Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O menino da escada

11 de setembro de 2006, às 16:25h por Samarone Lima

Algumas pessoas mais chegadas me saíram com essa. Era uma história de que eu tinha um menino, lá em casa, ele ficava debaixo da escada espiralada que leva para o primeiro andar. Em alguns momentos, alguns dias específicos, o menino aproveitava que eu estava dormingo, subia, ligava o computador, e escrevia em meu lugar. Os melhores textos, portanto, os mais delicados, penso, seriam do tal menino, ou o Menino Tao, se for o caso.

Estou começando a achar que é verdade. Nunca o vejo direito, mas penso que ele existe. Às vezes, quando abro a porta bruscamente, sei que ele conseguiu ficar quietinho, sem respirar muito, para que eu não o veja. Entre nós, portanto, vem surgindo uma cumplicidade de presença e ausência, e já nem reclamo, quando ele escreve no meu lugar. No fundo, é bom ter alguém para escrever no lugar da gente, quando falta algo para dizer.

Talvez eu recorra ao menino quando quero escrever coisas tristes, essas coisas que chegam pelas estradas da vida, pelos atalhos, pelos remendos, pelas feridas e derrotas. Eu tenho o estranho defeito de não querer compartilhar sofrimentos, eu sofro com um egoísmo profundo. Mas há dias em que dá vontade de chorar mansamente, baixinho, sem alarde, como quem reza sozinho, humilde, em uma catedral, repleta de silêncio. Reza, mas nada pede. Há dias em que a vontade é de aceitar a comoção com certos encontros, com as marcas no rosto de algumas pessoas que passaram pelos meus olhos, o vinco na carne, na face, as tatuagens do tempo, uma fivela nos cabelos emaranhados de luz.

Alguém me disse, hoje, que todos somos anjos caídos. Então me veio uma vontade de aceitação, um desejo de reconhecer outras calçadas, de me abrigar, de permitir não só o sorriso na chegada, mas o desamparo da perpétua busca, de compartilhar livremente os murmúrios. Me ocorreu também a presença de certos acenos, olhares que me valem mais que diamantes, silêncios que me dizem mais que todos os poetas.

Ah, vejam só o que me ocorreu. Comecei a escrever, ambalado por certas nostalgias do hoje, e o menino da escada perdeu os pudores. Saiu do seu cantinho, subiu a escada e chegou perto de mim. Depois, abriu um sorriso e me pediu para escrever comigo.

Perdoem pelas poucas linhas, pela fragilidade que me ocorre, pela falta de algum farelo de pão, que ofereço com algumas palavras. Eu talvez esteja confessando minha fome, com a ajuda do tal menino.

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