Estrela da Vida Inteira e uma imensa ternura
Samarone Lima
Estou dando aulas, fazendo um levantamento com os alunos de uns livros que vamos comprar para montar nossa biblioteca, quando vejo um aluno com uma edição supimpa do Manuel Bandeira, nada mais nada menos que o Estrela da Vida Inteira, da Nova Fronteira. Dois dias antes, eu tinha feito uma pesquisa de preços numa livraria, estava lá, cravado: R$ 49,00.
Caramba, então a escola está me enrolando. Não eram jovens da periferia do Recife, com suas limitações as mais diversas?
O aluno me explicou. Foi um presente da Prefeitura.
“Isso é para comprar voto, professor”, alfinetou o outro.
Bem, se alguém nesta cidade está comprando votos com a poesia de Manuel Bandeira, vamos e convenhamos, os tempos estão mudando. Antigamente, era dez mangos ou uma cestinha básica, e estava tudo certo. Daqui a pouco, a cesta básica acabava, e tudo voltava à estaca zero. Fome é um troço que retorna sempre.
Com a poesia é diferente. Ela não tem tempo, e mata outras fomes.
No dia seguinte, vi uma notinha no jornal. Confesso: sou um tarado por notinhas de jornal. Às vezes nem leio as matérias principais. Saio vasculhando tudo, até os classificados. Nas notinhas, às vezes, está a manchete do jornal. Outro dia, descobri um sujeito que estava fazendo uma baita pesquisa, para tirar a acidez da cebola, aquele troço maravilhoso, que faz a gente chorar, quando quer chorar escondido. Quase escrevi uma carta ao jornal, pedindo para o pesquisador tirar umas férias e pesquisar sobre a velocidade média dos caramujos do Recife, que anda crescendo pacas.
Pois bem. A notinha dizia que a Prefeitura gastou R$ 171.500 para comprar os livros do Manuel Bandeira para os alunos e professores. Cada um saiu por R$ 34,30. O preço aqui nem é o principal, porque quando essa turma lá de cima quer pegar pesado, um garrafão de água mineral sai mais caro que um carro pipa. Outro dia teve um show da Sandy e Júnior, e custou, parece, R$ 400 mil. Dava um Manuel Bandeira per capita.
Mas o que vale é mesmo essa intenção da poesia, uma pequena estrela que pode iluminar o coração desses meninos, que estão começando na vida das letras. Acho que tentam compensar uma deficiência criminosa: a cidade do Recife, segundo a Folha de Pernambuco, tem duas bibliotecas municipais, para 1,5 milhão de habitantes. Depois reclamam que o povo não lê.
Na aula seguinte, mais dois alunos chegaram com seus Manueis Bandeiras da vida inteira. Eu, um lírico profissional, penso logo em telefonar para meu amigo Gustavo e dizer:
“Gustavo, os meninos por aqui andam com o Bandeira debaixo do braço”.
Mas o Gustavo, meu deus, anda trabalhando tanto, está em tantas bancas, teses, viagens, palestras, que é melhor apenas escrever aqui. Sei que ele sempre anda dando sua reparada nas minhas notas soltas.
Fui aqui pegar a minha edição, aquela coleção “Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa”. Está com a data de maio de 1998, o maio dos meus 29 anos, que nunca mais vai voltar. Abri, cheirei, lembrei daquele momento, quando morava em São Paulo com o já citado Gustavo, irmão da vida inteira e de tantas histórias, e esbarrei na página 251. Está lá, todo rabiscado, o poema “Minha grande ternura”. Ternura é uma das três palavras mais bonitas da língua portuguesa.
Perdão, mas grandes ternuras precisam ser compartilhadas.
“Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos,
Pelas pequeninas aranhas.
Pelos passarinhos mortos,
Pelas pequeninas aranhas.
Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser;
E deixaram de o ser;
Pelas mulheres que amaram
E que eu não pude amar.
E que eu não pude amar.
Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.
Pelos poemas que
Não consegui realizar.
Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldada.
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldada.
Minha grande ternura
Pelas gostas de orvalho que
São o único enfeite
De um túmulo”.
Pelas gostas de orvalho que
São o único enfeite
De um túmulo”.
Ps. Influenciado pelo clima de Pasárgada da cidade, voltei a atualizar meu blog de poesias: www.quemerospoemas.blogspot.com
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