Conversas com moças-máquinas e uma lan-house repleta de não-silêncio
Samarone Lima
Amigos leitores, não desejo a nenhum de vocês o que ando vivendo, no mundo da Internet. Sem meu notebook, estou sendo obrigado a usar as tais “lan-house”, em diversos lugares do Recife. Há tempos não convivo com uma gente tão desagradável e barulhenta. A questão é simples: os tarados por jogos fazem uma espécie de competição em grupo, e dos 20 computadores ligados, agora, deve ter uns dois ou três com gente olhando email ou reparando no tal Orkut, o frisson do momento na Internet. O restante é só alucinado, tarado, fissurado e mal-educado. Ao meu lado, um sujeito de uns 30 anos dá berros e uiva, porque perdeu não sei o que, um monstro qualquer parece que devorou uma parte de seu cérebro. Ele grita ao meu lado, e não pensa que eu gostaria só de um pouco de silêncio.
Mas vamos à crônica de hoje, que estou inspiradíssimo, vocês nem imaginam, especialmente das três tentativas que fiz, hoje, para resolver pendências financeiras pelo telefone. Descobri tardiamente que o Brasil está ficando um país burro, e me senti meio burro também.
Primeiro, liguei para a Telemar, para resolver uma e somente uma reles conta atrasada. Por causa desta besteirinha, não estou podendo ligar para os amigos. Descobri que a figura famosa da atendente, aquela que diz, num sotaque paulistano “eu vou estar te mandando uma segunda via da conta”, quando poderia dizer “vou te mandar a cópia da conta”. Pois bem, agora você liga, uma voz melíflua diz que é a “atendente virtual” da empresa citada, e pede para que eu fale meu problema. Não gosto de conversar com máquinas, muito menos de falar meus problemas para máquinas. Falo meio constrangido meu problema, a moça-máquina responde que não entendeu. Ficamos nessa lenga-lenga, digo o problema, ela diz que tenho uma conta atrasada, e foi justamente por isso que eu liguei. Lá pelas tantas, a moça-máquina desliga o telefone na minha cara.
Depois de 37 minutos conversando com ninguém, fiquei sabendo que vão mandar uma cópia da minha conta atrasada em até 10 dias, e respiro aliviado. Mas, interiormente, me vem uma chateação afetiva - durante muitos minutos, conversei com uma voz gravada, impessoal, distante, cavernosa. Cansado do meu drama espiritual, vou tomar um café e aqui na esquina, quando chega Ricardo, o taxista. Explico meu problema, em 22 atos, ele mata a charada:
“É só tu ir numa farmácia Pague Menos, que a segunda via sai na hora”.
Me sinto burro.
Ligo para a Cabo Mais, porque não estou mais usando tanto a Internet, e não preciso mais de banda larga. Mais uma confusão dos diabos. Falo com três atendentes, que pedem meus dados religiosamente, entrego os dados, e no final da ligação, sou informado que a ligação vai ser transferida para a “área de cancelamento”. Me avisam que terei que pagar mais um mês de serviço, porque não avisei com um mês de antecedência, aquele caralho todo, para me arrancar uma grana extra.
No final, me informam também que terei que efetuar o pagamento em Setúbal, um bairro muito longe de todas as minhas coisas, do outro lado da cidade, e nesse momento eu dei a gota serena. Reclamei do atendimento, da falta de atenção, lembrei que no futuro eu poderia querer uma empresa de internet, e não usaria a Cabo Mais, que era falta de respeito, a moça escutou com aquela cara de sempre e disse um “tudo bem, senhor”. Tudo bem nada, minha filha, cliente precisa ser melhor tratado, eu nunca mais vou querer serviços da Cabo Mais.
Mas pior que isso tudo é mesmo a lan-house aqui de Casa Forte, onde moro. Está lotada até a tampa, e tem gente à beça com aquela carinha de maluco. Poderiam estar jogando uma boa pelada, na calçada. O cara ao lado urrou há pouco: “caralho, que leg da porra!”
É, amigo, é um leg da porra mesmo. Vou sair daqui, correndo, que está me dando dor de cabeça, e vai chegando o entardecer no Recife. Amanhã tentarei escrever algo decente, num lugar qual ermo, qual incessantes sussurros de noites indormidas em hotéis baratos, como dizia o velho T.S.Eliot, que não me deixa mentir.
Quanto à Copa do Mundo, aqui vai um desabafo: essa TV Globo está transformando a competição em um exercício de estupidez. Imploro transmissões dos jogos em silêncio, em respeiro aos nossos ouvidos e corações.
Vamos que vamos.
Postado em Crônicas |
18 Comentários »


