Investigações paralelas numa reunião dos Alcooólatras Anônimos
Samarone Lima
Desde que fiz as pazes com o meu pai, as viagens a Fortaleza têm tido este tom mais fraterno. Acabou aquela saia justa do filho-rebelde-que-enfrenta-o-velho x pai-achando-que-foi-injustiçado. Da vez passada, tomamos uma cana troncha e rimos muito, num forró meia boca, daqueles em que um tiroteio é a coisa mais natural do mundo nos próximos minutos.
Nesta nova viagem, meu pai veio com essa. Encontrar o meu tio, que está frequentando os Alcoólatras Anônimos (AA). Olhem, se o meu tio está há um ano sem beber, meus amigos, o AA já pode ser tombado como patrimônio da humanidade. O camarada bebia e não era pouco, e era sempre. Fui lá para dar uma força ao meu velho tio, apesar de ele torcer pelo Flamengo, essas coisas esquisitas de família que eu, ao exemplo do Belchior, nunca entendi bem.
Chegamos lá. Não posso dizer o bairro nem o nome das pessoas porque o troço é anônimo. Meu tio estava lá. Mais envelhecido. Ao seu lado, o meu padrinho, que só vi uma vez na vida, e dizem que foi quando nasci, no longínquo 1969 (eu estava doido para escrever “longínquo”, hoje). Meu padrinho é o caçula da turma: está há reles, magérrimos, quase não-registráveis 22 dias sem beber. Vai ter que passar uma sede monstra, se quiser se garantir no AA.
Um sujeito de uns 50 anos, um negão retinto, carioca, conta sua história. Só pela cara dá para perceber que ele conhece todos os botecos do Rio e agora, de Fortaleza. O cara é cheio de gírias, malandragens e artimanhas. “Não me preocupava nem comigo”, diz. A história é longa, começa pela época de Madame Satan, que, segundo ele, virava até viatura da Polícial. Isso, pelos meus cálculos, faz um tempão. “Hoje, eu bebo é a sobriedade”, diz. Daqui a pouco, passa a bandeijinha. Vejo meu tio tomar um inocente, bucólico, pacato, quimérico chá de erva doce, e acho que milagres acontecem. Bebo um também, em solidariedade, apesar do Flamengo.
O negão falava pra chuchu. Olhei no meu caderninho, tenho quatro páginas só com ele. Mas vamos matar logo a curiosidade: está há dez anos sem provar da malvada. Segue o lema do AA, que é evitar o primeiro gole.
Depois veio um militar da reserva. Esse fez merda pra cacete, brigou, arranjou confusão com vizinho, e lembrou as ressacas monstras que passou. Todos chamam o AA de irmandade. Passou outro chazinho e bebi mais. Meu tio faltava apenas a coroazinha na cabeça, para ser um santo. O militar já estava com uns 15 anos invicto. Nem aquela cervejinha no fim-de-ano. O perigo é constante.
O outro camarada, meio fanfarrão, contou uma história deliciosa. Estava noivo, na praia com sua beldade, comendo carangueijo, e fazia questão de ir buscar o produto lá dentro, na cozinha. Uma amiga comentou:
“Poxa, esse teu noivo é tão atencioso! Ele faz questão de ir lá dentro, escolher nosso carangueijo!”
Só que era artimanha do nosso amigo. A cada viagem, tomava uma lapadinha. Quando chegou a conta, ele tinha ido ao banheiro e a noiva ficou espantada:
“Botaram 16 doses de cana a mais em nossa conta!”
Deu errado, como diz o velho sábio Naná.
A última história foi dramática mesmo. Um advogado estava no primeito dia. O cara torrou uma herança que não era pequena. Fazia as petições com a caninha do lado. Estava decidido. Começava naquele dia sua longa batalha. Veio mais um chazinho, mas o meu tio encheu o saco de chá, bebi só para constar. O clima ficou emocionante. Todos davam uma força. Somados, os três que deram depoimento representavam uns 40 anos longe do copo. Não sei como estariam se tivessem continuado. O cara que chegou me pareceu sofrido, mas disse que estava se sentindo acolhido e amparado pelo grupo. Meu tio me segredou que desde setembro está sem fumar, e comecei a achar um exagero. Pena que o Santa Cruz esteja caindo pelas tabelas, porque mais tarde joga contra o Flamengo, no Maracanã, e podia dar uma boa lapada. Ôps, o trocadilho foi infame.
A reunião terminou às 21h e sete páginas de anotações a mais no meu caderno de investigação dos fatos paralelos. Saímos, conheci mais meu padrinho, que morou um tempão na Bahia e parece ser gente boa. Pela cara, acho que ele vai aguentar somente uns 30 dias. Dei um Estuário de presente para meu tio, outro para meu pai. Meu pai tem uns 63, torce pelo Fluminense, meu tio tem uns 60, é louco pelo Flamengo, mas quem está lascado mesmo é meu Santa Cruz, com 24 pontos, e matematicamente na Segunda Divisão do ano que vem.
No caminho de volta, meu pai perguntou onde a gente poderia tomar uma cervejinha.
“Não dá, pai. Depois de uma reunião dessas, o cara não tem clima para beber”.
Terminei a noite tomando um inocente sorvetinho, com a dona Ermira e minha irmã.
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