Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O homem dos olhos azuis, (ou A partilha das intensidades)

8 de outubro de 2006, às 20:35h por Samarone Lima

Ela trabalha como voluntária em um hospital que atende portadores do HIV e já me contou muitas histórias de amor, perdas, reencontros, frustrações, dores. Ontem, ela me ligou de Fortaleza, e conversamos longamente. Foi então que me contou a história do homem de olhos azuis.

Ele chegou ao hospital inconsciente. Era já um senhor de uns 70 anos, forte, aprumado, aqueles homens do interior, acostumados às lidas com a terra. Ficou em uma enfermaria sozinho, e naquela solidão, iria caminhar para os últimos dias.

Então, a minha amiga chegou para o seu plantão e ficou sabendo dele. Foi visitá-lo. Como faz habitualmente, se aproximou com aquela delicadeza das pessoas que convivem com a dor e começou a conversar com aquele homem. Não lembro agora o nome dele. Ela, a minha amiga, se chama Mirtes. É um tipo de gente que faz o mundo ser mais bonito, mais intenso, mais mundo.

Cada plantão, Mirtes visitava o senhor inconsciente, mergulhado em sua penumbra. Ela sequer sabia a cor dos seus olhos. Chegava mansamente e falava as coisas que sua intuição mandava, mesmo sabendo que não teria resposta. Dizia para ele não ter medo, que não estava sozinho, que tinha gente cuidando, que ficasse tranqüilo. Mais que falar, ela tocava em suas mãos, passava a mão no rosto. Acho isso uma reverência.

Até que um dia, Mirtes tomou um susto. Logo que chegou ao hospital, uma enfermeira a procurou.

“Ele voltou!”

Sim, depois de várias semanas naquela solidão da enfermaria, na solidão do próprio corpo, o homem despertara. Mirtes foi ao seu encontro. Olhou para aquele senhor e viu um par de olhos imensamente azuis, um azul que nenhuma literatura poderia definir. Azul-esquecimento, azul-saudade, azul-ternura, azulíssimos olhos de um senhor idoso, agora brilhando.

Emocionada, ela tocou em suas mãos e começou a falar:

“Amigo, que bom que você reagiu…”

“Eu reconheço essa voz. Era a pessoa que conversava comigo”, respondeu ele.

Ela confirmou. Sim, estivera várias vezes com ele. Conversaram longamente. Ele disse que só tinha medo de uma coisa. Era quando uma voz metálica chamava algum médico ou enfermeira, pelo auto-falante do hospital.

“Eu achava que a voz iria chamar meu nome, me chamando para o inferno”.

Riram um bocado. Ele repetiu várias vezes que reconhecia muito bem a sua voz, era a mulher que sempre falava com ele. A Mirtes contemplou aqueles olhos azuis sereníssimos com a felicidade dos extremos. Deve ter juntado os cacos das tantas perdas dos últimos meses, os olhares que fecham e não voltam a brilhar para o luminoso da vida.

Um belo dia, o senhor voltou para sua cidade, no interior do Ceará, e nunca mais se viram.

Mirtes me contou essa história ontem, ao telefone. Não sei o que há, mas ultimamente tenho escutado histórias assim, intensas.

Faço aqui a partilha das intensidades.

Para Mirtes Machado, que não lê coisas na Internet, mas lê a alma de tantas criaturas…

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