Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Sábado no Recife

21 de julho de 2006, às 18:39h por Samarone Lima

Sábado no Recife. Minto. Sábado em Casa Amarela. Súbito, descubro que amo este pedaço da cidade, este bairro que tem nome uma casa de cor amarelada. Amo as ruas, as dobras, os vendedores de sonhos, aboletados em suas bancas de jogo do bicho. Amo os balcões dos mercados, os tamboretes que equilibram os homens e suas doses, em meio à festa dos pratos que saem a cada minuto, com algo guisado, assado, algo cheirando das penelas.

E essa claridade do sábado? E esse sol recifense, que torna as coisas mais claras, as pessoas mais lúdicas? Não, não se trata da lucidez comum, de sentir a alma melhor, seguindo os manuais de auto-ajuda, mas a lucidez de viver, seja como for, seja como flor.

Os homens circulam, conversam, bebem algo, contam histórias. O sábado é o dia das confissões. Ninguém atravessa o sábado com um segredo no peito. Se o faz, é um equivocado, um coxo permanente do espírito. Sábado é também o dia consagrado para o armistício. Não deveria haver mortes aos sábados. Não deveria haver separações, brigas, troca de farpas. Daqui do meu canto, uma mesinha em “Mery Almoços”, onde tomo estas notas, decreto inutilmente: não vos maltrateis aos sábados, pois é o dia do armistício!

No sábado, as janelas devem ser abertas no três e o dominó jamais poderá causar rusgas. O jogo, neste dia, deve ser manso. Os gestos devem ser mansos. Nada de bater pedras no tabuleiro. Há que tocá-las suavemente, sem ruídos, sem alardes. Há que cuidar para não deixar a porta bater. As conversas devem ser mansas (só as gargalhadas devem se espalhar, causar estremecimentos no espíritos). É aconselhável andar como no século XIX, como faz o meu amigo Gustavo.

Não descuidemos da geografia. A geografia, como a história, nos faz singulares. A geografia das ruas, das casas, dos bares, das roupas penduradas às janelas. É pelos detalhes espaciais que um francês é francês, que faz um sujeito de Marseille ser diferente do parisiense. O recifense da Zona Norte tem outro ritmo, outra ginga, o olhar é mais cadenciado. Só caminhando pelas calçadas de Casa Amarela, Poço da Panela, Alto José do Pinho, se percebe isso.

A geografia dos rostos também reverbera e aponta definições. Não tivesse eu vindo para o Recife, em 1987, com 18 anos, minha vida teria sido outra. Não teria encontrado meu próprio sangue, teria me perdido do meu destino. Seria como um soldado, que vai para a batalha, e apenas caminha, à procura de seu único combate. Me faltaria, ao final da vida, a herança afetiva do povo que escolhi para a irmandade. Seria manco do espírito. Entraria na batalha já ferido de morte. Sendo jogador, entraria em campo contudido. A vida, sem o Recife, teria sido de viés.

Sábado em Casa Amarela. Um dia em que se pode consertar uma bolsa rasgada por R$ 1,00. Dia em que os velhos sebos vendem livros como “Irresistível amor”, “Ninho de amor”, “Amor sem máscaras”, “Cowboy de aluguel”. Dia perfeito para comprar o “Livro do Ano” de 1971 e ver que o mundo sempre foi esta confusão dos homens e do poder. Dia em que se pode comprar livros como “Miséria doirada”, ou “Catita – quadrinhos eróticos para adultos”. Não esqueçamos das Playboys antigas, amontoando os corpos já envelhecidos. “Tiazinha! 26 páginas de enlouquecer!”.

Sábado. Estou olhando os livros, quando chega um bêbado e me conta que encontrou um livro sobre Raul Seixas, no banco da Praça de Casa Forte.

“Acho que o cara leu e esqueceu no banco”, diz.

“Que sorte, heim?”, respondo, e a senha está dada para a conversa.

Ele olha para mim, me dá uma cutucada e diz:

“A história do velho Raul!”

No mesmo dia, cheio dos quequéus, ele perdeu o livro.

“Se eu encontrar, pego pra tu. É a história do velho Raul. Perdi ali, perto de Dom Vital. Só tem ladrão”.

Dom Vital é uma escola, em Casa Amarela, defronte a Mery. Nunca vi ladrão por lá.

“O velho Raul, o velho Raul”, repete meu bebinho.

Passa o vendedor de relógios, com vários deles dentro de um recipiente plástico, cheio d’água.

“Queres? É a prova d’água”.

En se voi, dizem os franceses.

Casa Amarela. Onde os diálogos passeiam coletivamente por entre as mesas.

“Mas tu não é frango não, é?”
“Eu disse que voltava, não foi? O boêmio voltou novamente”.
“Boa tarde, Mery, é um prazer revê-la”.
“Eu não posso dizer a mesma coisa”.
“Faça feito eu: minta”.
“Eu não sei mentir, só sei falar a verdade”.
“Verdade demais mata, meu bem”.
“É cada um que me aparece aqui…”
“Ele está tomando Gardenal”.
“É remédio controlado, é?”
“É, mas só o remédio. Ele não tem controle de nada”.
“Dona Mery, não dá para comer sem colher!”
“Cadê o Zé? Nunca mais vi o Zé!”
“Ele é ele, tu é tu. Fica na tua aí que é melhor”.

Fico por aqui. O sábado me levou a passeios pela memória. Em 1987, quando cheguei aqui, Casa Amarela foi uma espécie de albergue da esperança. Depois de alguns anos fora, voltei para o mesmo lado da cidade. É onde está meu norte. Algo em minha alma pertence ao Recife. Não nasci recifense por uma distração espiritual dos meus pais. Vai aqui o meu perdão. É preciso perdoar sempre e amar sempre. Estou tentando.

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Mudanças em Estuário

21 de julho de 2006, às 12:13h por Samarone Lima

Andei pensando cá entre meus miolos, e numa conferência comigo mesmo, resolvi dar uma mexida no Blog. Como estou ficando muito sabido, vou começar a colocar algumas imagens também, pinturas, fotografias etc, além de textos de outras pessoas, que acho bonito. A idéia é atualizar mais, e abrir espaço para outras expressões, outras vozes.

Tenho um motivo especial: amizade com muitos artistas, gente que vem produzindo coisas bacanas, fora as almas sensíveis, que escrevem poemas, pequenas coisas lindas, que ficam adormecidas não mais em gavetas, mas nos arquivos de seus computadores.

Que acham?

Faço a inauguração pictórica com esta jóia do Egon Schiele, “Die tanzerin”, que no meu alemão fluente, deve ser “A dançarina”.

Entre uma e outra beleza, uma cronicazinha do velho marujo aqui, para não perder o costume.

Um abraço,
samarone (samalima@gmil.com)

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Notícias fundamentais para o bem viver

18 de julho de 2006, às 14:51h por Samarone Lima

Acabo de ler no JC Econômico, do Jornal do Commercio uma pequena nota, falando o seguinte:

“O IPA está lançando a cebola Brisa A-12, desenvolvida pelo pesquisador Jonas Araújo, que além de maior resistência às pragas e produtividade, tem menor pulgência, ou seja: não arde nos olhos quando manipulada na cozinha”.

Sinceramente, seu Jonas Araújo, pela mãe do guarda, tenha piedade. Eu acho que a tal Brisa A-12 vai retirar da cozinha justamente um componente dramático, vai tirar a pulgência, que são as lágrimas de quem corta cebola. Depois da tal Brisa, não poderemos cantar “Teu amor é cebola cortada, meu bem/que logo me faz chorar”, sucesso dos anos 70 na voz do Raimundo Fagner.

O que será da criatura que tem vergonha ou dificuldade de chorar, que se agarra às cebolas para soltar seu pranto, disfarçando de toda a família uma tremenda dor de cotovelo? Não, meu amigo, por Deus, faça a pesquisa para que a nossa boa cebola resista bem às pragas, inclusive às pragas do Egito, faça com que ela seja produtiva e rentável, mas vai meu apelo inútil: não retire a pulgência das cebolas, para que as pessoas possam chorar em paz e sem remorso!

No mesmo jornal, na mesma coluna, sou informado que, pelas contas da Celpe, a Companhia de Eletricidade de Pernambuco, são desviados, anualmente, R$ 154 milhões. É o famoso macaco comendo no centro, a turma fazendo gambiarra para não gastar todo o salário só com a conta de luz, puxando do poste um arremedozinho de luz, ou confiscando, na calada da noite, uns megawats do contador mesmo, para não cair duro com a chegada da conta.

“Não é nada, mas seria suficiente para iluminar Recife por cinco meses, ou Pernambuco por 45 dias”, informa a coluna.

Primeiro, acho que a empresa nem deveria ser chamada mais de Companhia de Eletricidade de Pernambuco (Celpe), porque há muito tempo deixou de ser pernambucana, e é do Grupo Neoenergia, que por sinal eu detesto. Se eu conhecer um sujeito, e ele disser que é do Grupo Neoenergia, eu fecho a cara e começo a falar sobre a importância do desvio de energia. Depois, ela, a dita empresa, pode ter o lucro que tiver, mas não ilumina o Recife nem uma noite de graça, quanto mais cinco meses. Diria que são incapazes de iluminar um reles, um magricela de um poste, defronte a um orfanato. Terceiro, o que essa companhia está massacrando o povo, não é brincadeira.

Eu, que sou um atrasador crônico de contas de luz, água, telefone e outras faturas, tenho visto as filas e filas de gente parcelando as contas nas lojas da Celpe, com juros em cima de juros, com choro e ranger de dentes. Os desgraçados não avisam que vão cortar a luz, e só religam se você estiver em casa. Além disso, tratam a gente aos pontapés.

Antes, quando a velha Celpe era nossa, ainda mandavam aviso, o prazo era maior, havia a mínima cordialidade com o sofrimento alheio. Agora, são 45 dias e zapt! – o sujeito fica à luz de velas. Da última vez que fui parcelar duas contas atrasadas, a mulher, por sinal chatíssima, me disse que eles estão dificultando o parcelamento dos atrasados. Por que?, perguntei eu, “porque o povo não está conseguindo pagar”, respondeu ela, quase assoviando la vie en rose. Não é à toa que o ilustre Vital, aqui do Poço, chama a conta de luz de “a infame”.

Daqui do meu cantinho, eu olho para os R$ 154 milhões desviados e repito o que diz o velho bloco de Carnaval: eu acho é pouco.

Sou informado também que o brasileiro toma, em média, 3 litros e meio de sorvete por cabeça, creio que durante um ano. Nos países nórdicos, a média é de 20 litros/cabeça. Aqui vai uma confissão: alguém está tomando sorvete por mim. Não sei o que há, sou um sujeito muito esquecido, muitíssimo distraído, lembrei agora que me lembro muito pouco de tomar sorvete.

Não sei o que há, mas passo direto, não reparo nas sorveterias, e nunca me lembro de botar um pote daqueles da Kibom no carrinho do supermercado. Creio que minha média tem sido, com um certo exagero, meio litro por ano (e dependendo do ano). Ano passado, mesmo, acho que fiquei por ali, na faixa dos três casquinhos de duas bolas, sempre doce de leite e algo com passas, porque sou um sujeito que adora passas no sorvete, uma herança de infância.

Na verdade, fiquei pensando: esses nórdicos tomam sorvete pra chuchu, né? Se eu fosse diretor da Maguary Kibom, eu convocava o alto comando e fazia a sugestão: vamos invadir os países nórdicos, porque a negada lá toma um sorvete empurrado!

Vou aos Classificados (de hoje mesmo) reparar em alguma coisa diferente, para a crônica de hoje. Tem lá, no setor de “acompanhantes”, o anúncio da senhora Dayanna Diaz, aliás, perdão, um senhor. “Travesti loira bela feminina lábios carnudos, turbinada beijo grego com local”. Depois tem os telefones, que vou declinar. Pois bem, me vem uma pergunta existencial: o que diabos vem a ser um “beijo grego com local”?

Por último, aviso aos meus poucos mas insistentes leitores sobre uma oportunidade incrível. O sujeito está vendendo um Trator MF-275, ano 96, com 4 emplementos + 1000 horas garantia total + frete incluso. R$ 4.500.00 + 24 X R$ 1.020.00 fixas ou à vista R$ 18 mil. Apesar de não saber o que são os tais “4 emplementos”, nem como ele vai contabilizar as 1000 horas de garantia, acho que é aquele negócio de ocasião, o famoso pegar ou largar.

Já pensou, o cara chegar no trabalho, amanhã, num tremento MF-275? Se eu tivesse um bicho desse, levava meus amigos tudinho de trator para o Arruda, no domingo, para o massacre do Santinha no Flamengo. Mas, como diz o velho ditado popular, quem não tem trator, vai de Kombi, é o meu caso.

E la nave va.

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Coisas da vida

17 de julho de 2006, às 9:56h por Samarone Lima

Foi no sábado, no Mercado de Água Fria. Estávamos eu, Serjão e João Valadares, no bar Tenório, o rei do Jabá. Eram poucas mesas, na calçada, e tivemos que dividir o espaço com três camaradas que bebericavam mansamente, por ali. Daqui a pouco, já estávamos, nós três, num papo animado com os três desconhecidos. Lá pelas tantas, um deles olhou para o João e disse:

“Esse bicho é repórter. Eu conheço uma pessoa que é repórter”.

Falou assim, do nada. Acertou em cheio. Depois olhou para mim e anunciou:

“Esse aqui é escritor”.

Ficamos meio mudos.

Finalmente, ele olhou para Serjão, que estava com uma máquina fotográfica.

“E esse aqui, é o quê?”

“Fotógrafo”, respondeu nosso adivinho.

“Tá bom. Só porque eu estou com uma máquina fotográfica na mão, sou fotógrafo. Quer dizer que se eu estivesse com um rolo de papel higiênico na mão, eu era um cagão?”, perguntou Sérgio, e rimos muito.

Pois bem. A conversa seguia nesse ritmo sereno do sábado, já início da tarde, quando chegou uma senhora e pediu dinheiro para uma cana. Ela me chamou a atenção. O rosto era de uma índia, uma índia velha, os cabelos brancos e bem lisos escorriam pelos ombros. As feições eram marcantes. Esses rostos cheios de vida, que formam, na verdade, um semblante.

“A senhora quer uma cana?”, perguntou Serjão.

Ela fez que sim com a cabeça. Serjão pediu a cana, ela bebeu como se fosse água.

Daqui a pouco, ela me olha e diz que sou muito bonito, e o sábado fica lindo. Digo que ela também é muito bonita, Serjão tira uma foto nossa, e passamos a conversar. Então já somos seis na mesa e uma senhora de quase 60 anos, uma índia perdida num mercado de subúrbio. Ela teve 23 filhos, mora ali perto, é amiga de todos no Mercado.

Depois da nossa conversa, ela vai embora. Notamos um dos camaradas de cabeça baixa, com a mão encobrindo o rosto. O amigo dele informa:

“Ele é um dos filhos dela”.

Há um silêncio respeitoso na mesa. Depois ele explica que aquela senhora é sua mãe, que é alcoólatra, que não adianta levar para casa, que daqui a pouco ela volta para beber. Ficou envergonhado.

Caramba, o sujeito está tomando umas cervejinhas, numa tarde de sábado, quando a mãe chega do nada, e pede uma dose de cachaça a desconhecidos.

Seguimos nossa peregrinação. Depois fomos para o Edmilson Esquina Bar, onde atacamos um sarapatel.

“Muito bom esse sarapatel”, vaticionou Valadares.

“Sarapatel não, sarrabulho”, respondeu Serjão.

Terminamos a jornada mística em Vital, já ao crepúsculo.

Hoje, a imagem daquela índia envelhecida, que teve 23 filhos, me apareceu com força. E pensei em seu filho, já homem feito, envergonhado, escondendo o rosto.

Coisas da humanidade. Coisas da vida, eu sei lá.

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De volta pra casa

14 de julho de 2006, às 16:19h por Samarone Lima

Ah, estou de volta. Depois de uma verdadeira temporada no Cabo de Santo Agostinho, acompanhando a tia-avó que teve um princípio de AVC, chego novamente à minha pátria espiritual o Poço da Panela. A tia se recuperou bem, de uma forma surpreendente. Na segunda-feira, sentamos e começamos a conversar. Ela me contou a história de sua vida, numa cronologia impressionante.

“Nasci para ser professora. É a minha vocação, eu sempre soube, desde o início”, disse ela, com os olhos brilhando. Acho lindo isso, saber o que quer e ir atrás do ofício, realizar coisas, viabilizar a vida na generosidade. Ela fez isso como ninguém.

No Cabo, estava tudo ótimo, mas sofri muito com a falta do meu bar predileto. Lamento, amigos, mas não encontrei nenhuma filial da mercearia de Seu Vital por lá. Nenhum lugar que tenha queijo com mortadela regada ao molho inglês, ou um queijo acebolado no capricho, com pão na serra. Nenhum boteco que tenha aquele atendimento brusco, que parece irritado e brabo, mas é 99% encenação. Não encontrei contadores de piada cinco estrelas, como Walter.

Não resisti. Vou ficar acompanhando a tia com idas e vindas a cada dois dias. Agora mesmo, tardinha da sexta-feira, batuco esta crônica de improviso numa lan-house, e plenejo tomar uma Brahma, em pleno crepúsculo. São as pequenas redenções, as necessárias redenções.

Muita gente acha que exagero no bucolismo, mas estarão lá, daqui a pouco, o velho Tony, Garotinho, Luiz Pezão Maúcha, Eduardo, Duda a Milhão, Naná, Lucidélia, Walter etc. Depois chega Lulu, querendo brincar e mostrar alguma sandália nova, no auge dos três anos.

Minha casa tem um primeiro andar, e de lá, posso ver o bar de Seu Vital. Sim, amigos, tenho uma casa com vista para o bar. Quando estou nos momentos mais tristes, quando as coisas saem erradas, costumo dizer o que o poeta disse em tempos remotos:

“Vou me embora para Vital. Lá, sou amigo dos reis”.

Vital. O único bar do Brasil frequentado por três reis (Walter, Naná e Davi). O único com troncos na calçada, servindo de cadeira e mesa. O único que registra as buchudas aos domingos, motivo de discussões acaloradas. O único bar do Brasil que recebe minhas correspondências, quando estou viajando ou perambulando.

Tia está sã e salva, já posso ficar mais relaxado. Eu agora preciso me cuidar. Ontem, dei uma faxinada completa, varri tudo, passei o pano, cheguei ao final do dia exausto.

Mas foi aquele cansaço bom, de quem está voltando para casa. É bom ter um lugar para chegar, um lugar que tenha nosso cheiro, nossos gostos, os livros espalhados de um certo jeito, o tapete naquele lugar, uma lâmpada queimada por ali, para a gente pensar “preciso comprar uma lâmpada para minha casa”.

E domingo, ninguém me segura. Vou ser aquele zagueiro raçudo de sempre, na pelada dos Caducos. Se bobearem, darei umas subidinhas para o ataque, em busca de um gol-surpresa, depois de três semanas desfalcando a nossa defesa.

Vou dedicar à tia, claro.

ps. Gustavo, encontei o Heidegger, naquele formato que conheces bem. Na leveza…

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