Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Somente mais um feriado

13 de outubro de 2006, às 16:28h por Samarone Lima

Não sei de onde saem essas minhas idéias. Quinta-feira, feriadão de Nossa Senhora, estou no Cabo de Santo Agostinho, um sol de rachar o cano, todo mundo está na praia. O que o pateta aqui resolve fazer, depois do almoço? Ir à livraria Siciliano, no Shopping Guararapes. Motivo: a lenda de que a citada livraria estaria com um queima generoso - 50% de desconto em todos os livros.

O Shopping é longe pra chuchu. O fato é que às 14h33 estava lá, cutucando as prateleiras. Amigos, informo que a promoção é uma balela: muito livro ruim. A muito custo, depois de horas de pesquisa, consegui comprar os dois volumes de “As mil e uma noites”, que saíram por R$ 104,00. Com a promoção, as belezocas foram adquiridas por R$ 52,00.

Sobre o shopping, nada a declarar. A turma não tem do que reclamar do Lula, porque havia engarrafamento de gente. Acho que o mais liso ali era eu.

Saio caminhando pacificamente, com meu passo de camundongo, em direção à parada, e descubro que sou o homem errado na hora infame. São 16h22 e a praia inteira de Piedade está indo embora. Milhares de pernambucanos, à espera de um coletivo. Milhares bêbados e queimados do sol, por sinal.

Estou ali, de cara, no meio da confusão. É gente dando tapa em gente, para entrar no coletivo. Só há uma solução. Ir à praia, tomar uma cerveja, enquanto espero a massa partir.

Vejamos a cena. Sento na cadeirinha, o sol começa a morrer. Estou de calça jeans, com “As mil e uma noites” na bolsa. Tiro o livro, dou aquela lambida, cheiro, vejo as primeiras páginas.

O brega come solto. Há vários bêbados remanescentes, aqueles que esqueceram de ir para casa. Passa um menino com sua pipa. À minha esquerda, tremulando, uma bandeira esfarrapada do Palmeiras. Mas que diabos uma bandeira do Palmeiras faz aqui, em Piedade, em pleno feriado de Nossa Senhora? Onde estão as bandeiras do Santa Cruz?

“Caldeirada! Caldeirada!”, grita um vendedor de caldeirada. Ninguém liga. Isso lá é hora de vender caldeirada!

Registro a presença de várias gordinhas charmosas, essas que não estão nem aí para academias, e curtem tudo. Uma criança mama uma Coca-Cola imensa e penso no arroto, a mais tarde. À minha frente, quatro camaradas derrubam mais um litro de Rum Montilla. Passa um vendedor de pulseiras. O camarada está mamadinho mamadinho. Ele pára, olha para mim, estende a mão.

“Barbudo… ô barbudo…”

Sinto que é comigo.

“É Lula ou não é?”

E eu lá sou homem de votar em tucano?

“Lógico. É Lula-la”.

Apertos de mão os mais diversos. Ele comenta:

“Do caralho, do caralho”.

Sai tropicando. Mais à frente, derruba um dos colares, pega, assopra, pendura na mão esquerda e segue.

Já estou com uma cervejinha. Olho o ambiente. A praia é de gente simples. Não tem aquelas bonitonas e gostosonas de Boa Viagem. Uma gordinha requebra muito, ao som de um brega. Está vermelhíssima, torrada pelo sol do feriado. Quer é curtir a praia, o sol, a cerveja, os amigos. Regime e academia o cassete.

Passa um casal por mim. Ele tem os cabelos pintados de loiro, é horrivel Está mamadinho da sila. Ela o arrasta.

“Vamos, Noé, já bebesse demais”.

Um Noé em pleno feriado. Cadê a arca, meu querido?

Ali, a uns vinte metros de mim, um homem bebe sozinho. Usa um boné para trás, tem um saco de amendoim na mesa. Que solidão, amigos, que solidão.

O brega come solto.

“Não me mande embora/Não sou seu amante/Você vai por mim/Por bem ou por mal/Eu pego suas coisas e quebro no pau”.

Eita poesia…

“Por isso eu quero e tenho direito de ter você/Um homem safado somente pra mim”.

Todo mundo canta, principalmente os homens safados.

Passa um vendedor de algodão doce. Nunca mais eu tinha visto algodão doce. Dá vontade de comprar um saquinho, só pela poesia

“Tu morre pela boca, visse”, diz alguém na mesa ao lado.

Ao longe, duas pipas no céu. Uma do Santa Cruz, outra do Sport. Já sonho com a pipa do Sport caindo, em alto mar.

“OIlha, Lula não ganhou não”, diz a gordinha ao lado.

“Mas vai ganhar, que vou votar nele”, responde um senhor, convicto.

Daqui a pouco, aparece uma pipa do Náutico. Que praia mais esquisita, meu Deus!

Um senhor de uns 40 anos dança. Usa uma tanga ridícula. Ele bebe, está animado, com sua turma, ri muito, me parece feliz. Quem sou eu, para achar sua tanga ridícula? Ridículo sou eu, de jeans e com “As mil e uma noites” em cima da mesa. O reles cabeça, em pleno feriado.

Passa um casal ajustado, de mãos dadas.

“Vamos tomar uma lá em João?”

“E apois”, reponde ela.

Isso é que é um casal, pensando em tomar a saideira, depois da praia. Lembro do Joãozinho Peruca, meu amigo, que adora esse “e apois”.

Os biquinis não são tão belos, as tatuagens são meia-boca, os corpos não são modelados pelas academias, mas há uma estranha e confusa felicidade por aqui. Há uma multidão de brasileiros, curtindo o feriado da quinta-feira. Vai entardecendo e ainda são milhares, na praia, curtindo uma roda-de-samba, curtindo algo. Estão sendo felizes por hoje.

É outra estética. As crianças não têm tantos brinquedos. Muitas famílias trouxeram o isonor, com a bebidinha básica.

Passa uma família por mim. Estão cobertos de areia.

“Mainha, quando é que a gente volta?”, pergunta o menino, vermelhíssimo.

A mãe tem os pelos da coxa bem loiros, a la anos 80, quando era moda as mulheres passarem água oxigenada nos pelos. Dizem que o troço saiu de moda porque os pelos ficavam muito duros, e agradavam somente aos olhos.

“Vai depender de você”, respondeu ela.

Cá entre nós, não gostei da resposta. Mas de calça jeans, com um livro cabeça na mesa, que direito eu tenho de gostar da resposta da mãe, neste final de tarde?

Tomo mais uma cerveja. A tardinha vai morrendo. Desconfio que ganhei uma crônica de presente.

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