Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Algumas aventuras nos ônibus recifenses e adjacências, com o povo em geral

30 de agosto de 2006, às 10:27h por Samarone Lima

Manhã de quarta-feira, 6h40, Cabo de Santo Agostinho, a 45 quilômetros do Recife, creio. Espero o famoso “Centro do Cabo”, para ir ao Recife, pegar o Alto Santa Isabel e chegar ao Poço da Panela. Vivo agora entre duas cidades, ambas de quatro letras: Cabo e Poço. O sol da manhã é rasgante, o ônibus (R$ 2,45) não chega nunca. Uma senhora ao meul lado, irada, diz que o povo é muito besta, que só funciona mesmo quando tocam fogo em dois ônibus, só assim eles respeitam a gente. Eu reparo. Ela tem uns 50 anos, cabelos brancos, parece cansada de tudo. Cansada e indignada. A longa fila aguarda, bovinamente, pacientemente. O fiscal fala ao celular. Uma turma vende vale-transporte por 15 centavos a menos.

O ônibus chega com quase 20 minutos de atraso, fico no fundão, do lado da janela. Daqui a pouco, todo mundo vai chegando, todos vão se falando. Quando o ônibus sai, sou informado que ontem teve uma confusão no mesmo ônibus, envolvendo os passageiros, o motorista e o cobrador. O motorista andava aos solavancos, e a turma do fundão começou a esculhambar. Quase o cacete come, a sorte é que três camaradas, os mais brabos da turma, não estavam. “Foi Deus”, diz um gordinho simpático e suado nas axilas. É o gordinho clássico, simpático, sorridente, que busca a harmonia do grupo. Ele diz que vai votar em Lula porque “Lula é como sardinha: ruim com ele, pior sem ele”.

Começo a tomar minhas notas. Ônibus é meu laboratório de criação, Raimundo Carrero que me desculpe. Lá pelas tantas, a mulher ao meu lado, a mais conversadora, olha curiosa e comenta.

“Tua letra é muito miúda. Não dá para entender nada”.

Quer saber o que faço. Digo que sou professor de literatura, ela quer saber o que é literatura, explico que é livro bom, ela acha bonito, diz que tenho cara mesmo de professor. É sempre assim. Se eu dissesse que era campeão nacional de boliche, diriam que tenho cara de jogador de boliche. Ela me conta a gênese do grupo. Todos se conheceram ali, no range range do ônibus, o que sai às 6h45.

“Fomos ficando amigos. Vai chegando um, fica amigo. Se tu viesse com a gente todo dia, entrava no grupo”.

Eu acho lindo e bem menos orkutiano.

“Esse ano, vai ter amigo secreto”.

Conversamos umas coisinhas. Conto sobre minha tia-avó, que mora no Cabo, e do período que morei por lá, entre 1992 e 1994. Ela escuta atenta. A viagem segue, sem solavancos. Há um sorriso frequente nas pessoas, uma alegria de estar vivo. Lembro da Adélia Prado, quando diz que “ser brasileiro me determina de modo emocionante”. Falam que Maria Helena, candidata à presidência, é sapatão. Lula está eleito, para todos os fins. Ernesto, o nome do gordinho é Ernesto. O meu ex-cunhado, ele rasgou a Bíblia, diz minha amiga do lado. O mal se acaba por ele mesmo. O motorista de ontem é um papudinho. Ele veve bêbado e leva gaia. A mulher ao meu lado, a que estava olhando minhas anotações, se chama Eliuza. Na saída, ela me dá um alô:

“Ei, psiu, foi um prazer te conhecer”.

Aceno e sorrio. O ônibus segue.

Desço no Forte das Cinco Pontas, pego o Alto Santa Isabel (R$ 1,65). Já são 8h13. Na Rosa e Silva, uma mulher passa a roleta, e deixa a sua mãe ou avó na parte da frente, que é onde as empresas de ônibus deixam os velhos. Pede ao cobrador para avisar, quando chegar ao “Agamenom”, que vem a ser o Hospital Agamenom Magalhães.

Perto do Hospital, o cobrador avisa.

“Ó o Agamenom”.

“Ei, avisa aí para ela descer!”

“Óia, ela tá aqui não, visse!”

A velhinha desceu, por conta própria, na parada anterior. Confusão no coletivo.

“Desce logo, mulher, vai atrás de tua mãe!”, diz alguém.

A mulher desce, aflita. Alguém no Recife perdeu a própria mãe, em plena manhã. Dou testemunho do acontecido.

O ônibus vai chegando perto da entrada do Poço. São quase 9h. Desço junto com uma senhora de uns 60 anos, que mora na comunidade. Ela anda puxando da perna direita. Pergunto o que foi.

“Desde cinco horas estou no Agamenom, tentando marcar uma ressonância. Saí agora, sem conseguir nada”, diz.

Vamos caminhando. Ela diz que chegou a ficar quatro meses sem andar.

“Parece que é a tosporose”, diz, arrastando a perna.

Tenho que falar com Davi, vou quebrar à direita.

Ela vai caminhando lentamente, com o passo arrastado.

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O porre que faltou

28 de agosto de 2006, às 11:16h por Samarone Lima

Semana passada, nós freqüentadores assíduos da mercearia de Seu Vital, aqui no Poço da Panela, nos dedicamos a atualizar nosso obituário. É uma tradição que mantemos há algum tempo. Chegou alguém novo à turma, começa a ficar habitué, tem que preencher o nosso pequeno questionário, informando sobre as preferências, na hora do embarque final: comida, bebida, a música, quem vai fazer o discurso, texto para a lápide etc. Depois de respondidas as perguntas, as pessoas ficam aliviadas. Ninguém, pelo menos aqui, vai ser contrariado no momento fatal.

Um dos amigos escolheu a música “Naquela mesa”, para acompanhar seu último trajeto, e chamou a atenção. É uma música cheia de lembranças, a letra muito evocativa, falando de um filho que admira o pai, enfim. Cada caso é um caso. Meu amigo João, por exemplo, pediu o hino do Santa Cruz. Naná quer que cantem “Shalalalala/ Coisa boa é namorar”. Barrabás, o primeiro da nossa turma que partiu para outros mundos, nos deixou um baita problema: pediu que cantássemos “Eu bebo sim/estou vivendo/tem gente que não bebe e está morrendo”. Como sua família é evangélica, tivemos que pedir a autorização para realizar o derradeiro pedido.

“Podem cantar. Ele gostava mesmo de beber”, admitiu alguém da família, num sábado à tardinha, no cemitério de Casa Amarela. Os amigos, todos mamadinhos, cantaram a modinha, enquanto o coveiro fazia sua parte.

Mas voltando ao tema. No dia seguinte, perguntei ao meu amigo sobre a escolha de “naquela mesa”. Ele me respondeu o seguinte:

“Faltou um porre na minha vida”.

Foi com o pai dele, me explicou.

O fato foi o seguinte. Quando o pai bebia, o meu amigo era atleta, remador, ganhava mais medalhas que o satanás, e só bebia guaraná, suco, vitamina, essas coisas de atleta campeão estadual, nordestino, quase nacional. Depois, quando o meu amigo passou a beber (e muito), o pai tinha adoecido do fígado, e teve que parar. Resultado: os dois nunca tomaram um porre juntos.

Mas aquela frase ficou martelando. “Faltou um porre na minha vida”.

Só depois entendi o motivo. Há algumas semanas, estive em Fortaleza para rever a família, e fiz as pazes com meu pai. Sim, há muitos anos as coisas vinham meio atravessadas, aqueles desentendimentos mútuos, o conflito de gerações, as incompreensões, essas chateações todas, que muitas vezes resultam em uma perda de tempo absurda, para não falar da perda afetiva, que é irreparável.

Como estávamos há três anos intrigados mesmo, igual a dois meninos pequenos, o encontro foi cheio de mistérios e dúvidas. Coube à minha irmã, a Mônica, fazer a ponte. Me senti meio clandestino de mim mesmo, porque tive que ficar esperando um telefonema com o “sinal verde”, ou “sinal vermelho”.

Lá pelas tantas, apareceu a luz verde, e nos encontramos em um restaurante. De longe, vi a careca do velho. Por sorte, ele tinha colocado um litro de whisky em cima da mesa, e já tinha virado duas doses. Eu, que não sou chegado a whisky, achei a bebida linda. Mandamos ver. Não, não tivemos aquelas conversas longas e profundas, cheias de acertos de conta, revolvendo o passado, o que foi, o que foi, o que não foi, o que deixou de ser, você fez isso, eu fiz aquilo. Foi apenas uma noite divertida com meu pai e minha irmã. Há muito tempo não via o velho tão leve, tão sorridente. Parecia mesmo um menino. Eu, não menos.

De lá, fomos para um forró meio esquisito, aqueles forrós em que todo mundo está meio bêbado, dançando descalço, alguns já sem camisa, e você espera somente a hora da próxima confusão.

“Não deixe nossos copos ficarem vazios”, disse ele para a garçonete, e já estávamos na cerveja.

Não teve confusão nenhuma. Foi uma noite divertidíssima, alegre, leve. As armaduras de tantos anos ficaram de fora.

Na saída, dei um abraço no velho, e acabou um tempo de porta entreaberta em nossas vidas.

Acho que ele também estava querendo este encontro. Ainda bem que este porre não vai faltar nunca em minha vida – nem na dele.

Para o Zé Vicente, então, meu pai.

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De volta à CEU

23 de agosto de 2006, às 14:04h por Samarone Lima

Passei a manhã com o mestre Lourival Holanda, discutindo aquele camarada muito gente boa, o Michel de Montaigne, um texto belíssimo, intitulado “Da experiência”. Coisas de quem pretende voltar a estudar, e fica na moita, como ouvinte, na disciplina “A poética do Ensaio”. Gente chique é outra coisa.

Pois bem. Na volta, já saindo da UFPE, me ocorreu algo: visitar a Casa do Estudante Universitário (CEU), minha morada entre 1988 e 1992. Mais que isso: ir ao apartamento 312, meu abrigo no inverno da vida. Eu estava com 19 anos, meus caros, quando alguém me indicou aquele lugar, e foi lá que me agarrei com unhas e dentes. Foi graças àquela casa, que fiz o curso de Jornalismo e quase terminei a licenciatura em Artes Cênicas. Foi lá que me envolvi com o Movimento Estudantil, e por artimanhas e trapaças do destino, acabei presidente da Casa. Foi lá que me alfabetizei para muitas coisas da vida, num período fundamental da minha espécie, entre os 19 e os 23 anos.

Logo na entrada, os sinais das mudanças. Não tem mais a famosa portaria, com um vigilante enfadado ou amigo olhando o movimento. Cada morador tem sua chave. O quadro de avisos, onde eu costumava escreve notas de apoio, de repúdio, colar recortes de jornal, continua lá.

“Curso de libras”, diz um aviso.

“Haverão bolsas para os residentes das CÉU’s”.

Ôps, alguém andou maltratando a nossa língua, creio.

Riscado de caneta, por cima do cartaz, o aviso:

“Arimatéia, ligar para Clinston, em São José do Egito”.

O mesmo sistema da minha época, o de anotar recados no quadro.

Reparei na diretoria/2006. O presidente atual é o digníssimo Everton Rocha, o Gaúcho, o secretário é o senhor Admário, Ipubi. Na direção de esportes, o Jacinto Ângelo, mais conhecido como Jajá. Finanças está a cargo do monsieur Valdério Rodrigues, o Zé do Rádio. Para quem não sabe ainda, o dia de reunião da diretoria da CEU é segunda-feira, a partir das 22h, na sala da diretoria.

Enquanto eu tomava estas notas, chegou um colchão supimpa (da Ortobom), para ser entregue ao senhor Avanilson.

Então a tradição dos apelidos continua. Lembrei imediatamente de Tijolinho, Dragão, Fera Ecológico, Fera Janela, Negão 70, Moral, Tourão, Pé-Duro, entre as dezenas, centenas de apelidos da Casa. Tinha um sujeito que consertava tudo, e sempre tinha algo no bolso que resolvia os problemas da TV, do telefone. Ganhou o singelo apelido de McGiver, acho que alguém por ai, que anda lendo minhas crônicas, lembra. McGiver era o astro da TV que se salvava na base do canivete, desmontava bombas com um reles clips, escapava de um acidente puxando um fio do carro, enfim.

Perambulei um pouco. Tem quatro de hóspedes! Na minha época, a gente hospedava no quarto da gente mesmo. No primeiro andar, a sala de estudos virou uma biblioteca. Entrei, tinha um rapaz estudando, levantou a cabeça e continuou. A biblioteca é meio fraquinha, confesso, mas é melhor que nada. Devagar, no meu passo de camundongo, cheguei defronte ao apartamento 312. Senti aquela cosquinha no coração, como bem diz o velho professor Davi. Caramba, foram quatro anos entrando e saindo naquele lugar! Tinha adesivos de Lula, João Paulo e Jurandir Liberal (13113). Os moradores ainda têm fé na política, então já fiquei contente. A tradição da esperança precisa continuar.

Bati três vezes. Silêncio. Bati de novo. Nada.

Então aconteceu o seguinte: em cima da porta, num espaço que não lembro o nome (os arquitetos e restauradores sabem), estava o molho de chaves. Meu espírito de vagabundagem acendeu na hora. Peguei as chaves, fiquei naquele dilema: abro e dou uma olhada, só para dar uma alegria aos olhos ou deixo pra lá?

Meu anjo da guarda deu uma cotovelada. Disse que eu não deveria fazer aquilo, seria invadir o espaço dos outros, essas coisas todas.

“Que frescura, anjo, é só uma olhadinha! Vou arrancar pedaço de ninguém, rapaz…”

O desgraçado insistiu.

“E se o morador chegar?”

“Digo que vim visitar meu primo no 311. Ele vai dizer que errei o apartamento, e tudo fica lindo”.

A discussão foi longa, e perdi. Devolvi as chaves para o lugarzinho lá, imaginei o quarto, a bancada que me acolheu durante tantas madrugadas, lembrei de Alencar, Fera Janela e Maranhão, que dividiram aquele espaço comigo, e resolvi seguir. Próxima parada: o banheiro, que estão incrivelmente mais bonitos e limpos.

“Não urine no chão”, diz inutilmente um cartaz. Obedeci.

“Caguem dentro da privada”, pediu outro cartaz, e fiquei imaginando como o sujeito consegue errar o alvo nesta ação que ocorre todos os dias, em todo o globo terrestre, e me parece ser relativamente simples. Aliás, o sujeito que consegue cagar fora da privada, precisa ir urgentemente a um médico – da cabeça, claro.

Perambulei pelos corredores. Quase todas as portas fechadas, que pena. Sinal dos tempos? O individualismo? Havia silêncio e quietude. Nem o Zé do Rádio tinha acionado sua seleção. Antes, era comum as portas abertas, muito movimento, um entra e sai de gente, fora as brincadeiras. Dragão, por exemplo, gostava de soltar bombas rasga-lata, quando a gente estava estudando.

Desci, vi o salão de jogos, com sinuca e ping-pong. Atesto que a sinuca é nova e boa. Vi a sala de TV, reformada. Foi ali que assisti a Copa de 90, num liseu brabo, aquele time sofrível do Sebastião Lazaroni.

Saí pelo portão eletrônico, fui me aboletar num banquinho, debaixo de uma árvore imensa. Peguei um cigarro, aquele cigarro que fumo de vez em quando, só para concluir um pensamento. Perguntei a umas cinco pessoas se tinham fogo, ninguém tinha, estão fumando menos mesmo, os recifenses, foi o que pensei. Então deixei o cigarro pra lá, tirei os sapatos e esfreguei o chão, que é uma forma muito minha de matar saudades de um lugar.

Lembrei da eleição para a diretoria da Casa, em 1990, que perdemos por um voto, no meio de uns 250, creio. No ano seguinte, ganhamos com uma votação estrondosa, e entrei numa fria monumental. Na greve dos funcionários da Universidade, era o pateta aqui, com a diretoria da Casa, que gerenciava o funcionamento do Restaurante Universitário, o RU, com funcionários terceirizados. Manhã, tarde e noite. Uma vez, flagrei um camarada roubando um cesto de comida, foi triste aquilo. Lembrei das muitas horas na fila, à espera do bandeijão que segurava a onda. À noite, deixava minha carteirinha da Casa com algum colega, e me mandava para a Católica. Lá pelas 22h40, após cochilar muito no Cidade Universitária, a janta estava guardada. Era uma sopa gelada de doer, mas era o que tinha, e nunca tive problemas com comida. O ruim mesmo era a falta dela.

Lembrei dos amigos, das alegrias, das batalhas quase diárias com a Reitoria. Lembrei que aquele espaço, a Cidade Universitária, era minha casa. Minha singela mãe um dia resolveu me dar um “presentinho”. Mandou, do Ceará, uma caixa com 12 litros de Ypióka. Meu quarto, o 312, virou uma farra durante uns três dias. Lembrei do Adônis Karafilakis, o Grego, que acordava todo mundo, bem cedo no domingo, para a pelada. Lembrei do dia em que levamos a Orquestra de Câmara da Universidade para se apresentar para os moradores da Casa. Foi inesquecível ver o que a música faz com as pessoas – elas esquecem de comer.

Lembrei de muitas coisas que não cabem nesta crônica. Coisas da minha vida. Tristezas, alegrias, descobertas, quando eu reinventava minha vida, longe de casa, da família, longe de tudo.

O rapaz da biblioteca fechou as janelas. Entendi que meu tempo tinha acabado. Veio passando uma mulher com um vestido azul, muito azul, caxingando de uma perna. Se apoiava numa bengala. Estava triste e só, com uma bolsa pendurada no ombro. A bolsa me pareceu pesada. Para onde ela estava indo?

Caminhava no sentido do Restaurante Universitário, mas ele fechou há muitos anos. Pensei em avisar, mas era tarde.

Para os meus amigos da CEU, onde estiverem.

Nota pós-crônica: Fiquei sabendo pelo comentário do glorioso amigo Pabá, da velha CEU, que o companheiro de quarto Alencar, o manso Alencar, morreu de um acidente de carro, logo após se formar em Medicina. Então lembrei daquele camarada magro, camaradíssimo, que foi reprovado no primeiro vestibular e se dedicou durante um ano inteiro, estudando mais de 12 horas por dia para conseguir chegar à sonhada Medicina. É uma cena marcante, daquele apartamento 312: saía, Alencar estava estudando. Voltava, Alencar estava estudando. Ía dormir, Alencar estava estudando. Lembro que estava no Ceará, quando saiu o resultado do vestibular, e liguei para a CEU, para saber se ele tinha passado. “Alencar passou”, me disseram. E fiquei feliz, muito feliz.

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Lembranças, comentários e outras coisas mínimas

21 de agosto de 2006, às 10:36h por Samarone Lima

Uma canção que eu adorava começava com um sopro, depois o sujeito entrava: “Eu sou nuvem passageira/que com o vento se vai/eu sou como um cristal bonito/que se quebra quando cai”. Eu era ainda bem moço, e hoje de manhã acordei lembrando disso. Esqueci o nome do cantor, que nunca mais fez sucesso.

Meu irmão, o Antônio José, adorava o Gilliard: “Pouco a pouco/foi que eu pude perceber/que gostar é diferente de querer”, e ganhava um disco do Gilliard no seu aniversário.

Meu pai tinha um costume. Na sexta-feira, botava discos de Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, e ficava tomando umas. As músicas eram colocadas num volume altíssimo, e lá pelas tantas, ele estava deitado. Às vezes chorava. A pessoa que chora deitada, está sofrendo muito, é o que penso, mas ele nunca comentou nada.

Duas vezes meu pai chorou muito por pessoas que não eram da família: na morte de Altemar Dutra, e do goleiro Castilho, do Fluminense.

Minha mãe sempre me pareceu uma traficante de esperanças.

Meu irmão, o Paulo, sempre foi o mais politizado da família. Uma vez, ele foi para o seminário, ser padre, e deixou o livro “Batismo de Sangue” de bobeira. Foi o meu batismo na literatura, pelas mãos do Frei Betto. Ironias da vida: anos depois, entrevistei Frei Betto em São Paulo, no mesmo convento dos Dominicanos, onde parte da história da queda de Carlos Marighella começou. O Paulo hoje faz doutorado em Minas.

Minha tia Flocely disse, outro dia, que nasceu para ser professora. Mais que isso, tinha certeza que sempre seria uma professora, era sua vocação mais profunda.

“Eu trabalhava tanto, que não tinha tempo de sofrer”, comentou.

Mirtes, minha amiga infinita, gosta de dar nome às coisas.

“Tem que ter um nome, bichinho. Se você ama, tem que ter um nome”.

Ontem escutei uma mini-história linda. O Santa Cruz foi campeão no ano passado. No dia seguinte, o filho foi ao cemitério, e colocou uma faixa em cima do túmulo do pai. Não sei se fez uma oração, mas a oração já estava feita. É amor, o nome disso.

Conversei com uma mulher que está casada há muitos anos com o mesmo homem. Tudo parece perfeito, até que fiz a pergunta:

“Qual é o segredo?

“Eu fecho os olhos”.

Certas perguntas são absolutamente inúteis.

Certas respostas doem.

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Vazios cartográgicos e outras lorotas

17 de agosto de 2006, às 14:03h por Samarone Lima

Depois dizem que eu invento histórias. Se eu tivesse o poder de inventar tantas histórias, estaria escrevendo ficção, porque ficção dá muito mais dinheiro que a realidade, e ando num liseu brabo, previsto para encerrar agora em setembro.

Estava em Fortaleza, outro dia, e fui ao encontro de um velho amigo. Foi lá que encontrei o sujeito, que não lembro o nome. Pois bem, o cara trabalha no IBGE, aquele mesmo das estatísticas. Só depois entendi porque o órgão é chamado de Instituto Brasileiro de Geometria e Estatística.

Um dos trabalhos dele era excelente: encontrar “vazios cartográficos”. Ôps, isso aqui vai render uma crônica supimpa, pensei, já puxando uns guardanapos, para anotar a conversa toda. Ele me explicou, de forma bem articulada e detalhada, o que é um “vazio cartográfico”:

“Existe o lugar real, mas não existe no mapa”.

O cara viajou para os lugares mais remotos do Brasil, à procura do que não estava no mapa. Cafundós do Judas, Onde o Gato perdeu as Botas, Terras do Sem Fim, Última Fronteira, foi o que lembrei na hora.

A cerveja foi deslizando, e ele foi se empolgando. Eu caçei minha caneta e mandei ver. É hoje que faço uma crônica arretada, pensei, mas depois perdi os tais guardanapos, e só hoje, mais de um mês depois, os encontrei, nos bolsos de um bermudão.

“É como se você fizesse a base da casa e precisasse de um endereço”, disse meu amigo.

Numa cidade que não lembro o nome, perto de alguma fronteira ali, na Bolívia, creio, ou é perto do Acre, sei lá. Sim, nesta cidade, ele viu uma orelha pendurada e perguntou pelo troço. Foi um caso envolvendo um paulista.

“Ele chegou todo metido a boi e comeu a filha do coronel”.

Não entendi o “todo metido a boi”, mas não vou ficar perguntando todos os detalhes, que isso estraga qualquer conversa.

O coronel, soube deu uma prenda:

“Você vai casar com minha filha, mas vou me vingar”, e zapt! – passou a faca no escutador do rapaz.

Um certo dia, na Amazônia, estava num povoado tão ermo, tão fora do eixo temático do planeta, que nem sequer tinha uma caninha para a turma do IBGE. Pelo que vi na mesa, esse pessoal bebe pacas. Pois bem, eles pegaram o helicóptero da FAB e foram ali, dar um passeio em busca de uma lapadinha. Amigos, que cana cara do oeste! Minha preocupação era somente uma: e se o piloto do helicóptero ficasse bicado?

“Por precaução, compramos a cana e voltamos para beber na comunidade”, me explicou o camarada já citado. Ufa! Eu sou um sujeito preocupado com os destinos da humanidade.

Depois da singela história, ele me informou que tinha mudado de setor. Está agora no setor de “gravimetria”, que é onde estão aqueles sujeitos encarregados, de medir a força gravitacional do planeta. Fiquei sabendo inclusive de algo da maior importância: a força gravitacional do planeta Terra é de 9,8 m2.

O programa utilizado para essa medição é o “Super”. Achei o nome muito simplório.

“Cada lugar tem uma força gravitacional diferente. Você vai lá e mede a força”, contou.

Eu, muito modestamente, e que ele não saiba, achei que o esforço é legal, mas não entendi direito para que tanta parafernália.

“A força da terra e geoidal”, detalhou.

Fui ficando cada vez mais impressionado com a importância das profissões que desconheço, inclusive espero despertar em alguns leitores mais jovens, o interesse pelos “vazios cartográficos e gravimetrias”.

“Através da força, consigo achar a superfície da terra”, explicou.

Pensei em dizer que acho a superfície da terra pisando no chão, mas podia complicar o papo. Depois ele explicou que os equipamentos utilizados são dos norte-americanos, uns troços dos anos 40, e que funcionam bem. Neste setor, ao contrário dos demais, eles estão mais desenvolvidos tecnologicamente que a gente, foi o que entendi.

O gravímetro, um instrumento de medição da terra, tem uma constante: é 50 graus.

Fiquei pensando muito secretamente: qual deve ser a força geoidal do Poço da Panela?

***
Nota: Hoje (sexta-feira), às 15h, estarei debatendo “Literatura contemporânea: circulando a letra, a voz e a imagem”, na Escola Kabum! Como a mesa tem nove participantes, minha esperança é ficar por último e fazer apenas os agradecimentos. Continuo um tímido que vai escapando pela tangente. Queria mesmo era estar na mesa “Elogio da Bobagem”, na UFPE, dia 25, ao anoitecer.

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