Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Viveiro humano

14 de agosto de 2006, às 11:20h por Samarone Lima

Resulta que passei o final de semana em Cachoeira do Taepe, um povoado a 12 quilômetros de Surubim, que, por outro lado, fica a 127 quilômetros do Recife, no Agreste. Agreste, para quem não sabe, é uma região de Pernambuco que faz frio de noite, e a gente tem que dormir bem enrolado, é como um ar-condicionado ligado no três, bem perto de você, só que você não tem como desligar. Informo que a padroeira de Cachoeira é Santa Luzia, por conta de uma promessa, há muitos e muitos anos, tema para outra crônica, e a tradicional “Festa da Padroeira”, este ano, ocorrerá a 16 de dezembro, inclusive já confirmei presença. O time local, o glorioso Cachoeira do Taepe F.C, empatou ontem no finalzinho da partida, e está em segundo lugar na classificação geral, de um campeonato regional.

Pois bem. No sábado à noite, fomos ver uma cantoria em uma casinha escondida bem longe de tudo. De um lado, o senhor João Juvenal, de Umari. De outro, monsieur Manuel Bezerra, de Surubim. Dois violeiros “rochedo”, como diz César Maia. A casa de tijolos, sem pintura, cheia de molduras na parede, tinha a presença de Padre Cicero, uma imagem colocada em cima da TV. Quando chegamos, a cantoria já rolava alta, e consegui uma cadeira perto da dupla, para ver e escutar melhor. É o que chamamos por aqui de um “pé de parede”. Doze pessoas se acotovelavam, fora as que escutavam do lado de fora e da cozinha. Um senhor muito aprumado, de óculos ray ban, parecedíssimo com o finado poeta Patativa do Assaré, acompanhou tudo de pé, silencioso. Depois me disseram que ele conta com 96 anos, e está comemorando um namoro recente, com uma senhora bem mais jovem que ele, de 80 anos.

A peleja começou, e para você pedir um mote, é preciso colocar um dinheirinho. Seu Paulino, que me convidou para conhecer a região, foi colocando uns trocadinhos e solicitando uns versos, que não dá para viver sem poesia. O negócio começou com um “mourão perguntador”, que é um sistema de cantoria em que um cantador sai perguntando coisas para o outro. Foi pergunta até umas horas. Depois, seu Paulino pediu o mote “Foi meu pai quem me ensinou a gostar de cantoria” e os cabras mandaram ver. O negócio é muito bonito, muito cheio de sabedoria, eu fico impressionado com a ligeireza mental dos poetas do improvido.

Lá pelas tantas, os cantadores entoaram uma canção própria, era um lamento, que dizia:

“Lamento demais a minha vida/porque a pessoa que amo/não sei se gosta mais de mim”.

Depois, um trecho que dói em qualquer coração:

“Cantar não resolve o meu problema/chorando não resolvo também
Por isso não digo o teu nome para ninguém”.

Só fiquei aliviado quando, ao final da música, a mulher responde:

“Tenha calma, que meu coração é de nós dois”.

Amigos, quem não se acalmaria com uma dessas?

Teve mote sobre Bin Laden e as guerras do mundo, mortes, amores, desgostos, animais, Iracema, aquela virgem dos lábios de mel (que lascou o Martins Soares Moreira – pelo menos na cantoria), mas o mote bonito mesmo foi “Eu não troco a vaca de seu Biu por dez cavalos de Raimundo”.

Seu Biu, ao meu lado, muito sério, com um chapéu na cabeça, escutou tudo calado, mas me parece que ele gostou muito. Raimundo dava saltos de alegria.

Um apaixonado pediu o seguinte mote: “A mulher que mais amo está presente/Só não posso dizer o nome dela”.

O clima esquentou, surgiram aqueles risos contidos, todo mundo querendo saber quem era a dama, então os violeiros mandaram ver, mas como violeiro é um sujeito respeitador, o nome da criatura não foi citado, e saí do recinto com uma pulga atrás da orelha. Quem era a mulher que arrebatou o coração daquele camarada?

Os temas se referiam ao universo do Agreste de Pernambuco. O vaqueiro desprezado, o choro de Maria, as vacas, os passarinhos, marrecos, o gado comendo pasto, a saudade de algo, a gemedeira pelas dores da vida, o falar com deus, não deixe o ódio invadir seu coração, a “sua dona”, que é a mulher que toma conta do coração do sujeito, o bezerro que parece com um cabrito, a vaca que não pode com o chocalho, o papa da safadeza, o próprio Papa mesmo, o velho Tibiriçá, “eu me cobri com o lençol da natureza”, Elizabete, que oferece uma canção para o seu pai, Tinda, que hoje completa 86 anos.

Um viveiro humano, abençoado por uma noite estrelada, num lugar ermo de Pernambuco, a luz se irradiando numa linha interplanetária, como disse um dos poetas. Uma dessas viagens para regressar mastigando, ruminando, cheio de poesia no peito e no coração. Dois dias longe de tudo da cidade grande, brincando com um cãozinho conversador, o Dorli, que por sinal, caiu na água e foi resgatado por mim. Dois dias de conversa boa, uma pelada na tardinha do sábado (meu time levou uma sova de 5 x 2, mas não fiz feio), de muitas lapadas de cana boa e um mundaréu de comida, especialmente a famosa galinha de capoeira.

Quero voltar logo, muito antes da festa da padroeira. Seu Paulino está contando com minha pequena ajuda para abrirmos uma sala de leitura no lugarejo.

Conte comigo, seu Paulino, conte comigo sempre.

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Como se recuperar de traumas

10 de agosto de 2006, às 13:42h por Samarone Lima

Quando eu era pirralho, adorava o Esporte Espetacular, dia de domingo. Era o programa mais aguardado da semana, porque sempre gostei de ver os detalhes dos jogos. Até hoje tenho esta mania. Vou ao estádio, mas no outro dia, preciso confirmar tudo pela lente da TV, e descubro que muitos lances eu não vi direito, por motivos os mais diversos.

Pois bem. Meu pai chegava, na metade do programa, apertava o pitoco da TV, desligava solenemente e me mandava lavar o carro.

Sinto muito, amigos, mas eu sou da época em que não havia o que se discutir com o pai. Era estranho e inexplicável aquela maldade, mas adulto, vamos e convenhamos, é um bicho esquisito. Daqui a pouco, lá estava o mané aqui, bastante infeliz, lavando o carro, doido para arranhá-lo todinho, mas não cairia bem, o velho iria descobrir, e o trauma seria pior.

Então, desenvolvi um Método Pessoal de Recuperação de Trauma (MPRT), em fase de sistematização. Dia de domingo eu começo sempre jogando uma pelada, no glorioso escrete dos “Caducos Futebol Clube”, depois peço à Dona Fátima para fazer uma jarra de suco de maracujá e me deito na rede. Assisto ao Esporte Espetacular de cabo a rabo. A cada bloco do programa, o trauma vai passando. Diria que estou quase curado – deste trauma, claro.

Lá pelas tantas, meu pai (o velho não era fácil) inventou que eu e meu irmão, o Antônio José, tínhamos jeito para cantar. Empombou com uma música antiquíssima, que dizia:

“Teco, teco teco na bola de gude, era o meu viver…”

Amigos, que suplício. Eu cantava às duras penas, absolutamente tenso, e até hoje não me dei ao trabalho de perguntar ao Tonho se ele sentia alguma alegria. Parecíamos dois cantores caipiras, desafinados e envergonhados, cada um suando mais frio que o outro.

Me recupero do trauma de uma forma bastante simples, inclusive indico isso no meu método: hoje em dia, eu não canto nem Parabéns. Acho inclusive a invenção do Caraokê uma idéia maligna, e na minha lista de amigos do peito, desconheço algum que ouse pegar um microfone para acompanhar aquele troço.

Quando eu era pequeno (que infância, amigos!), comi um troço que saiu queimando a língua, a garganta, quase que me lasco todinho, era um negócio para usar em limpeza, fortíssimo, e pensei que fosse umas bolachinhas. Parece que era Soda Cáustica, e garanto que o negócio não é fácil de engolir.

Para me recuperar do trauma, passei a evitar ingerir venenos e produtos de limpeza em geral. Tem funcionado muito bem.

Tendo sobrevivido à infância, cheguei à fase posterior, que chamam adolescência. Um belo dia, o diretor da escola me convidou a “não continuar no colégio, no ano seguinte”, e saí do convívio com minha turma maravilhosa. Foi traumatizante ir para outro colégio, longe dos meus amigos.

Além disso, o novo colégio tinha uma feira de ciências fraquíssima. No ano anterior, minha equipe tinha devorado todos os prêmios da escola, e logo em seguida, por conta da expulsão, me vi dissecando laconicamente um sapo, tentando mostrar um sapo dissecado, o que, obviamente, me resultou em comentários os mais perversos e notas baixíssimas.

Me recuperei deste trauma evitando visitar feiras de ciências. A partir daquele momento, também decidi nunca mais dissecar sapos. Como não tive recaídas, funcionou muito bem.

Já adulto, tive uma época traumatizante. Na Casa do Estudante, todos me achavam feio pra caramba. Olhando as fotos daquele período, acho que a turma estava certa, mas o ruim foi ter levado o assunto a sério. Chamava uma moça para dançar, e vinha sempre um não.

“É essa minha feiúra crônica”, pensava, voltando para casa com as mãos nos bolsos, absolutamente desolado.

Foi muito difícil este período. Aqui vai uma sugestão: se você conhece alguém bem feio, não o chame de “feio”, que magoa bastante a pessoa, e ela fica se sentindo mais feia ainda.

O trauma só foi passando com o avançar dos anos, quando a natureza cansou de me maltratar. O excesso de cabelos também me ajudou a tapear um bocado, e tenho seguido sem alardes, um pouco mais harmônico.

Vou parar por aqui. Tem dias que eu escrevo e falo tanta besteira, que está certa Dona Fátima. Ela de vez em quando me olha bem séria, depois que falo alguma asneira tremenda, e diz:

“Samarone, tu tem certeza que é um jornalista e professor?”

Eu tomo então uma golada boa do suco de maracujá, peço para ela sair da frente da TV, para eu ver o Esporte Espetacular, e respondo:

“E apois”.

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Vivemos num estuário

9 de agosto de 2006, às 15:04h por Samarone Lima

Foi a Neusinha quem me sugeriu o nome “Estuário”, para minha coluna no site “Aponte”, em 2004, creio. Adorei o nome, e o adotei de imediato.

Só mais recentemente, depois de muitas conversas com o amigo Lira, fiquei sabendo mais detalhes sobre o tema, que passo a compartilhar com meus cativos leitores.

Estuário: zona de transição entre o mar e o rio. O estuário funciona juntamente com os mangues, como maternidades do mar.

Cerca de 60% dos organismos, inclusive peixes, vivem parte de suas vidas nos estuários, antes de ir viver no mar.

Então me veio esta definição de Lira que achei perfeita para hoje, num dia em que não consegui gerar nenhuma crônica nova, nesta maternidade da vida e da criação:

“Nós seres humanos vivemos num estuário sem água, regido por mudanças que a vida impõe. Ora somos fertlizados por ventos brandos, ora por tormentas mentais que destroçam o nosso viver”.

Entre os ventos brandos, as tormentas mentais, as maternidades do mar, da terra e do coração, a vida segue.

Acho que por hoje é só.

Para Lira, um ser humano.

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O anotador

7 de agosto de 2006, às 11:50h por Samarone Lima

Então vai me chegando este sentimento novo, que é mais simples. Quando me perguntam se sou escritor, jornalista, sempre acho que a palavra “escritor” é muito forte, e que ainda não cheguei lá, e que “jornalista” não me define por completo, porque a realidade dos fatos não é mais a minha prioridade. Cansei do “lead”, do “sub-lead” e coisas do tipo, que as escolas de Jornalismo ainda teimam em ensinar. Além disso, a realidade brasileira é tão estúpida, tão brutal, que me comove muito mais encontrar os que não aparecem como personagens principais desta realidade, como os andarilhos, os poetas, os boêmios, os jogadores de várzea dos domingos, contempladores de belezas e caçadores de veredas.

Faltava-me uma definição melhor, que desse conta do meu ofício, e ela chegou agora há pouco: descobri que sou um anotador. Anoto histórias, pensamentos, personagens. Eu vivo anotando. A idéia de sair de casa sem um pequeno bloco no bolso e uma caneta, é como sair sem documentos, e vale lembrar que já encarei um camburão da nossa querida Polícia Militar, por estar sem a identidade. Difícil fazer o policial entender que eu estava sem o documento, mas continuava gente, ou um “ser humano”, como diz o velho e bom Lira.

Sim, eu anoto coisas. Descubro que há muitos anos faço isso. A imagem de um caderno e uma caneta por perto, é antiga e fundante. São meus objetos primários, constitutivos, minha ponte com o mundo. Lembrei da 5a série, quando tínhamos um time na sala que era um verdadeiro esquadrão. Ficávamos à porta da sala, como cães sedentos, esperando o toque para o recreio. Nosso time ficou umas 25 partidas invicto, e estava lá, ainda bem garoto, o anotador. Eu anotava os lances, a escalação do nosso time, os gols, registrava tudo em um caderno somente para isso. Não sei em qual prateleira da memória este caderno foi dormir. A memória tem milhares de prateleiras, algumas somem e só reaparecem mais tarde, talvez nunca.

Foi nesta mesma 5a série, que ficamos sabendo. A mãe de nossa professora estava doente, muito doente. Me encarreguei de escrever algo para ela, em nome da turma. Daria tudo para lembrar o nome dela agora, mas a prateleira da memória da minha 5a série está meio empoeirada e distante. Sei que ela era magra, cabelos pretos e muito firme. Então, deixei um bilhetinho em cima da mesa dela, falando algo do tipo “estamos sabendo do seu sofrimento, e estamos todos torcendo por você”. Lembro que ela chegou, botou a caderneta na mesa, os livros, e viu o bilhete. Leu e começou a chorar, escondendo o rosto. Era um choro silencioso e contido, possivelmente para não assustar seus alunos. Então, pela primeira vez, falou do que estava vivendo e agradeceu à turma pelo carinho. Essa recordação me enche de alegria.

Tenho uma estante entupida de cadernos de todos os tamanhos e cores. São como minhas memórias sobressalentes. Às vezes, nesses dias em que as coisas estão atravessadas, vou reler minhas coisinhas. É possível ver o camarada que chegou ao Recife, com 18 anos, naquele distante 1987, brigado com o pai e querendo viver as coisas. Mas está lá, o caderno de 13 anos depois, o já adulto, com 31 anos, ainda inseguro diante da possibilidade de ensinar no curso de Jornalismo da Universidade Católica. Depois, tudo fluiu, até as pazes com o velho, após tantos desencontros.

Outro dia, ganhei da Fabiana, uma caixa com pequenos cadernos de capa marrom. Ela mandou de Londres e os batizei de “Murmúrios”. São cadernos para pequenas frases. Já enchi quatro cadernos, viu Fabiana?

Cada vez que vou a Fortaleza, visitar minha família, encontro papéis com anotações minhas, cartas que escrevi para meus parentes, poemas absolutamente horríveis e infantis, pedaços de lembranças que eu já nem lembrava, e que parecem ter sido lembradas por outra pessoa. Então vou fazendo um contrabando de mim mesmo, vou recolhendo minhas anotações, velhas agendas, papéis soltos, trazendo para junto. É como se estivesse recolhendo os pedaços soltos de mim, completado ausências, tentando me completar.

Anoto frases inteiras de livros. Anoto frases e diálogos de amigos. Anoto idéias, sonhos, frustrações. Anoto idéias para crônicas, anoto toda palestra que assisto, anoto reuniões, frases dos amigos, sempre foi assim. Diria que anoto a vida.

Lembrei de um encontro com uma mulher maravilhosa, em Fortaleza, uma amiga incomparável, que se apaixonou por um homem portador de HIV. Quando eles se encontravam, ela contava muitas histórias.

“Era isso que eu queria ser para aquela pessoa, a sua Sherazade, para contar muitas histórias, e que ela não morresse nunca”, disse, lembrando do livro “As mil e uma noites”.

Então anotei isso, e prometi compartilhar.

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Pequenas histórias de amor, volume II (final da Blognovela)

5 de agosto de 2006, às 20:11h por Samarone Lima


Gerrá e Alessandra: futebol e amor.

Bem, como eu vinha dizendo, Gerrá e Alessandra passaram juntos o Carnaval de 2002, e descobriram que estavam mesmo namorando, aquele negócio de andar de mãos dadas, ir ao estádio juntos, comemorar abraçados, cada gol do Santa, e só depois se lembrar dos amigos.

Gerrá, que tocava zabumba, começou a acompanhar o sanfoneiro Chiló (com “ch” mesmo). Alessandra tocava triângulo, e completou o trio. Em pouco tempo, surgiu o trio “Custo Mínimo”, e o casal começou a juntar música, futebol e paixão, uma combinação realmente muito boa para qualquer casal. E assim, o tempo foi passando, porque o tempo sempre passa. Parece que desta vez os caminhos finalmente tinham se encontrado, e o casal não iria mais pegar atalhos, certo?

Certo. No dia 13 de julho de 2006, agora há pouco, perdão pelo salto no tempo, não vou fazer uma novela de 331 capítulos, Alessandra foi fazer outro exame de rotina, a exemplo do exame que detectou um aneurisma, e foi informada que tinha, na verdade, era um filhote crescendo no útero, com mais de um mês. Os exames dela são assim, tudo com novidade pauleira. No primeiro, um aneurisma, no segundo, uma gravidez.

“Fui fazer um preventivo e descobri que tinha um menino na minha barriga”, disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Mas cá entre nós, para quem foi informada que tinha um aneurisma cerebral, receber a informação de que vai ser mamãe, é uma festa.

Novamente, o destino pregava uma peça. No dia 13 de julho de 2005, exatamente um ano antes, tinha sido fundada a Torcida Organizada Musical Sanfona Coral. A idéia era simples: cada jogo do Santa, haveria um forró nas arquibancadas. Quem tocava na Sanfona? Adivinhou, leitor sabido: Chiló, Gerrá e Alessandra. O projeto foi o maior sucesso, saiu matéria em todos os jornais, e o casal vivia momentos de felicidade. O êxtase veio com a conquista do Estadual de 2005, após um jejum de nove anos. Logo depois, o Santa subiu para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

Mas voltando ao assunto (caramba, hoje estou disperso paca), Alessandra recebeu o exame da gravidez e telefonou para Gerrá. Faltavam duas horas para o jogo Santa X Goiás, e toda a torcida estava nervosa. Aqui vai uma explicação de contexto: o Santa tinha feito uma péssima campanha antes da Copa, estava na lanterna do campeonato, com reles três pontos, e era o primeiro jogo depois da Copa do Mundo. Tinha que vencer de qualquer jeito, para sair do atoleiro. Alessandra ligou para Gerrá:

“Precisamos ter uma conversa séria. A gente se encontra no escritório do meu pai”.

Gerrá pensou: lá vem Alessandra com esse negócio de “conversa séria”. É que os dois tinham brigado no domingo anterior, e certamente haveria aquele negócio que mulher adora, que é “discutir a relação”. Ele, como bom tricolor, foi ao escritório, mas estava preocupado mesmo era com a hora. Faltavam duas horas para o começo do jogo.

Ele chegou às 19h, o jogo era às 20h30. Estava tenso. Iria concordar com tudo o que ela dissesse, para não chegarem atrasados ao estádio. Além disso, a Sanfona Coral iria tocar.

“Senta aí, que vou te falar logo”, disse ela.

Gerrá, obediente, sentou.

“Pensei que era conversa de relação. A gente tinha discutido, eu tinha certeza que ela iria querer chamar para discutir”, avaliou o malandrão.
Com o exame na mão, Alessandra começou a fazer perguntas.

“Tu gosta de mim, Gerrá? Vou precisar muito do teu apoio neste momento”.

Ele pensou: pronto, a mulher foi fazer um exame hoje, deve ter descoberto outro aneurisma, a mulher vai morrer justamente agora, que o time está na Primeira Divisão.

“Promete que vai cuidar de mim, Gerrá?”

Nosso amigo gelou. Pensou em perguntar quantos meses de vida o médico tinha dado, se não poderia fazer outra cirurgia. De qualquer maneira, se preparou para acompanha-la até os últimos dias, na saúde e na doença, como dizem no casamento, mesmo sem terem casado ainda.

Ela abriu o envelope e mostrou o exame. Gerrá olhou aquele negócio miúdo e pensou:

“Caralho, ela está com um caroço de feijão na tireóide!”

Depois de olhar o exame de tudo que é jeito, colocar contra a luz, observar palavras que não entendia, Gerrá olhou demoradamente para Alessandra e perguntou:

“Estás grávida, é?”

Alessandra, botou para chorar de soluços. Levantou a blusa e mostrou o desenho que tinha feito na barriga. Era um bebê e as palavras:

“Já sou tricolor”.

Se abraçaram, foi aquela emoção que não preciso nem descrever, mas Gerrá alertou:

“Estamos atrasados para o jogo”.

Chegaram ao Arruda em cima da hora, os amigos estavam já nas arquibancadas, o time estava em campo, Gerrá não tinha como chegar para um amigo, entre um ataque e outro do clube e dizer:

“Óia, Alessandra está gravida”.

Ficou com aquilo entalado.

O Santa terminou o primeiro tempo perdendo de 1 x 0. Gerrá e Alessandra tinham certeza de que o filhote iria dar sorte ao time. Lá pelas tantas, veio o empate. Perto do final, o gol da vitória: 2 x 1.

“O menino nasceu vitorioso”, comemorou Gerrá, à saída do estádio.

Nos jogos seguintes, o Santa enlouqueceu. Ganhou de 4 x 1 do Fortaleza, 3 x 0 do Flamengo, e 1 x 0 do Corinthians.

Gerrá e Alessandra juram que é por causa do menino. Eu concordo.

Ps. No dia 9 de setembro, eles vão casar, em Bezerros, interior de Pernambuco. Pensaram em casar na Igreja de Santa Cruz, no bairro onde nasceu o clube, e batizar o menino na piscina do clube, mas lembraram da família, e família sofre muito com esses acessos de loucura dos pais.

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