Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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No Recife, nem Jesus está salvando

15 de junho de 2006, às 18:17h por Samarone Lima

Aconteceu no domingo, eu já tinha escutado relatos de amigos, mas somente hoje, consegui conversar com a vítima, o senhor João Valadares. Para quem não sabe, João é um sujeito magro, boa gente, meio amarelado, um andar desengonçado, jornalista de primeira linha e boêmio desde as primeiras horas. Pode ser encontrado em botecos os mais diversos da cidade, e nas arquibancadas do Arruda, exercendo seu pessimismo ancestral. Nosso time pode estar metendo um 8 x 0, perto de terminar o jogo, mas ele olha para o lado, assustado, e confessa:

“Estou com medo que eles empatem no finalzinho”.

Pois bem. No sábado, ele exerceu sua boemia até quase o amanhecer, chegou em casa, estacionou seu carro defronte ao prédio e foi dormir.

Vamos ao carro. Um Fusca branco, 1994, todo arrumadinho, que ele apelidou de “Itamar”. Pendurado no retrovisor, pendurado, o colar com as cores do Santa Cruz, que a sua amada, Rita, costuma usar, como amuleto, nos jogos mais sofridos. Um pequeno ventilador dava um ar bucólico ao veículo. No porta-luvas, umas cinqüenta fotos do álbum da Copa do Mundo.

João acordou no domingo, desceu ainda com aquele bafo, curtindo sua ressaca, e foi pegar o carro, para ir à casa de Ritinha. Quando botou a chave na fechadura, a porta abriu sozinha. Tinha um sujeito dentro, tentando botar o carro para pegar.

“Oxente, o que tu estás fazendo aqui dentro?”, perguntou João.

“Ah, esse carro é teu, fera?”, respondeu o sujeito, sem pressa.

“É claro que é meu. E o que é que tu estás fazendo, dentro do meu carro?”

“Ah, velho, eu ía roubar o teu carro agorinha, mas como tu é o dono, não vou roubar mais não. Toma aí”.

O quase-ladrão saiu do veículo, só faltou dizer “foi um prazer”, e saiu caminhando lentamente. É bem provável que tenha ficado um pouco chateado com a presença inoportuna do João, mas o fato é que foi para casa, quase assobiando “la vie em rose”.

Cem metros depois, tinha um posto da Polícia Militar. João correu com o Fusca, chamou o policial, mostrou o ladrão, que caminhava bucolicamente ali, pela Beira-Rio.

“Tas vendo aquele cara ali? É um ladrão, estava tentando roubar meu carro agorinha, peguei ele em flagrante”.

O nome do policial era Jesus. João sentiu que tudo ía dar certo. Como Jesus e João se deram muito bem, na Bíblia, então conseguiriam prender o ladrão.

“Ah, eu não posso sair daqui não, fera. Se eu sair, eu é que vou preso”, respondeu Jesus.

João argumentou, mostrou o cara, eram pouco mais de cem metros. Nada. Nem pensar em sair atrás de ladrão. Quando chegou a viatura, já era tarde (no Recife, as viaturas da Polícia sempre chegam quando não há mais nada a fazer). João ainda circulou com os PMs, mas o cara estava longe. Não dizem que devagar se vai longe? Ladrão é que vai mesmo.

Abatido, chateado, João foi para a casa de Ritinha, em Boa Viagem. Estacionou o carro na Rua dos Navegantes. Na hora que trancou a porta do seu Itamar, sentiu algo estranho. Era um mau-pressentimento forte, semelhante à decisão do Campeonato Estadual, nos pênaltis.

Ficou no apartamento da namorada, e de vez em quando vinha aquele sexto sentido. “E o Fusquinha na rua, João Valadares…”

Já era noite, quando ele não resistiu. Iria descer, para tirar o carro da Navegantes, e botar na Avenida Boa Viagem, bem mais movimentada e defronte à entrada do prédio. Era mais seguro.

“Deixa lá mesmo, João, o perigo já passou”, respondeu Ritinha. Creio que Diogo, irmão de Ritinha, também tentou acalmá-lo, mas como Diogo é rubronegro, é bom ter cuidado.

Ele não resistiu. Desceu com Ritinha, para mudar o lugar do Itamar. Mas a chuva estava pesada. No elevador, foi percebendo que era um exagero. Chegou ao térreo, mas nem desceu. O Fusquinha ficou lá.

Sabe-se que durante a noite, o magro Valadares acordou várias vezes.

“Meu Fusca!”, pensava.

“Itamar!”.

Um suor frio o acompanhou durante toda a longa noite.

Na segunda-feira, descendo no elevador, Diogo soltou uma gracinha que o magro não gostou nada.

“Eita, o teu fusquete… Tanto que falasse, será que ele ainda está lá?”

O magro, com olheiras profundas, pensou em dar uma cotovelada no irmão de Rita, mas deixou para lá. Quando chegou ao local, estava vazio. Na madrugada, tinham roubado seu Fusquinha.

“Gelei na hora”, me confessou ele, há pouco.

Na delegacia, contou detalhadamente o que tinha acontecido. O policial perguntou qual era o ano do carro.

“Noventa e quatro”.

“Ah, pode esquecer. Vai virar bugre ou ultra-leve”, respondeu, quase sorrindo.

Foi um consolo e tanto.

João me confessou também que tinha se apegado ao carrinho. Foi um ano de convivência, entre uma boemia e outra.

“É igual a cachorro, a gente se apega”.

Uma semana antes, em uma farra com o inseparável Marcel Tito, ele disse que o Fusca 94 tinha sido a melhor compra que já tinha feito na vida.

E o toque sentimental, capaz de arrancar lágrimas no mais bruto dos brutos: João passou dois dias indo ao trabalho com as chaves do Fusca no bolso…

**Nota aos leitores: por conta da minha mudança para o Cabo, estou tendo problemas com a Internet. Tem hora que a letra fica maior, que sai minúscula, depois tudo some, esta postagem mesmo me custou um tempo enorme. Segurem firme, que em breve, tudo voltará à normalidade.

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Descobertas debaixo de um pé de jambo, num domingo de chuva no mercado da Boa Vista

12 de junho de 2006, às 13:01h por Samarone Lima

Aconteceu ontem, e tudo está claro em minhas lembranças afetivas. Estávamos eu e meu amigo Serjão, visitando alguns botecos do Mercado da Boa Vista, para um projeto modesto mas simpático – estamos fazendo um guia dos botecos de mercados do Recife. Aos domingos, temos esta dura, quase estafante tarefa, a de visitar os bares, falar com o dono ou dona do estabelecimento, ver se a cerveja está gelada, provar os petiscos, tudo com o profissionalismo adquirido ao longo de anos de garapa.

O início de tarde estava belo e calmo. Começou a chover, e ficamos debaixo de um pé de jambo, um dos muitos daquele velho e aconchegante mercado. Recebemos explicações detalhadas, da dona Maysa, sobre o surgimento do bar “Escritório”, que completou 30 anos em 2006. Estávamos na terceira cerveja, depois de dominar um miúdo de galinha com lascas de cebola e rodelas de tomate, quando, não sei de onde, surgiu o assunto.

A princípio, estranhei. Meu amigo sabia muitos detalhes sobre derrame, a recuperação dos velhos e dos jovens, falou longamente sobre o assunto que venho acompanhando de perto. Há 15 dias, minha tia-avó sofreu um princípio de derrame, e vem se recuperando de uma forma impressionante.

Fiquei então sabendo que meu amigo perdeu uma filha há dois anos. Ela, “o que fiz de mais belo na vida”, como disse meu amigo, teve um problema neurológico quando tinha seis anos. Como era muito jovem, o impacto foi devastador. Ficou tetraplégica. O restante da vida foi em uma cama.

E súbito, aquele início de tarde teve outro sentido. Serjão me falou sobre aqueles anos, sobre a dor, mas por mais que as palavras terminem iguais, ele falou mesmo foi sobre o amor. E me contou coisas do fundo da alma, que nunca imaginei, porque sempre o vejo sorrindo, animado, tocando projetos, realizando coisas. Quando escuta os relatos de pessoas que julgam estar com “problemas sérios”, ele às vezes acha graça.

“Essas pessoas lá sabem o que é a dor…”

Ele me citou um trecho de um forró muito famoso no Nordeste:

“Pra todo mundo a minha cara é de alegria/ Porque ninguém tem nada a ver com a minha dor”.

Concordei imediatamente.

“Essa dor é minha”, respondeu ele.

Me falou de Daniela com tanto amor, que quase pude vê-la. Melhor que isso, acho que a senti por ali, por entre as mesas de plástico, os bêbados molhados, entre as TVs, que transmitiam mais um jogo da Copa do Mundo, nas goteira de um toldo de plástico, que passou a nos abrigar. Imaginei os seis anos de alegria que ela proporcionou, e tentei imaginar o sofrimento que foram aqueles anos com ela à cama, sem dizer uma palavra, cada dia morrendo um pouco, apesar de toda a infra-estrutura montada em casa.

E Serjão me contou que um dia foi jantar na casa de uns amigos. Era um jantar de natal, e a filha dos amigos não estava à mesa por um motivo: tinha quebrado um jarro caríssimo, de uns R$ 500,00.

“Por que ela não está aqui com a gente?”, perguntou Serjão.

Os pais explicaram o fato do jarro caríssimo, a punição etc. Meu amigo disse o seguinte:

“Eu peço a permissão de vocês para trazê-la à mesa”.

Os pais não entenderam a “intromissão” e perguntaram o motivo.

“Eu daria tudo o que eu tenho na vida para que a minha filha, hoje, quebrasse não só um jarro de quinhentos reais, mas a minha casa inteira. Eu daria a maior festa do Recife se ela tocasse fogo na casa, ficaria com ela, na calçada, olhando o fogo queimar tudo, rindo ao lado dela, até que ficassem só as cinzas”, respondeu meu amigo.

Mas a filha não podia. Estava em casa, na cama, cercada de equipamentos, tubo de oxigênio, enfermeiros. Não podia quebrar nada, muito menos um jarro caríssimo.

Depois que falou isso, Serjão trouxe a menina de volta para a mesa. Talvez tenha mudado muita coisa na vida dela e dos pais, não sei. Sei apenas o que ele transmitiu naquele jantar, e o que me transmitiu, enquanto contava essas lembranças, no domingo de chuva.

Perguntei ao meu amigo porque ele nunca tinha me contado aquela história. Ele respondeu o mesmo:

“Essa dor é minha, Samarone, ninguém tem nada a ver com ele. Só eu posso senti-la”, respondeu.

Concordei em silêncio, ainda com espantado com a intensidade quase serena dos que foram testados pela vida, e sobreviveram.

Para o meu amigo Serjão, com afeto.

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A doce vingança*

9 de junho de 2006, às 16:32h por Samarone Lima

Finalmente chegou a Copa do Mundo. Nós, os amantes do futebol, que nos desesperamos o ano inteiro, nos campeonatos estaduais, nas batalhas para subir à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro (e por lá ficar uns bons anos); nós que arrancamos os cabelos em um jogo contra o Centro Limoeirense, na reta final do primeiro turno (em Limoeiro); nós, que saímos caçando um boteco que transmita um jogo do nosso time numa quarta-feira chuvosa, um tal de Malutron, pela Copa do Brasil; nós, que somos acusados de loucos, obcecados, alienados, dependentes, viciados em futebol; enfim, nós que escutamos comentários do tipo “não sei pra que sofrer tanto por causa de um time” ou “não sei qual a graça que vocês vêem no futebol”, e coisas do tipo, ou piores.

Aqui vai uma confissão: para nós, amantes do futebol de janeiro a dezembro, nós que passamos pelo céu e inferno com nosso clube de coração, a Copa do Mundo é a nossa redenção.

Ah, que maravilha ver aquela tia ranzinza, que não vê graça nenhuma em “ver um bocado de homens correndo atrás de uma bola”, vestida de Brasil, dos pés à cabeça, segurando a mão da filha, com o coração na boca.

Ah, que felicidade do sujeito casado, que escuta gracinhas do tipo “parece que morreu um parente teu”, quando o time perde um campeonato, ver a esposa ajoelhada, na hora da cobrança dos pênaltis, fazendo promessas a São Expedito, São Apolinário, São Tomé, e outros santos que desconheço a origem e identidade, pedindo que pelo amor de Deus “essa bola tem que entrar, que o Brasil precisa muito deste título”, mooc se nunca tivéssemos ganho uma reles tacinha…

Ah, que gozo supremo, ver aquele Phd em Sociologia e Antropologia, que já ponderou diversas vezes sobre a alienação e mercantilização do futebol, fumando um cigarro atrás do outro, já na hora em que os jogadores ainda estão cantando o hino nacional, fazendo mandingas as mais diversas, acendendo velas e incensos, alertando para começarmos “dando uma pressão total”.

Ah, que alegria, amigos, que alegria vê-los inebriados, absortos, obcecados por cada jogo da Seleção Brasileira.

E nesta hora, surge do fundo da alma, de nós apaixonados por futebol, de nós, estádio-dependentes, uma espécie de benevolência. Nossa vingança é quase um ato de emancipação afetiva. Devolvemos com alegria o que nos foi dado em forma de frases contundentes, comentários ácidos, afirmativas dolorosas, quando mais precisávamos de apoio. A cada quatro anos, na Copa do Mundo, nós caneleiros, nós, da segunda divisão da vida, que comemos espetinho à beira dos estádios, que sofremos com os cambistas, que viramos dependentes de uma transmissão pelo rádio de pilha, devolvemos aos nossos detratores uma espécie de cordialidade mística.

Durante os jogos, explicamos vagarosamente o que é um volante. Fazemos verdadeiros tratados filosóficos, com exemplos desenhados na lousa, sobre o impedimento; dissertamos exaustivamente sobre a primeira fase da Copa, avisando que depois vai começar o mata-mata; tentamos, em vão, fundamentar sobre a importância histórica e mística do Zagalo no banco de reservas, ao lado do Parreira; explicamos, com uma ponta de rancor, por que o nosso zagueiro não subiu no cruzamento; relatamos, didaticamente, que Mineiro não é um jogador que veio de Minas…

A Copa do Mundo dá aos amantes cotidianos do futebol, como eu, um raro e estranho sabor de vingança. Diria que se trata de uma doce vingança.

Durante um mês, nos sentimos os mais normais dos seres. Estranhamos aquela prima caladona, quase uma santa, soltar uma coleção de palavrões, numa falta perigosa contra o Brasil. Descobrimos, neste momento, que ela sabe mais palavrões que a torcida inteira do nosso time. Ficamos meio sem jeito quando o moralista da família toma todas e começa a sambar, defronte à TV, ao som de “Voa, canarinho voa”, uma música que é da Copa de 82…

Sentimos um orgasmo espiritual quando aquele vizinho rabugento, incapaz de um “bom dia”, entra correndo pelo nosso portão, e pula em cima da nossa família, que se abraça entre lágrimas, e começa a gritar “É campeão, porra!”

Ou seja: tudo o que fazemos, durante quatro anos, eles, os normais, fazem em um mês. Então, perdoemos os exageros e admitamos, bem secretamente: a Copa do Mundo é a nossa doce vingança.

* Texto publicado em 5 de junho na coluna “Folha Seca”, que mantenho com o amigo Inácio França, no site www.pernambuco.com.

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Anotações aleatórias sobre os estados d’alma

8 de junho de 2006, às 16:49h por Samarone Lima

Dona Da Luz recebeu alta no domingo, depois de vários dias no ex-Hospital Infantil, que esqueci o nome agora. A vi hoje de manhã, faceira como sempre, com aquele sorriso manso de quem já viveu tudo, e encontrou a seiva da alegria para tocar o barco. Minha tia Flocely, que teve uma “isquemia temporária”, como bem disse o médico, está se recuperando do baque de uma forma vertiginosa. Para nosso espanto, brevemente vai estar completamente recuperada. Antes de ontem, assistimos juntos “Sociedade dos Poetas Mortos”, e ela chorou muito no final, eu não menos, principalmente quando os alundos sobem na cadeira e dizem “Ó captain, my captain”, uma homenagem ao professor, ao Walt Whitman, à poesia, à liberdade.

Ontem, estávamos nos primeiros dez minutos de ” Diários de Motocicleta”, e chegou uma visita, que falou muito, depois tia ficou cansada e desistiu, então eu fui ler e escrever.

Seu Vital está se preparando para uma cirurgia depois da Copa, e anda contrariadíssimo porque não vai poder beber nos próximos dias. Hoje mesmo acertei de emprestar minha TV 29 polegadas para a turma ver os jogos da Seleção lá em Vital. Fiquei sabendo que o professor Davi contratou Boy como seu funcionário às segundas-feiras. A única exigência é beber com ele até a noite. Naná me contou que ontem, a cachaçada foi grande.

Estou morando no Cabo, a 55 quilômetros do Recife, e não sei se voltarei ao Poço. Minha mesinha fica defronte a uma goiabeira, numa rua sem saída, e a escada tem 16 degraus. Minha vista agora não é mais para o bar de Seu Vital, mas para a Escola Luísa Guerra, onde impera uma gritaria infernal, uma baderna infinita. Prefiro Seu Vital. Hoje de manhã, os alunos soltaram dois rojões de São João. Pensei que o mundo estava caindo em cima da casa, justo agora que tia estava ficando boa. O cachorro da casa se chama Bam Bam, e só come galinha cozida.

Tenho usado o Fiat vermelho de tia, e gosto de ir ao Recife nas horas de menor trânsito, a 60k por hora, curtindo a lentidão e a paisagem, deixando os apressados passarem voando. A Internet no Cabo é uma beleza: descolei um lugar que cobra R$ 0,50 por 20 minutos, e é de lá que mando minhas crônicas de sempre. Ontem, a moçca foi almoçar e me deixou tomando conta do lugar.

Tem chovido muito no Cabo. Eu gosto de chuva. Fico sentado, olhando pela janela e tentando entender as coisas que estão acontecendo, a tristeza que descobri, nos últimos dias. Arregimentei forças no meu próprio espanto, creio. Continuo com esta esperança de tudo se ajeitar, de tirar a lição de cada encontro, de tentar ir ao mais sagrado em mim e nos que me rodeiam. Não sei se tenho conseguido, se os fracassos se acumulam livremente, até que algo maior reverbere.

Tanto arrodeio para confessar tristezas profundas e capitulações, sinceramente…

Melhor buscar o velho Adolfo Montejo, que pergunta onde estão os seus olhos.

“Se a paisagem mudou, que olhar é este que ainda mantenho”, pergunta.

Vou aqui, pegar a estrada, com os vidros abertos, para entrar o vento.

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Juraci, a "Raínha do Real".

5 de junho de 2006, às 16:58h por Samarone Lima

Encontrei-a a semana passada, mas, por força das circunstâncias, só hoje pude escrever sobre esta criatura. Chama-se Juraci, se denomina “Rainha do Real”, e já foi apelidada de “Jura é um real”, porque atende, faz curas, reza, lê cartas, tudo por um real.

“Se quiser dar dois reais, eu aceito”, diz ela, ao lado de uma enorme quantidade de bugingangas, na Praça Maciel Pinheiro, ali no centro do Recife. Apesar de estar entre a rua do Hospício e a Imperatriz, ela briga com quem a chama de doida, e pende mais para o lado da majestade mesmo.

Nosso encontro começou de mal jeito. Eu estava com uma câmera, tirando fotos do povo nas calçadas, e esbarrei na criatura, que já conhecia de ouvido. De longe, tirei uma foto, e ela pegou um guarda-chuva do arco da velha, escondeu-se debaixo de uma barraquinha improvisada. Parecia que estava levando uma saraivada de tiros. Ficou mesmo assustada. Guardei a máquina, me aproximei. Ela estava agoniada mesmo.

“É que fotografia altera minhas energias, meus os raios ultra-violeta são afetados”, disse, olhando para minhas mãos, à procura da máquina.

“Tirei uma foto da praça, de longe, e já guardei a máquina”, disse. Só depois de uns cinco minutos de aproximação e conversa mole, ela baixou a guarda. Melhor: baixou o guarda-chuva.

“Jura é um real” tem os dedos cheios de anéis feitos dos materiais mais diversos, como pedaços de plástico bem grossos, ferros de origem imprecisa, badulaques, usa roupa em cima de roupa, tem uma espécie de cocar inusitado na cabeça, carrega óculos escuros na ponta do nariz, que deve ter custado R$ 0,99 ali por perto, já com a lente, de cor incerta, caindo. Diz que mora num apartamento ali perto, mas durante o dia, toma conta daquele pedaço.

“Sou a responsável pelas pequenas causas daqui”, explica sorrindo, e aproveito para me sentar no banco, ao lado de sua tenda.

Conversa vai, conversa vem, Jura me mostra as cartas, uma mistura de cartões telefônicos velhos, imagens de políticos, santos e santas, cartas de baralho, o escambau. Peço para ela ler minhas cartas, ela vai passando tudo, sem embaralhar, diz que vou ganhar muito dinheiro, diz que sou deveras inteligente, comenta certas coisas da minha vida sentimental que não vem ao caso, penso em perguntar se o Santa Cruz vai permanecer na Primeira Divisão, mas os assuntos vão aparecendo, aos borbotões, e acho que não cai bem misturar futebol com espiritualidade. Coisas que se encaixam se misturam às irrealidades de Jura. Resumindo, eu acredito no que quero, no que é bom, e descarto as viagens transcedentais.

Jura me conta que sou filho de Iemanjá, que terei que fazer oferendas ao mar, na forma de peixe assado. “Sempre peixe, suas oferendas têm que ser peixe”, diz, muito séria. Só nessa hora entendi porque gosto tanto de sardinha. Depois me explica que tem poderes de cura, porque é uma das poucas pessoas no planeta que têm a possibilidade de falar diretamente com Jesus Cristo, uma linha direta mesmo, sem pontes. Jura é tão poderosa, que descobriu um problema sério nas mulheres do Recife, um problema de saúde que me pareceu grave (sem entrar em mais detalhes, por questões éticas, creio), mas antecipou que está curando todas, absolutamente todas, sem que elas saibam. Falou também que está protegendo Lula, e por isso ele vai ficar mais quatro anos.

“Jura é muito poderosa”, me informa, com um sorriso.

Fiquei sabendo que ela também desenvolveu um aparelho de raio laser, capaz de decifrar todos os males de qualquer pessoa. Com o aparelho, uma espécie de binóculo remendado com várias tiras de pano amarrando, Jura faz o diagnóstico e passa o remédio, que você pode comprar em farmácias, ou no Mercado de São José. Essa consulta, que envolve energias especiais, raios infra-vermelhos, matéria cósmica, Jura cobra mais caro, começando com R$ 20,00. É preciso pechinchar bastante, para chegar aos R$ 10,00.

A “consulta” no banco da praça só terminou porque eu tinha uma reunião às 18h, e já eram 17h15. Paguei com gosto os R$ 2,00 e saí pela rua da Imperatriz. Em todas as lojas, os vendedores estavam fantasiados de verde e amarelo, e criavam, às duras penas, uma alegria derradeira, para atrair os últimos clientes. Na frente da C&A, creio, os promotores de venda faziam uma batucada meia-boca, aos gritos “faça o seu cartão agora”. Os pedestres caminhavam apressados e não vi ninguém fazer cartão nenhum, mesmo com a batucada.

Passei na velha Cristal, ali na rua do Imperador, pedi um café e uma coxinha. A senhora que me atendeu perguntou:

“Ainda estás no Diário?”.

Caramba, a mulher do café lembrava de mim, quando eu tomava umas pela Cristal, com o velho Zé Maria e o pilantra do Otávio. Mas isso foi em 1994, há 12 anos…

“Não, saí faz tempo”, respondi.

Atravessei a última ponte num galope manso, pensando na vida e nas besteiras de sempre. Ventava pra dedéu. Fiquei pensando na conversa com Jura. Acho que ela acertou em várias coisas. Mas o que gostei mesmo foi dela, a criatura com seus badulaques, suas coisas, brincos, anéis. No íntimo, ela me pareceu uma figura feliz, com um sorriso aberto, franco. “Sou uma pessoa que cura”, disse várias vezes.

Qualquer hora, voltarei lá, e pedirei a utilização dos raios infra-vermelhos, para um diagnóstico completo. Quem sabe me ajude a ver melhor as coisas e a me curar de outras. Eu gosto de gente assim.

Como sou meio pirangueiro, só pagarei R$ 10,00.

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