Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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De volta à CEU

23 de agosto de 2006, às 14:04h por Samarone Lima

Passei a manhã com o mestre Lourival Holanda, discutindo aquele camarada muito gente boa, o Michel de Montaigne, um texto belíssimo, intitulado “Da experiência”. Coisas de quem pretende voltar a estudar, e fica na moita, como ouvinte, na disciplina “A poética do Ensaio”. Gente chique é outra coisa.

Pois bem. Na volta, já saindo da UFPE, me ocorreu algo: visitar a Casa do Estudante Universitário (CEU), minha morada entre 1988 e 1992. Mais que isso: ir ao apartamento 312, meu abrigo no inverno da vida. Eu estava com 19 anos, meus caros, quando alguém me indicou aquele lugar, e foi lá que me agarrei com unhas e dentes. Foi graças àquela casa, que fiz o curso de Jornalismo e quase terminei a licenciatura em Artes Cênicas. Foi lá que me envolvi com o Movimento Estudantil, e por artimanhas e trapaças do destino, acabei presidente da Casa. Foi lá que me alfabetizei para muitas coisas da vida, num período fundamental da minha espécie, entre os 19 e os 23 anos.

Logo na entrada, os sinais das mudanças. Não tem mais a famosa portaria, com um vigilante enfadado ou amigo olhando o movimento. Cada morador tem sua chave. O quadro de avisos, onde eu costumava escreve notas de apoio, de repúdio, colar recortes de jornal, continua lá.

“Curso de libras”, diz um aviso.

“Haverão bolsas para os residentes das CÉU’s”.

Ôps, alguém andou maltratando a nossa língua, creio.

Riscado de caneta, por cima do cartaz, o aviso:

“Arimatéia, ligar para Clinston, em São José do Egito”.

O mesmo sistema da minha época, o de anotar recados no quadro.

Reparei na diretoria/2006. O presidente atual é o digníssimo Everton Rocha, o Gaúcho, o secretário é o senhor Admário, Ipubi. Na direção de esportes, o Jacinto Ângelo, mais conhecido como Jajá. Finanças está a cargo do monsieur Valdério Rodrigues, o Zé do Rádio. Para quem não sabe ainda, o dia de reunião da diretoria da CEU é segunda-feira, a partir das 22h, na sala da diretoria.

Enquanto eu tomava estas notas, chegou um colchão supimpa (da Ortobom), para ser entregue ao senhor Avanilson.

Então a tradição dos apelidos continua. Lembrei imediatamente de Tijolinho, Dragão, Fera Ecológico, Fera Janela, Negão 70, Moral, Tourão, Pé-Duro, entre as dezenas, centenas de apelidos da Casa. Tinha um sujeito que consertava tudo, e sempre tinha algo no bolso que resolvia os problemas da TV, do telefone. Ganhou o singelo apelido de McGiver, acho que alguém por ai, que anda lendo minhas crônicas, lembra. McGiver era o astro da TV que se salvava na base do canivete, desmontava bombas com um reles clips, escapava de um acidente puxando um fio do carro, enfim.

Perambulei um pouco. Tem quatro de hóspedes! Na minha época, a gente hospedava no quarto da gente mesmo. No primeiro andar, a sala de estudos virou uma biblioteca. Entrei, tinha um rapaz estudando, levantou a cabeça e continuou. A biblioteca é meio fraquinha, confesso, mas é melhor que nada. Devagar, no meu passo de camundongo, cheguei defronte ao apartamento 312. Senti aquela cosquinha no coração, como bem diz o velho professor Davi. Caramba, foram quatro anos entrando e saindo naquele lugar! Tinha adesivos de Lula, João Paulo e Jurandir Liberal (13113). Os moradores ainda têm fé na política, então já fiquei contente. A tradição da esperança precisa continuar.

Bati três vezes. Silêncio. Bati de novo. Nada.

Então aconteceu o seguinte: em cima da porta, num espaço que não lembro o nome (os arquitetos e restauradores sabem), estava o molho de chaves. Meu espírito de vagabundagem acendeu na hora. Peguei as chaves, fiquei naquele dilema: abro e dou uma olhada, só para dar uma alegria aos olhos ou deixo pra lá?

Meu anjo da guarda deu uma cotovelada. Disse que eu não deveria fazer aquilo, seria invadir o espaço dos outros, essas coisas todas.

“Que frescura, anjo, é só uma olhadinha! Vou arrancar pedaço de ninguém, rapaz…”

O desgraçado insistiu.

“E se o morador chegar?”

“Digo que vim visitar meu primo no 311. Ele vai dizer que errei o apartamento, e tudo fica lindo”.

A discussão foi longa, e perdi. Devolvi as chaves para o lugarzinho lá, imaginei o quarto, a bancada que me acolheu durante tantas madrugadas, lembrei de Alencar, Fera Janela e Maranhão, que dividiram aquele espaço comigo, e resolvi seguir. Próxima parada: o banheiro, que estão incrivelmente mais bonitos e limpos.

“Não urine no chão”, diz inutilmente um cartaz. Obedeci.

“Caguem dentro da privada”, pediu outro cartaz, e fiquei imaginando como o sujeito consegue errar o alvo nesta ação que ocorre todos os dias, em todo o globo terrestre, e me parece ser relativamente simples. Aliás, o sujeito que consegue cagar fora da privada, precisa ir urgentemente a um médico - da cabeça, claro.

Perambulei pelos corredores. Quase todas as portas fechadas, que pena. Sinal dos tempos? O individualismo? Havia silêncio e quietude. Nem o Zé do Rádio tinha acionado sua seleção. Antes, era comum as portas abertas, muito movimento, um entra e sai de gente, fora as brincadeiras. Dragão, por exemplo, gostava de soltar bombas rasga-lata, quando a gente estava estudando.

Desci, vi o salão de jogos, com sinuca e ping-pong. Atesto que a sinuca é nova e boa. Vi a sala de TV, reformada. Foi ali que assisti a Copa de 90, num liseu brabo, aquele time sofrível do Sebastião Lazaroni.

Saí pelo portão eletrônico, fui me aboletar num banquinho, debaixo de uma árvore imensa. Peguei um cigarro, aquele cigarro que fumo de vez em quando, só para concluir um pensamento. Perguntei a umas cinco pessoas se tinham fogo, ninguém tinha, estão fumando menos mesmo, os recifenses, foi o que pensei. Então deixei o cigarro pra lá, tirei os sapatos e esfreguei o chão, que é uma forma muito minha de matar saudades de um lugar.

Lembrei da eleição para a diretoria da Casa, em 1990, que perdemos por um voto, no meio de uns 250, creio. No ano seguinte, ganhamos com uma votação estrondosa, e entrei numa fria monumental. Na greve dos funcionários da Universidade, era o pateta aqui, com a diretoria da Casa, que gerenciava o funcionamento do Restaurante Universitário, o RU, com funcionários terceirizados. Manhã, tarde e noite. Uma vez, flagrei um camarada roubando um cesto de comida, foi triste aquilo. Lembrei das muitas horas na fila, à espera do bandeijão que segurava a onda. À noite, deixava minha carteirinha da Casa com algum colega, e me mandava para a Católica. Lá pelas 22h40, após cochilar muito no Cidade Universitária, a janta estava guardada. Era uma sopa gelada de doer, mas era o que tinha, e nunca tive problemas com comida. O ruim mesmo era a falta dela.

Lembrei dos amigos, das alegrias, das batalhas quase diárias com a Reitoria. Lembrei que aquele espaço, a Cidade Universitária, era minha casa. Minha singela mãe um dia resolveu me dar um “presentinho”. Mandou, do Ceará, uma caixa com 12 litros de Ypióka. Meu quarto, o 312, virou uma farra durante uns três dias. Lembrei do Adônis Karafilakis, o Grego, que acordava todo mundo, bem cedo no domingo, para a pelada. Lembrei do dia em que levamos a Orquestra de Câmara da Universidade para se apresentar para os moradores da Casa. Foi inesquecível ver o que a música faz com as pessoas - elas esquecem de comer.

Lembrei de muitas coisas que não cabem nesta crônica. Coisas da minha vida. Tristezas, alegrias, descobertas, quando eu reinventava minha vida, longe de casa, da família, longe de tudo.

O rapaz da biblioteca fechou as janelas. Entendi que meu tempo tinha acabado. Veio passando uma mulher com um vestido azul, muito azul, caxingando de uma perna. Se apoiava numa bengala. Estava triste e só, com uma bolsa pendurada no ombro. A bolsa me pareceu pesada. Para onde ela estava indo?

Caminhava no sentido do Restaurante Universitário, mas ele fechou há muitos anos. Pensei em avisar, mas era tarde.

Para os meus amigos da CEU, onde estiverem.

Nota pós-crônica: Fiquei sabendo pelo comentário do glorioso amigo Pabá, da velha CEU, que o companheiro de quarto Alencar, o manso Alencar, morreu de um acidente de carro, logo após se formar em Medicina. Então lembrei daquele camarada magro, camaradíssimo, que foi reprovado no primeiro vestibular e se dedicou durante um ano inteiro, estudando mais de 12 horas por dia para conseguir chegar à sonhada Medicina. É uma cena marcante, daquele apartamento 312: saía, Alencar estava estudando. Voltava, Alencar estava estudando. Ía dormir, Alencar estava estudando. Lembro que estava no Ceará, quando saiu o resultado do vestibular, e liguei para a CEU, para saber se ele tinha passado. “Alencar passou”, me disseram. E fiquei feliz, muito feliz.

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