou. Eles ficaram lá, no chão molhado, mas todos vivos, os caramujos. Saí derrotado. Fiquei pensando que gato bem que podia comer caramujo, seria perfeito, a Preta salvaria o jardim e ainda economizariam com ração.

Saímos de lá debaixo de um toró. Molhei as sandálias numa poça, Serjão resolveu que almoçaríamos, antes de tirar o dinheiro. Comi uma salada supimpa, no bar central, que o dono quer que escreva com o “c” minúsculo mesmo, e ainda vimos um pedaço da Copa, num telão imenso. Não fui convidado a pagar a conta, e me fiz de desentendido, para não causar maiores problemas. Serjão tirou o dinheiro às 13h43, pela graça divina.

Mas desconfio que o país não pode dar muito certo mesmo, se falta uma reles pitada de sal na copa de um Tribunal Eleitoral, para manter um jardim bonito. Aqui vai minha sugestão: ou comprem sal, ou contratem um jardineiro.

ps. Não sei o que está acontecendo com este Blog, que agora cismou de modificar o tamanho das letras. Hora está grandona, hora minúscula. Segurem firmes, amigos leitores, que estou buscando assessoria bloguiana.

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