Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Como se recuperar de traumas

10 de agosto de 2006, às 13:42h por Samarone Lima

Quando eu era pirralho, adorava o Esporte Espetacular, dia de domingo. Era o programa mais aguardado da semana, porque sempre gostei de ver os detalhes dos jogos. Até hoje tenho esta mania. Vou ao estádio, mas no outro dia, preciso confirmar tudo pela lente da TV, e descubro que muitos lances eu não vi direito, por motivos os mais diversos.

Pois bem. Meu pai chegava, na metade do programa, apertava o pitoco da TV, desligava solenemente e me mandava lavar o carro.

Sinto muito, amigos, mas eu sou da época em que não havia o que se discutir com o pai. Era estranho e inexplicável aquela maldade, mas adulto, vamos e convenhamos, é um bicho esquisito. Daqui a pouco, lá estava o mané aqui, bastante infeliz, lavando o carro, doido para arranhá-lo todinho, mas não cairia bem, o velho iria descobrir, e o trauma seria pior.

Então, desenvolvi um Método Pessoal de Recuperação de Trauma (MPRT), em fase de sistematização. Dia de domingo eu começo sempre jogando uma pelada, no glorioso escrete dos “Caducos Futebol Clube”, depois peço à Dona Fátima para fazer uma jarra de suco de maracujá e me deito na rede. Assisto ao Esporte Espetacular de cabo a rabo. A cada bloco do programa, o trauma vai passando. Diria que estou quase curado - deste trauma, claro.

Lá pelas tantas, meu pai (o velho não era fácil) inventou que eu e meu irmão, o Antônio José, tínhamos jeito para cantar. Empombou com uma música antiquíssima, que dizia:

“Teco, teco teco na bola de gude, era o meu viver…”

Amigos, que suplício. Eu cantava às duras penas, absolutamente tenso, e até hoje não me dei ao trabalho de perguntar ao Tonho se ele sentia alguma alegria. Parecíamos dois cantores caipiras, desafinados e envergonhados, cada um suando mais frio que o outro.

Me recupero do trauma de uma forma bastante simples, inclusive indico isso no meu método: hoje em dia, eu não canto nem Parabéns. Acho inclusive a invenção do Caraokê uma idéia maligna, e na minha lista de amigos do peito, desconheço algum que ouse pegar um microfone para acompanhar aquele troço.

Quando eu era pequeno (que infância, amigos!), comi um troço que saiu queimando a língua, a garganta, quase que me lasco todinho, era um negócio para usar em limpeza, fortíssimo, e pensei que fosse umas bolachinhas. Parece que era Soda Cáustica, e garanto que o negócio não é fácil de engolir.

Para me recuperar do trauma, passei a evitar ingerir venenos e produtos de limpeza em geral. Tem funcionado muito bem.

Tendo sobrevivido à infância, cheguei à fase posterior, que chamam adolescência. Um belo dia, o diretor da escola me convidou a “não continuar no colégio, no ano seguinte”, e saí do convívio com minha turma maravilhosa. Foi traumatizante ir para outro colégio, longe dos meus amigos.

Além disso, o novo colégio tinha uma feira de ciências fraquíssima. No ano anterior, minha equipe tinha devorado todos os prêmios da escola, e logo em seguida, por conta da expulsão, me vi dissecando laconicamente um sapo, tentando mostrar um sapo dissecado, o que, obviamente, me resultou em comentários os mais perversos e notas baixíssimas.

Me recuperei deste trauma evitando visitar feiras de ciências. A partir daquele momento, também decidi nunca mais dissecar sapos. Como não tive recaídas, funcionou muito bem.

Já adulto, tive uma época traumatizante. Na Casa do Estudante, todos me achavam feio pra caramba. Olhando as fotos daquele período, acho que a turma estava certa, mas o ruim foi ter levado o assunto a sério. Chamava uma moça para dançar, e vinha sempre um não.

“É essa minha feiúra crônica”, pensava, voltando para casa com as mãos nos bolsos, absolutamente desolado.

Foi muito difícil este período. Aqui vai uma sugestão: se você conhece alguém bem feio, não o chame de “feio”, que magoa bastante a pessoa, e ela fica se sentindo mais feia ainda.

O trauma só foi passando com o avançar dos anos, quando a natureza cansou de me maltratar. O excesso de cabelos também me ajudou a tapear um bocado, e tenho seguido sem alardes, um pouco mais harmônico.

Vou parar por aqui. Tem dias que eu escrevo e falo tanta besteira, que está certa Dona Fátima. Ela de vez em quando me olha bem séria, depois que falo alguma asneira tremenda, e diz:

“Samarone, tu tem certeza que é um jornalista e professor?”

Eu tomo então uma golada boa do suco de maracujá, peço para ela sair da frente da TV, para eu ver o Esporte Espetacular, e respondo:

“E apois”.

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