Dois artistas e o fascínio da poesia
Samarone Lima
Não sei para que serve a poesia, mas cada vez mais tenho uma fé em seu poder de transformação. A poesia pode mudar destino, salvar pessoas, transformar sentimentos, alimentar.
Há pouco, ela, a poesia fez tudo isso, fez uma escola entrar em festa, a festa da emoção. Tudo porque dois artistas-saltimbancos, o Rafa e o Ju, que estão de férias no Recife, aceitaram vir na escola em que ensino (a Kabum!), para apresentar um trabalho simples, modesto, doce, chamado “intervenções”.
Eles chegaram durante o lanche, circularam de mansinho entre os 80 jovens, todos na faixa de 16 a 19 anos. O espetáculo se resume a um ato – recitar poesias no ouvido das pessoas. Fiquei de longe, olhando esses jovens serem “invadidos” pelas palavras poéticas. No final, nos reunimos para conversar um pouco.
É impressionante o que a beleza provoca nas pessoas. Primeiro, o silêncio. A vontade de simplesmente não dizer nada, como se a alma dissesse “quero sentir”. Os olhos se dilatam, ficam brilhantes e mais vivos. Por fim, o sorriso aparece sabe-se lá de onde, como agradecimento pelo milagre da beleza.
Todos ficamos emocionados. Educadores, alunos e os artistas. Conversamos sobre temas que estão fora da pauta nacional ou local. Aqui pertinho, na Rua Velha, um prédio desabou na terça-feira, e sete pessoas morreram. Os ventos da eleição de outubro já começaram a soprar, mas nossa fome, nossa grande fome, era pela poesia, pela emoção e descoberta de mundos. Ao final, todos agradeciam. Os alunos me agradeciam por ter trazido os dois “nômades”, como uma aluna disse; os professores, pelo momento de emoção, em meio às muitas aulas, e os dois saltimbancos, porque se emocionaram muito no contato com os jovens.
Então me veio a idéia de bálsamo. A poesia como bálsamo para a vida, ungüento. Olhando a crônica que escrevi ontem, tão cheia de chateações, tanta falta de cuidado nas relações, uma certa vulgaridade na vida brasileira, me vejo renovado. Que venham outras chateações, tenho aqui uma capa de super-herói, cheia de poetas. Tenho cá o meu escudo de Fernando Pessoa, de Manuel Bandeira, de Gullar. Hoje, a poesia veio, me deu a mão, me puxou para o alto. É preciso agradecer. Vai aqui minha reverência aos dois saltimbancos que vieram nos encher de alegria e beleza.
“Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
e ter visões por almoço,
quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
desta civilização feita com pregos.
Quero viver, como uma bandeira à brisa,
símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!”
(Álvaro de Campos)
Para Rafa e Ju, poetas.
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