Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

agosto 2006
D S T Q Q S S
« jul   set »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Arquivos


Usuários online


O porre que faltou

28 de agosto de 2006, às 11:16h por Samarone Lima

Semana passada, nós freqüentadores assíduos da mercearia de Seu Vital, aqui no Poço da Panela, nos dedicamos a atualizar nosso obituário. É uma tradição que mantemos há algum tempo. Chegou alguém novo à turma, começa a ficar habitué, tem que preencher o nosso pequeno questionário, informando sobre as preferências, na hora do embarque final: comida, bebida, a música, quem vai fazer o discurso, texto para a lápide etc. Depois de respondidas as perguntas, as pessoas ficam aliviadas. Ninguém, pelo menos aqui, vai ser contrariado no momento fatal.

Um dos amigos escolheu a música “Naquela mesa”, para acompanhar seu último trajeto, e chamou a atenção. É uma música cheia de lembranças, a letra muito evocativa, falando de um filho que admira o pai, enfim. Cada caso é um caso. Meu amigo João, por exemplo, pediu o hino do Santa Cruz. Naná quer que cantem “Shalalalala/ Coisa boa é namorar”. Barrabás, o primeiro da nossa turma que partiu para outros mundos, nos deixou um baita problema: pediu que cantássemos “Eu bebo sim/estou vivendo/tem gente que não bebe e está morrendo”. Como sua família é evangélica, tivemos que pedir a autorização para realizar o derradeiro pedido.

“Podem cantar. Ele gostava mesmo de beber”, admitiu alguém da família, num sábado à tardinha, no cemitério de Casa Amarela. Os amigos, todos mamadinhos, cantaram a modinha, enquanto o coveiro fazia sua parte.

Mas voltando ao tema. No dia seguinte, perguntei ao meu amigo sobre a escolha de “naquela mesa”. Ele me respondeu o seguinte:

“Faltou um porre na minha vida”.

Foi com o pai dele, me explicou.

O fato foi o seguinte. Quando o pai bebia, o meu amigo era atleta, remador, ganhava mais medalhas que o satanás, e só bebia guaraná, suco, vitamina, essas coisas de atleta campeão estadual, nordestino, quase nacional. Depois, quando o meu amigo passou a beber (e muito), o pai tinha adoecido do fígado, e teve que parar. Resultado: os dois nunca tomaram um porre juntos.

Mas aquela frase ficou martelando. “Faltou um porre na minha vida”.

Só depois entendi o motivo. Há algumas semanas, estive em Fortaleza para rever a família, e fiz as pazes com meu pai. Sim, há muitos anos as coisas vinham meio atravessadas, aqueles desentendimentos mútuos, o conflito de gerações, as incompreensões, essas chateações todas, que muitas vezes resultam em uma perda de tempo absurda, para não falar da perda afetiva, que é irreparável.

Como estávamos há três anos intrigados mesmo, igual a dois meninos pequenos, o encontro foi cheio de mistérios e dúvidas. Coube à minha irmã, a Mônica, fazer a ponte. Me senti meio clandestino de mim mesmo, porque tive que ficar esperando um telefonema com o “sinal verde”, ou “sinal vermelho”.

Lá pelas tantas, apareceu a luz verde, e nos encontramos em um restaurante. De longe, vi a careca do velho. Por sorte, ele tinha colocado um litro de whisky em cima da mesa, e já tinha virado duas doses. Eu, que não sou chegado a whisky, achei a bebida linda. Mandamos ver. Não, não tivemos aquelas conversas longas e profundas, cheias de acertos de conta, revolvendo o passado, o que foi, o que foi, o que não foi, o que deixou de ser, você fez isso, eu fiz aquilo. Foi apenas uma noite divertida com meu pai e minha irmã. Há muito tempo não via o velho tão leve, tão sorridente. Parecia mesmo um menino. Eu, não menos.

De lá, fomos para um forró meio esquisito, aqueles forrós em que todo mundo está meio bêbado, dançando descalço, alguns já sem camisa, e você espera somente a hora da próxima confusão.

“Não deixe nossos copos ficarem vazios”, disse ele para a garçonete, e já estávamos na cerveja.

Não teve confusão nenhuma. Foi uma noite divertidíssima, alegre, leve. As armaduras de tantos anos ficaram de fora.

Na saída, dei um abraço no velho, e acabou um tempo de porta entreaberta em nossas vidas.

Acho que ele também estava querendo este encontro. Ainda bem que este porre não vai faltar nunca em minha vida - nem na dele.

Para o Zé Vicente, então, meu pai.

Postado em Crônicas | 17 Comentários »