Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Monte Castelo, lembranças e flores de plástico

28 de julho de 2006, às 15:53h por Samarone Lima
Não, não se trata de nenhuma referência às batalhas do Brasil na II Guerra. Até onde eu sei, foi em Monte Castelo que os pracinhas, os soldados brasileiros, mandaram ver, ganharam umas pelejas contra os alemães, na base do drible de corpo, improviso e vontade. O Monte Castelo é o bairro aqui de Fortaleza, onde morei até os 18 anos. Ontem, fui dar umas voltas pelos quarteirões que fizeram parte da minha adolescência, e só ao final da jornada, depois de algumas conversas, e surpresas, com poucos vizinhos me reconhecendo, entendi o fenômeno do tempo: já se passaram 19 anos, desde que embarquei para o Recife.

Primeiro encontrei o Tóya, que nunca soube o nome, com quem tive uma briga monumental, lá pelos 14, 15 anos. Briga monumental não, houve uma confusão, ele saiu correndo atrás do meu irmão, o Tonho, eu corri atrás do Toya, ele se virou, me acertou um tabefe de primeira, e voei para trás. Acabou em uma fração de segundos uma de minhas poucas brigas de rua, porque caí para trás e ficou por isso mesmo. O Toya me abriu um grande sorriso, ontem, falou da vida, quis saber de mim. Nem sei mais se foi com ele mesmo que briguei. Lembro sim, foi com ele, cheguei em casa com um enorme calombo na cabeça.

Segui, camundongamente, olhando as casas. Por conta da violência, todos os muros são altos, e prolifera aquela cerca de arame, com o aviso “Perigo, corrente elétrica”. Aqui na casa da minha mãe tem essa cerca. Se alguém tocar, dispara um alarme. Custa R$ 150 mangos por mês, uma espécie de aluguel extra. O bairro está soturno, triste. Semana passada, mataram o dono de um pequeno comércio, um negócio brutal. É igualzinho ao Recife, com assalto a todo instante. Estou escapando na base do silêncio. Quando vem um assaltante, finjo que não é comigo.

Passei pela casa de Seu Nonato, havia uma pequena conversa de senhoras. Reconheci a mulher de Seu Nonato, falei, ela me olhou longamente, pensando que eu era algum missionário. Uma senhora de cabelos claros matou a charada:

“Mas…não é o Samarone?”

“Menino, como está diferente…”

“É essa barba…”

Pela primeira vez, falaram mais da barba, que dos cabelos. Ficamos conversando, repassando os assuntos. Seu Nonato morreu há uns dois anos. No lugar do seu bar, tem agora uma academia de ginástica. O Charlon, nosso velho cantor do bairro, que ficava na esquina puxando lindas canções em seu violão, outro dia foi acertado por um delegado aposentado da Civil. Tomou cinco tiros, o velho Bilonga, como o chamávamos. Mas escapou dessa. Fazia mergulhação e tinha uma apnéia de quatro minutos, me explicou sua irmã. Quatro minutos debaixo d´água, é mesmo muita resistência. Sobreviveu bem. O Charlon é pastor evangélico em alguma cidade do interior. Nunca imaginei que o nosso Bilonga fosse ser pastor. Sempre o vi cantando as músicas de Ednardo, Fagner etc.

Quiseram saber de mim, contei que era jornalista, que estava no Recife, a irmã do Charlon teceu os melhores elogios à nossa Veneza Brasileira, contei que eu estava gostando mais de ensinar, que não sentia muita saudade das redações de jornal. A prosa rendeu, estava quase saindo uns biscoitos ao forno, mas não deu para esperar, eu tinha que fazer mais reconhecimento do terreno, fui cheirar o ar que já foi o meu, buscar os velhos habitantes.

À noitinha, bati pernas com Pepo (amigo dos bons tempos do 7 de Setembro), sua filha Amanda, Neto (meu companheiro de um período que eu jurava ser maratonista) e Carlinhos, amigo da nova safra. Passeamos pelo calçadão da Praia de Iracema. Meu deus, Fortaleza está inundada pelo turismo sexual! Em todo canto, o mesmo movimento de gringos enlouquecidos, moreninhas com roupas minúsculas, e a promessa dos euros rondando pelo ar. Não tive tempo de ficar deprimido, com as conversas do Neto e do Pepo, contando as presepadas da turma.

Mais tarde, em casa, assistindo Páginas da Vida com minha mãe e o Neto, o assunto do tempo foi voltando na minha cabeça. Olhei para minha mãe, com 60 anos. Está envelhecendo. Os cabelos brancos saem por toda a cabeleira, está mais gordinha, mais cansada, mas com aquela beleza de sempre. Queria que ela trabalhasse menos, tivesse mais descanso, mas é auxiliar de enfermagem, começou a trabalhar tarde no ramo, e os plantões tomam parte de sua vida.

Hoje, fomos ao cemitério, dar um olá à minha avó Zeneuda. Ela está enterrada no mesmo túmulo de tio Ademar. Ficamos em silêncio, rezamos um pouco, depois acendi um incenso.

“Ontem foi o dia da Avó, sabia?”, me disse minha mãe.

Eu não sabia, mas era como se soubesse. Depois, visitamos o túmulo de minha avó materna, Waldelice.

Em todos os túmulos, haviam flores de plástico. Estranhei, mas parece que são ordens do cemitério, eu sei lá, essas modernizações esquisitas. Resistem às chuvas, não morrem nunca, o cemitério fica todo coloridinho, mas não gostei nada. No final das contas, são de plástico, não fenecem, não têm a grandeza do precário, não vêm com o cheiro de tantas gerações de flores se perpetuando.

Tenho certeza que minha avó preferiria flores de verdade. No domingo levarei umas, na base do contrabando mesmo.

Vai ser ótimo. Eu sempre quis ser um contrabandista de flores.

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