Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Investigações paralelas numa reunião dos Alcooólatras Anônimos

31 de outubro de 2006, às 20:22h por Samarone Lima

Desde que fiz as pazes com o meu pai, as viagens a Fortaleza têm tido este tom mais fraterno. Acabou aquela saia justa do filho-rebelde-que-enfrenta-o-velho x pai-achando-que-foi-injustiçado. Da vez passada, tomamos uma cana troncha e rimos muito, num forró meia boca, daqueles em que um tiroteio é a coisa mais natural do mundo nos próximos minutos.

Nesta nova viagem, meu pai veio com essa. Encontrar o meu tio, que está frequentando os Alcoólatras Anônimos (AA). Olhem, se o meu tio está há um ano sem beber, meus amigos, o AA já pode ser tombado como patrimônio da humanidade. O camarada bebia e não era pouco, e era sempre. Fui lá para dar uma força ao meu velho tio, apesar de ele torcer pelo Flamengo, essas coisas esquisitas de família que eu, ao exemplo do Belchior, nunca entendi bem.

Chegamos lá. Não posso dizer o bairro nem o nome das pessoas porque o troço é anônimo. Meu tio estava lá. Mais envelhecido. Ao seu lado, o meu padrinho, que só vi uma vez na vida, e dizem que foi quando nasci, no longínquo 1969 (eu estava doido para escrever “longínquo”, hoje). Meu padrinho é o caçula da turma: está há reles, magérrimos, quase não-registráveis 22 dias sem beber. Vai ter que passar uma sede monstra, se quiser se garantir no AA.

Um sujeito de uns 50 anos, um negão retinto, carioca, conta sua história. Só pela cara dá para perceber que ele conhece todos os botecos do Rio e agora, de Fortaleza. O cara é cheio de gírias, malandragens e artimanhas. “Não me preocupava nem comigo”, diz. A história é longa, começa pela época de Madame Satan, que, segundo ele, virava até viatura da Polícial. Isso, pelos meus cálculos, faz um tempão. “Hoje, eu bebo é a sobriedade”, diz. Daqui a pouco, passa a bandeijinha. Vejo meu tio tomar um inocente, bucólico, pacato, quimérico chá de erva doce, e acho que milagres acontecem. Bebo um também, em solidariedade, apesar do Flamengo.

O negão falava pra chuchu. Olhei no meu caderninho, tenho quatro páginas só com ele. Mas vamos matar logo a curiosidade: está há dez anos sem provar da malvada. Segue o lema do AA, que é evitar o primeiro gole.

Depois veio um militar da reserva. Esse fez merda pra cacete, brigou, arranjou confusão com vizinho, e lembrou as ressacas monstras que passou. Todos chamam o AA de irmandade. Passou outro chazinho e bebi mais. Meu tio faltava apenas a coroazinha na cabeça, para ser um santo. O militar já estava com uns 15 anos invicto. Nem aquela cervejinha no fim-de-ano. O perigo é constante.

O outro camarada, meio fanfarrão, contou uma história deliciosa. Estava noivo, na praia com sua beldade, comendo carangueijo, e fazia questão de ir buscar o produto lá dentro, na cozinha. Uma amiga comentou:

“Poxa, esse teu noivo é tão atencioso! Ele faz questão de ir lá dentro, escolher nosso carangueijo!”

Só que era artimanha do nosso amigo. A cada viagem, tomava uma lapadinha. Quando chegou a conta, ele tinha ido ao banheiro e a noiva ficou espantada:

“Botaram 16 doses de cana a mais em nossa conta!”

Deu errado, como diz o velho sábio Naná.

A última história foi dramática mesmo. Um advogado estava no primeito dia. O cara torrou uma herança que não era pequena. Fazia as petições com a caninha do lado. Estava decidido. Começava naquele dia sua longa batalha. Veio mais um chazinho, mas o meu tio encheu o saco de chá, bebi só para constar. O clima ficou emocionante. Todos davam uma força. Somados, os três que deram depoimento representavam uns 40 anos longe do copo. Não sei como estariam se tivessem continuado. O cara que chegou me pareceu sofrido, mas disse que estava se sentindo acolhido e amparado pelo grupo. Meu tio me segredou que desde setembro está sem fumar, e comecei a achar um exagero. Pena que o Santa Cruz esteja caindo pelas tabelas, porque mais tarde joga contra o Flamengo, no Maracanã, e podia dar uma boa lapada. Ôps, o trocadilho foi infame.

A reunião terminou às 21h e sete páginas de anotações a mais no meu caderno de investigação dos fatos paralelos. Saímos, conheci mais meu padrinho, que morou um tempão na Bahia e parece ser gente boa. Pela cara, acho que ele vai aguentar somente uns 30 dias. Dei um Estuário de presente para meu tio, outro para meu pai. Meu pai tem uns 63, torce pelo Fluminense, meu tio tem uns 60, é louco pelo Flamengo, mas quem está lascado mesmo é meu Santa Cruz, com 24 pontos, e matematicamente na Segunda Divisão do ano que vem.

No caminho de volta, meu pai perguntou onde a gente poderia tomar uma cervejinha.

“Não dá, pai. Depois de uma reunião dessas, o cara não tem clima para beber”.

Terminei a noite tomando um inocente sorvetinho, com a dona Ermira e minha irmã.

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Um dia de votação em Fortaleza

30 de outubro de 2006, às 14:37h por Samarone Lima

Diretamente de Fortaleza, no Ceará.

Vim a Fortaleza com uma missão clássica: votar em Lula. Cheguei apenas com a cópia da justificativa do primeiro turno e a esperança de botar o 13 e depois o “confirma”.

As coisas, para algumas pessoas, são mais difíceis. Amanheci o domingo com os amigos no jardim, saboreando a deliciosa Ypióka, enquanto a dona Ermira, que vem a ser minha mãe, preparava um cozidão. Água no jardim, cachaças e os petistos da mamma. O sujeito vai querer mais o que da vida? Eu queria mesmo era que Lula desse uma lapada.

No final da manhã, tia Lourdes, moradora aqui da frente, foi votar no Maracanaú. É como se uma senhora de 73 anos decidisse votar no Cabo, só para não perder o voto. Fui com o Neto. Na entrada, vem um velhinho.

“São dois votos de coração: no primeiro, e no segundo turno. Deixei o rosto dele aparecer para olhar ele direitinho e dizer – é você mesmo”, me contou um velhinho. Usava um adesivo de Lula.

Tia Lourdes votou a jato. Voltamos com as bandeiras tremulando. Não sei como foi no Recife, mas Fortaleza estava toda vermelha.

À tarde, saí com o Pepo, Neto, Roncalli e meu irmão, o Tonho, para votarmos. Minha mãe já tinha votado em Lula. Com o dela, o de tia Lourdes, eu e meus amigos, Lula já começou o dia com sete votos. Depois vieram outros milhões. Minha irmã, Mônica, foi de Alkmim. Aqui, só chamavam ele de “Àlcool em mim”.

Na primeira escola, onde estava meu título de eleitor, informaram que tinham mudado a secção. Fomos para outra. Comecei a entrar em dezenas de secções, e nenhuma tinha meu nome. Fomos para outra escola. Tinha uma faixa na frente:

“Mudamos para o Círculo Operário”.

Eita, foi lá que aprendi datilografia: asd asd asd asd asd

O Pepo também lembrou da escola, e até da professora. Eu e o Pepo viramos jornalistas. Viva o curso de datilografia do Cículo Operário! A professora, creio, se chamava Miriam.

No Círculo Operário, bati todas as secções. Estava desistindo, quando o Pepo sentenciou:

“É aqui que tu vota”.

Na última sala, o milagre. Meu nome estava lá. Foram quase vinte secções percorridas por este jovem que vos fala. Apertei o 13, vi o barbudo, esperei um pouco e confirmei.

Depois andamos pela cidade e derrubamos mais dois litrinhos, no Jardim. À noite, a festa foi na Avenida da Universidade. Eram milhares de pessoas.

Antes, passamos na casa da Mirtes, mas ela estava mamadinha.

Senti falta do mano, o Paulinho, que está em Minas.

Não lembro de muita coisa da festa, nas ruas. Eu já tinha tomado umas garapas, e não sou de ferro.

Dizem por aí que o senhor Inácio França vai ser convidado para a equipe de governo.

Sabem qual o lema da Prefeitura de Fortaleza?

“Fortaleza Bela: quem ama cuida”.

Hoje estou telegráfico, mas escrever de lan house provoca isso.

Amanhã, já no Recife, botarei este blog em dia. Tem uma dezena de novas crônicas para postar, inclusive a que fala do dia em que virei frade franciscano, da ordem menor, no Agreste de Pernambuco.

Ah, a manchete do jornal O Povo, de hoje:

“É Lula de novo”.

Bem original.

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O amor do voto de Inácio e o desencontro dos brasis

25 de outubro de 2006, às 10:05h por Samarone Lima

Estava conversando ao telefone ontem á noite, com meu velho amigo Inácio França, quando o celular dele tocou. Era o chefe de gabinete da Presidência da República, o digníssimo Gilberto Carvalho. Ele pensou que era trote, claro, mas foi conferir. Disse que depois me ligava.

O Gilberto Carvalho disse que estava ligando em nome do Presidente da República, o senhor Luís Inácio Lula da Silva. É que Inácio escreveu um texto, há uns 10 dias, intitulado “O amor do meu voto”, e postou para uns cinquenta amigos. O texto virou uma coqueluche da Internet.

Na segunda-feira, dia do debate da TV Record, o texto de Inácio acabou chegando à esposa de Gilberto, que repassou para o marido e, no começo da tarde, o próprio Lula recebeu uma cópia enviada pelo chefe do seu gabinte. Estava concentrado para o debate, certamente um pouco tenso, quando começou a ler essa pequena pérola, “O amor do meu voto”.

“O presidente pediu para localizar o autor do texto, para dizê-lo que não apenas leu, mas se emocionou muito e chorou ao final”, explicou Carvalho.

Mais que isso. Após a leitura, Lula sentiu uma imensa tranqüilidade. Estava pronto para mais um combate. Podia vir a besta-fera, que ele saberia enfrentar. Não era um material preparado por assessores, era um texto relativamente curto, produzido por uma pessoa que o presidente nunca vira.

“Ele pediu também o seu endereço, para mandar uma correspondência”.

Inácio só fazia dizer “porra”, “caralho”, até que lembrou do velho amigo Laércio Portela, também jornalista, ex-assessor de imprensa de Humberto Costa, que mora em Brasília está trabalhando lá no Planalto.

“Isso é gréia de Laércio, não é?”, perguntou Inácio.

Gilberto conhece Laércio. Jurou que não era nada de brincadeira, que Laércio não estava ao lado, dando risadinhas. Falava em nome do presidente. Repetiu a história. O texto está em tudo que é email, tem circulado muito pela Internte, acabou chegando ao presidente, e calou fundo.

“Teu texto foi a última leitura que ele fez antes do debate. Ele ficou tranquilo. Estava pronto”, repetiu Gilberto.

Então a ficha de Inácio caiu. O pequeno texto enviado sem pretensão, para um grupo de amigos, acabou sendo a base sólida para Lula caminhar tranqüilo, no último debate.

Inácio me disse há pouco que já foi duas vezes à portaria do seu prédio, somente hoje, para ver se chegou a carta do presidente. Até a chegada da missiva, ele prometeu que vai repetir a pergunta:

“Meu querido, por acaso chegou uma cartinha do Lula para mim?”

Faltando quatro dias para o segundo turno, reproduzo o texto na íntegra, porque o amor do voto de Inácio é o mesmo amor do meu voto.

Samarone Lima, cronista recifense, declaradamente de esquerda, vai viajar domingo para Fortaleza, no Ceará, para votar em Lula.

**

O amor do meu voto

por Inácio França

Para se chegar a Olivedos de carro é preciso entrar à direita numa estrada de terra, 30 minutos depois de Campina Grande. Pouco mais de 3.300 pessoas vivem no município, a maioria em modestas casas construídas ao redor da pequena igreja matriz, pintada de amarelo. A caatinga que marca a paisagem dos Cariris Velhos, agreste paraibano, começa já no quintal das casas.

Numa viagem profissional às vésperas do feriado, passei algumas horas na cidade, tempo suficiente para cumprir a tarefa de acompanhar uma avaliação da gestão das políticas sociais do município. Tempo suficiente para as explicações racionais e ideológicas, que justificaram meu voto em Lula no primeiro turno, perdessem sentido.

Em Olivedos, pressenti que meu voto em Lula no segundo turno será um momento de intensa emoção. Um voto carregado de orgulho, um voto com amor.

Isso tudo porque cheguei cedo à cidade, uma hora antes do previsto. Aproveitei, então para perambular pela cidade e conversar com algumas pessoas que participariam da reunião. Logo me chamou a atenção o movimento diante de uma casinha pintada de verde, na verdade, uma espécie de garagem, com apenas um cômodo. Em fila diante da garagem, alguns homens simples, ao lado de jumentos que carregavam nas laterais aquelas enormes garrafas de alumínio para transportar leite. Dentro do imóvel, um enorme tanque, da altura de um homem adulto, com uns aparelhos modernos e um painel digital, algo improvável numa casinha simples, cercada de mandacarus, xique-xique, juremas e algarobas.

Uma senhora, que se apresentou como presidente da “associação”, explicou que aquele tanque era refrigerado, garantia a conservação do leite até meio-dia, quando um caminhão de uma empresa levava o alimento para a fábrica, em João Pessoa. Com a venda do leite, cada um dos pequenos criadores, donos de minúsculos lotes de terra e três ou quatro vacas, fatura até R$ 550,00 por mês. Até o ano passado, a principal fonte de renda dessas pessoas era o dinheiro da aposentadoria, um salário-mínimo, recebido geralmente pela pessoa mais velha da família.

Antes, esses criadores só tinham uma saída: percorrer a cidade em seus jumentos, vendendo diretamente para os moradores da cidade por R$ 0,30 cada litro. Às 10h, por causa do calor, o leite começava a estragar. O desperdício era grande. Hoje, a empresa paga R$ 0,70 por litro, dos quais R$ 0,05 fica na associação para pagamento dos impostos e do salário do rapaz que recebe o leite e faz os exames para controlar a pureza do alimento, antes de colocá-lo no tanque refrigerado.

O tanque foi comprado com recursos do micro-crédito de um programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário. O rapaz aprendeu a testar a pureza do leite num curso na capital, pago com recursos federais.

Na mesma rua da garagem onde funciona a cooperativa de leite, está a Escola de Ensino Fundamental Monsenhor Stanislaw. Orgulhosa, uma funcionária da prefeitura me leva para conhecer as obras do auditório da escola, que está sendo construído no lugar de um galpão cujo teto já ameaçava os alunos. A obra também parece improvável naquela cidade: o auditório terá capacidade para 300 pessoas, 10% da população da cidade, e está sendo construído em forma de anfiteatro, com poltronas confortáveis que já chegaram e estão guardadas, prontas para serem instaladas. “Quando o auditório, ficar pronto os meninos da banda de Pífanos e do coral vão ter onde se apresentar”, antecipa a funcionária.

Perguntei de onde veio o dinheiro, a senhora se espantou, respondendo quase indignada com tamanha ignorância: “do Ministério da Educação”.

Mais adiante, buracos abertos no calçamento de paralelepípedos, na área em torno do colégio. A funcionária, grávida de oito meses, informou que aquelas eram obras do saneamento e da rede de esgotos. Segundo ela, até o final de 2007, Olivedos estará 100% saneada. Antes que eu fizesse mais outra pergunta besta, ela foi logo dizendo que o dinheiro veio do Ministério das Cidades.

À tarde, depois da avaliação, se desculparam porque eu não poderia conhecer o prefeito. “Josa (esse é o apelido do prefeito Josimar) foi em João Pessoa assinar um convênio para conseguir mais cisternas e banheiros pro pessoal da zona rural”. O convênio foi assinado na Fundação Nacional de Saúde., que já custeou a construção de dezenas de outras cisternas e banheiros que funcionam com água da chuva, captada por calhas, assim como as cisternas.

A caminho do Recife – onde vivo a mercê do noticiário da TV e da ótica de amigos que recebem salários razoáveis, vivem em apartamentos como o meu, com banheiros confortáveis, em ruas asfaltadas de classe média e filhos estudando em imensos colégios particulares – avaliei o quanto esses Brasis não se relacionam, não se conhecem. Compreendi o tamanho do abismo que nos separa e quanto está sendo feito para reduzir essa distância.

E entendi os motivos do ódio e da mobilização daqueles que sempre tiveram livre acesso aos recursos que correm nas veias do Governo Federal. Mais do que saber a origem do dinheiro, o que as elites brasileiras querem mesmo é mudar o destino do dinheiro, Afinal, para assegurar crédito para latifundiários e empresários (que nunca pagam o que conseguem nos bancos públicos), é necessário deixar de lado a construção de mais cisternas, novos auditórios em escolas sem estrutura, rede de esgotos e a ajuda para cooperativas de leite.

Mas, finalmente, compreendi porque os moradores de Olivedos se referem ao presidente da República como alguém da família. Luís Inácio Lula da Silva, para os olivedenses, é o “nosso Lula”. O Governo Federal está tão perto que o presidente é íntimo de todos eles.

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Perambulações pelo Agreste – parte II (a missão)

24 de outubro de 2006, às 14:16h por Samarone Lima

Camocim de São Félix, Agreste de Pernambuco.

Sim, mas como eu vinha contando, minha expedição das forças desocupadas precisava de novas fronteiras. Depois de vasculhar São Joaquim do Monte e cheirar o túmulo de Frei Damião, era o momento de conhecer Bonito, ali na região, porque dizem que a cidade é bonita pacas. Botei meu tênis, catei a bolsa bolsa, o canivete, uma garrafa d´água e uma discretíssima maçã. Faltou-me uma bússola, para ficar igualzinho ao cinema, mas eu não me oriento nem com bússola.

No centro de Camocim de São Félix, sou informado que o ônibus acabou de sair. Não desanimo. O negócio é ir caminhando mesmo. Pocot, pocot, pocot, lá vou eu.

Daqui a pouco, à saída da cidade, passa a singela, bucólica e inenarrável figura de uma Belina, de ano incerto e não-sabido. Alguns de vocês, os mais velhos, devem saber do que falo.

“Vai para Bonito”, me pergunta o motorista.

“É carona ou é frete?”, pergunto.

“É só dois e cinqüenta”, me responde o rapaz.

Entro na Belina. Falta pouco para ela se desmanchar, de tão remendada. Vou na frente, e como tenho as pernas meio grandes, sempre fasto a cadeira para trás, puxando aquela alavanda. Temendo arrancar a cadeira do lugar, fico na minha. Daqui a poucos metros, mais três passageiros. Um com cara de agricultor, um com cara de contrabandista e uma senhora, com cara incerta, e um pandeiro imenso. A Belina gemeu, com tanto peso e o motorista sentou o pé.

Amigos, o povo no Agreste gosta de uma carreirazinha, visse? Daqui a pouco, a Belina voava rasante, e tive saudades da motoca do dia anterior (veja crônica passada). Como sou de puxar assunto, comentei o verdinho das plantações. O motorista informou, solene:

“Sabia que aí tem vinte e cinco mil pés de tomate?”

Sabia não, inclusive fiquei impressionadíssimo.

“E é tudo do mesmo dono”.

Eu quero é novidade, meu camarada.

Cheguei vivo a Bonito, para uma perambulação pela cidade. Fui por ali, voltei, cheguei a uma Igreja, lá no topo, tinha o busto de alguém. Fui lá, ver quem era. Acho que era o Barão de Bonito, creio, mas estava escrito somente “Priscila”, onde tinha a placa, outrora. Francamente, Priscila, francamente..

Ao lado da igreja, uma bela, mimosa, decente e bucólica casa azul, com aqueles pés de laranja ao redor, sombra para tudo que é lado, e a placa: “vende-se esta casa”.

Imediatamente, me deu vontade de morar em Bonito. Bati palmas até cair o couro das mãos, mas nem um reles vira-lata apareceu. Não deixaram telefone, de sorte que não fechei o negócio, e continuarei morando, até ordem contrária, no Poço da Panela.

Desci, andei para um lado, para o outro, até que me veio aquele desejo antigo de ir à cidade vizinha, “Alto Bonito”, porque dizem que tem o rio Prata, a barragem, o povo tomando banho, e estou com meu calção de banho azul-desbotado por baixo, para o caso de aparecer algum açude ou barragem. Vou matar saudades dos banhos de açude da infância. Vou andando de novo. Pocot, pocot, pocot.

Lá pelo quilômetro três ou quatro, me dá um cansaço físico e espiritual. Paro à beira da estrada, como a maçã olhando a paisagem, bebo uns golinhos d´água e fico pensando na casinha, ao lado da igreja. Puxa vida, morar numa cidadezinha do interior, a duas horas do Recife, com cachorro fazendo festa na hora de passear e clima de montanha ao anoitecer! Ali sim, eu iria escrever umas crônicas supimpa. Melhor que isso, morar numa cidade chamada Bonito!

Fico pensando na minha burrice. Deveria ter perguntado a algum vizinho quanto custa a casa, para demonstrar o interesse, dar um sinal, algo assim. Vem aquele sentimento de ter perdido uma oportunidade de ouro.

Mas dá um vento contrário e caio na real. O sujeito só compra uma casa com dinheiro, e não estou com essa bola toda.

Volto para Bonito. No caminho, passo por um pequeno açude, estão três meninos brincando, pulando, jogando água um no outro. Vejo claramente Paulo, Antônio José e Samarone, muitos anos atrás, e me dá uma saudade imensa dos meus irmãos.

Chego vivo à rodoviária de Bonito e espero um ônibus para Camocim. Fico tomando suco de maracujá com canudinho, o melhor suco que existe no globo terrestre, olhando as pessoas na rodoviária. Anotei um monte de diálogos, mas o caderninho não está aqui, fica pelo menos o registro – anotei vários diálogos na rodoviária de Bonito.

Uma moça bonita, com aquele rosto forte de gente do interior, as pernas fortes, de galinha de capoeira, chega perto do namorado e comenta:

“Mas é parado aqui, né? Sou mais o Recife mesmo”.

O rapaz faz que sim com a cabeça. Não sei se o sim é sim ou se ele gosta mais dali mesmo, com aquele ventinho suave lambendo seus cabelos.

Volto para o convento mais cansado que no dia anterior. A moça me pergunta para onde fui.

“Para Bonito”.

“A pé?”

“Sim, a pé mesmo?”

Ela fica horrorizada.

“É que já fui maratonista, então tenho resistência”, digo.

“Vinte quilômetros para mim, é como ir ali na esquina”. Aí eu já estou mentindo de com força.

Em seguida, quase não consigo subir as escadas.

Terei que contar, mais tarde, do meu encontro no convento com as velhinhas de uma excursão, e de como me transformei em um frade franciscano num piscar de olhos, com viagens missionárias as mais emocionantes, para várias partes do Brasil e África.

Mas isso fica para amanhã, para criar um suspensezinho, que ninguém é de ferro…

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Perambulações pelo Agreste – I

23 de outubro de 2006, às 11:24h por Samarone Lima

Camocim de São Félix, Pernambuco.

Chego ao Convento das Carmelitas, aqui em Camocim, depois de viajar pela Borborema, saindo do TIP, que por sinal, anda meio derrubado. Ao lado, viajou uma freira, mas não me deu muita bola, e acho inclusive que ela era de outra ordem.

Vou chegando a alguma cidade, pergunto ao camarada da frente se ele sabe onde fica o convento. Ele informa que o ônibus vai parar mesmo na frente, e que me avisa. Cinco minutos depois, digo aquele “e então”, e ele me responde com um “esqueci não, visse?”. Pergunto se faz frio à noite. “É clima de montanha”, informa, e lembro que esqueci meu cachecol e minhas mantas.

À entrada da cidade, veo que meu amigo está certo. “Bem vindo a Camocim de São Félix. Clima de montanha. Altitude: 723 metros”. Eu, que tenho um medo ancestral de altura, já começo a ter vertigens. A cidade foi fundada em 1954, mas fizeram uma covardia com o fundador: sequer o nome completo dele colocaram na placa.

Chego ao convento. Um silêncio santificado no imenso espaço. Ganho um quarto confortável, com duas camas, uma mesinha e banheiro. Ao contrário de muitos conventos espalhados pelo mundo, este tem chuveiro elétrico com água forte e quente. Leio o aviso detrás da porta. Não pode fumar nem dentro nem fora do lugar. Como só tenho fumado ultimamente nos jogos do Santa Cruz, não terei problema.

Feito o reconhecimento do terreno, hora da primeira expedição. Vou ao centro, vejo a igreja, a praça, a prefeitura, as pessoas simples, e à saída da cidade, esbarro na imensa placa:

“São Joaquim do Monte – Santuário de Frei Damião”.

Embico rumo a São Joaquim imediatamente. É uma caminhada longa, pela beira da pista, mas como sou bom no galope manso, vou seguindo, debaixo de um sol cortante. Os carros passam por mim tinindo. É cada fino do caralho. Duas horas depois, chego à cidade. A língua está por ali e os pés doem. Vou olhar qual é o problema: comprei um tênis 43, quando calço 44. Essas minhas distrações me lascam.

Olho a paisagem de São Joaquim do Monte. Farmácia Frei Damião, Mercadinho Frei Damião, Açougue Frei Damião, Foto Frei Damião, Lanchonete Frei Damião, Bomboniére Frei Damião, e por ai vai. Paro e peço uma água de côco. A senhora que me atende é de uma simpatia brutal. Olho na parede uma moldura de Miguel Arraes, com um baita sorrisão. Pergunto quem vai ganhar as eleições por aqui.

“É Lula lá e Dudu aqui”.

Dudu vem a ser o senhor Eduardo Campos, candidato ao Governo. São as tais intimidades eleitorais.

Depois da água, tomo um café. O café é de grátis, e consegue ser mais doce que o de Seu Vital. Ela me informa que o prefeito da cidade também está com Lula.

O Santuário de Frei Damião está a um quilômetro. Vou me arrastando, com os pés doendo. Agora, na verdade, já estou até chateado com o Frei. Descubro que caminhei dez quilômetros com um sapato apertado. Vou devagar, reparando as propagandas políticas. Em toda esquina, tem uma foto de Inocêncio Oliveira. Depois de dez minutos, é impossível não decorar o número dele: 2233. Se a eleição fosse hoje, acho que eu erraria o meu voto para Deputado Federal, e o Paulo Rubem perderia meu singelo voto. Entraria na cabine, e marcaria o 2233 sem nem perceber. É o tal voto por osmose.

Estou a 500 metros do Santuário, cansado, com fome, os pés mastigados, então me vem uma pergunta: Mas que diabo de tanto esforço é esse, para ver o Santuário do Frei Damião?

Logo me vem aquela preguiça fundamental e descubro que nunca tive essas simpatias todas pelo velho frei (que ninguém na cidade perceba). Sou mais o Padim Ciço Mesmo, depois do amadíssimo São Francisco, Gustavo não me deixa mentir. Dou meia volta, esbarro na milésima propaganda de Inocêncio e paro em uma pracinha, para tomar minhas notas aleatórias.

Passo de novo na lanchonete, peço outro côco.

“Mas já visse o Santuário?”, pergunta.

“Era só para rezar uma oraçãozinha e agradecer pelas coisas boas que têm acontecido”, respondo.

De novo, café de graça.

Olho a paisagem e me vem aquele cansaço da metade da tarde. O sol ainda está rasgando. Inocêncio fica rindo para mim, e penso em como voltar para casa. Olho ao norte e vejo uma tuia de motoqueiros. São os famosos Moto-Táxi. A viagem de volta sai por R$ 7,00. Contrato o serviço, mas como o capacete não entra em minha cabeça, vou com o vento no focinho.

O motoqueiro tem um plano secreto de se suicidar comigo. Estamos voando pela pista, e de vez em quando ele se vira, para comentar alguma coisa. Olha pra frente, infeliz, penso em dizer. Se a moto virar, eu viro uma papa.

Chego ao mosteiro vivo, suado, cansado com número de Inocêncio na cabeça: 2233. Penso em ligar para Seu Vital, para ele jogar no bicho, mas preciso me desapegar do Poço, pelo menos por uns três dias.

Mais tarde, antes de dormir, coloco mais uma postagem. Descobri uma lan house com dez computadores, mas está invariavelmente entupida. A moçada do Agreste também adora um Orkut, então fico na linha de espera.

Ps. desculpem eventuais erros, escrevi na tora, porque o troço aqui cai direto.

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