De peito aberto para a vida
Samarone Lima
Ano passado, escrevi uma crônica intitulada “Para uma amiga com câncer”. Era a história de uma vizinha, a professora Lucidélia, ou “Lucinha”, que descobriu o tal câncer no seio, e nos deixou apreensivos. Essa palavra câncer é muito, mas muito feia.
Depois da cirurgia, da primeira quimioterapia, ela ficou um bagaço. Os cabelos caíram, se alimentar era difícil, até que ela não teve mais ânimo (ou força) para cuidar de algo que adorava – seu jardim. Antes de sair para mais uma sessão, já muito baqueada, ela me deixou um bilhete:
“Samarone, não deixe minhas plantas morrerem. Conto com você. Te adora, Lucinha”.
Para mim, é o grau máximo da fragilidade: não ter forças sequer para cuidar de flores.
Cuidei de seu jardim sim, enquanto ele ficou na casa da irmã. O tempo passou, ela fez as quimio, as radioterapias da vida, aquela coisa brutal com o corpo, mas fez sua travessia.
Pois vocês não acreditam: a desgraçada está toda toda, boazinha. Os cabelos cresceram, o jardim nunca ficou manco, o tempo e a ciência dos homens foram curando a nossa professora. Está jogando um dominó de primeira e voltou a passar o jogo do bicho. Continua me chamando de Gambá, toda vez que me encontra, a pilantra.
Outro dia ela chegou lá em casa, com uma flor linda, e plantou no meu quintal. Não disse nada, foi só o gesto mesmo. Gestos falam muito.
Há algumas semanas, recebi a notícia de que uma grande amiga, mãe de um grande amigo, recebeu o mesmo diagnóstico. Primeiro, veio o baque, porque a palavra câncer, minha nossa senhora, é como um soco no queixo, acompanhado da contagem. Mas a contagem, neste caso, não é de um até dez, como no box: é de um até dois.
A minha amiga começou a sua travessia. Já fez a cirurgia, e tudo correu bem. Meu amigo ganhou até um apelido: Cagacinho. O cara tremeu na base mesmo.
Daqui a pouco vai começar o tratamento, a mesma peregrinação de Lucinha: quimioterapia, radioterapia etc. Aviso que vai ser pancada, mas basta ver isso tudo como uma travessia. Não sei se minha amiga tem plantas, mas se tiver já me ofereço para tomar conta. Entendo de poucas coisas na vida, mas de jardim eu entendo.
Depois da cirurgia, ela mandou um email para alguns amigos, falando de tudo o que está vivendo. Fiquei emocionado ao ver tanto amor à vida, tanta raça, junto com tanta delicadeza. Compartilho um pedacinho com vocês, porque certas coisas, depois de escritas, não pertencem mais a ninguém, são de um acervo da humanidade. Ela mesma é uma humanidade:
“Pensei muito nesses dias (falei pouco, como se isso fosse possível algum dia), vi e revi vários filmes, curtas, longas, tragédias, comédias, dramas e muito desenho animado, toda a minha trajetória.
Revi a minha maravilhosa infância, a minha revolucionária juventude. Lembrei das minhas ilusões, das minhas realizações e dos meus fracassos. E durante todo esse caminho nunca estive só. Lembrei das festas, na minha casa cheia a cada aniversário, a cada final de ano.
Lembrei do nascimento de cada filho, da maternidade lotada de flores e gente (naquele tempo, se permitia nos hospitais a gente receber afeto com flores), da morte da minha mãe, da minha casa na Torre, apinhada de pessoas. Dos meus trabalhos onde escolhi os melhores em cada canto, para partilhar o afeto, a amizade.
Hoje, agora, agorinha mesmo, vejo que sempre fui feliz e sabia.
Vamos em frente, vamos atravessar o caminho que resta. Que venham as “Quimios”, as “Radios”, a mama nova (o peito continua, este jamais será amputado), de seda, de plástico, da barriga, da bunda, seja lá do que for.
Eu estou aqui para recebê-los, para fazer uma festa com a casa lotada, a cada etapa, a cada gol.
Amo vocês de verdade, tenho vocês de verdade, o resto a gente traça”.
Ah, o ser humano, que maravilha é o ser humano…
Para Naire Valadares, guerreira da vida.
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