Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Lembrancinhas

5 de julho de 2006, às 12:48h por Samarone Lima

Tinha acabado de chegar ao Recife, depois de seis anos morando em São Paulo. Era julho de 2.000, estava com 31 anos, novinho em folha, por assim dizer. Lembro que aluguei uma pequeníssima casa, na Rua dos Arcos, e a mudança estava a caminho. Então encontrei agora há pouco, neste eterno trânsito entre duas Cidades (Cabo e Recife), um velho caderno de anotações, que não chega a ser um diário, mas esboços de crônicas jamais escritas, poemas nunca publicados, pensamentos soltos como folhas em meio aos ventos e vendavais.

Me veio a imagem de um homem bêbado, em cima do telhado, chorando pela morte de sua mulher. Esse homem eu conheci de fato, e há algo de mais dramático nisso tudo, porque a gente chora em todo canto, quando dói demais. Buscar o telhado parece uma tentativa de se aproximar dos deuses e o desejo de afastamento do mundo, onde estão os homens. Não vai passar um amigo em cima do telhado, a qualquer momento, e perguntar “ei rapaz, por que você está chorando?” Mas a cena está lá, registrada, por algum motivo que não lembro.

Está lá, também no caderno, Seu Heleno, que morava na casa de Luzilá, em uma casinha mais recôndita. Era um gentleman, quando não bebia. Quando tomava suas muitas garapas, ficava mamadinho e passava a falar muito. Era um bêbado que conversava com as paredes, as plantas, os animais, o vento. Em sua santa sabedoria, falava muito pouco com gente. Um dia, cheguei para visitar Luzilá e ele começou a falar comigo, em “Cachaçanês”, o idioma da cachaça. Fiquei mole de tanto rir.

Certa vez, Luzilá arranjou dinheiro para Seu Heleno comprar a chapa. “Ele comprou a de cima, bebeu a de baixo”, me contou Luzilá. E era engraçado ver aquele homem falar em cachaçanês, com os dentes superiores que não encontravam nunca os inferiores.

Alguém me emprestou uma rede para a primeira noite na casa vazia, não sei quem foi. Quando deitei, senti um perfume que se misturava ao mofo. A rede certamente esteve guardada durante muito tempo, até que chegou o visitante inesperado, o amigo que pediu uma rede. Ocorreu à pessoa colocar perfume, para aplacar o mofo. O nome disso é delicadeza.

Seu Manuel, vendedor de Guaiamum. Sobre ele, registrei apenas o seguinte: “”trata-se de um homem que gosta muito de conversar”. Ele morreu há alguns meses, vítima de um choque elétrico absurdo. Morreu e conversamos muito pouco.

Itamar, o cachorro da vizinha, uma velhinha dessas que adoro conversar. Foi a filha quem o batizou, o cachorro, claro, de Itamar. “Meus cachorros têm todos nomes mais simples. É Champanhe, Veludo, Piaba, Corcel”, diz a velhinha. Depois que saí, escutei ela dar um berro que sacudiu o bairo: “Itamar!”

No reencontro com os amigo, estava uma moça muito calada. Era tão calada, que não lembro de uma frase, das 9h às 12h, quando ficamos conversando. A única frase que ela disse, a certa altura do campeonato, foi “aqui tem uma cioba muito boa”. Diria que ela era superlotada de silêncio.

“Acho que vou dobrar. A gente não dobra trabalhando? Vou dobrar bebendo”, diz um sujeito no Mercado de Casa Amarela, e só faço tomar notas.

Minha profissão é esta: tomar notas.

Estava cuidando de um jardim, ao lado da casa nova, quando passou a velhinha de Itamar, o cão já citado. Ela me olhou silenciosa, ficou quieta, vendo a movimentação toda para arrancar mato e plantas umas belezas poucas, mas necessárias. Ficou em mais silêncio ainda, até que disse: “ Agora está morando gente aqui”. Tradução simultânea: “também gosto de coisas bonitas”. Sorri e ela emendou:

“Vou chamar você de meu filho”.

Chico me falou de sua separação. A mulher estava indo morar com outro sujeito, abandonando-o mesmo de verdade.

“Quando estiver passando fome, venha que eu lhe dou de comer”, disse ele para a mulher, antes de ela ir embora.

Estava chovendo muito, naquele julho de 2000, o Recife parecia Macondo. Estava na casa de Luzilá, mais uma vez, e conversávamos sobre chuvas e essas coisas molhadas. Ela Luzilá, contou que um ano, estava muito triste com um monte de goteiras por toda a casa. “Estava chateada mesmo”, disse, até que veio uma tromba d’água, e poucas horas depois, sua bela casinha estava quase submersa, com quase dois metros de água. Era a enchente.

Pelo menos ela não tinha mais a chateação das goteiras.

Bem, vou encerrando por aqui. Alguém nessa casa tem que trabalhar.

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