Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Anotações sobre o dia mais quente do ano e outras lorotas

18 de outubro de 2006, às 7:49h por Samarone Lima

Amigos, passei o dia de ontem pensando em uma crônica supimpa, algo inovador e criativo, mas ao final da jornada, depois de seis ônibus para destinos os mais diversos, o personagem da semana acabou sendo apenas um: esse calor miserável que está derretendo o Recife e seus milhares de habitantes. Não me furto em proclamar do alto da minha prosopopéia, que tivemos, nesta terça-feira, o dia mais quente do ano.

O pessoal da metereologia pode negar, apontar seus dados e números, mas dentro do ônibus da Transcol, na 17 de Agosto, voltando para casa, o menos suado tinha uma bica na cabeça. Ali pelas três da tarde se transpirava um calor infame, daquele em que a pessoa solta uns gemidos de vez em quando e implora por um ventilador no três, junto ao focinho. A camisa está devidamente colada às costas. Sonha-se com um banho de açude, com um picolé da Maguary-Kibom, sente-se inveja de quem passa naqueles carros macios e com ar-condicionado ligado no três. Nesse momento, dá saudades daquelas féias na Suiça.

Como o Recife é uma cidade muito temperamental, as coisas aqui aparecem e somem numa velocidade espantosa. Outro dia, tivemos a febre dos microônibus-com-ar-condicionado. Era o seguinte: o sujeito saía do inferno, aquele calor insano na parada de ônibus, e entrava num pequeno ônibus, delicadamente apelidado de “geladinho”.

Minto. O sujeito entrava era numa fria mesmo, porque o ar-condicionado do tal geladinho parecia ter vindo ali da Sibéria, com lufadas típicas do inverno Russo. Informo que os citados veículos não serviam vodka, para a turma se segurar. Desconfio inclusive que alguns velhinhos tenham sucumbido, diante dos problemas pulmonares causados pela mudança de um clima quente e úmido recifense, para o gelo de uma Europa oriental, numa questão de segundos.

Pois bem, depois da morte em massa dos velhinhos, os tais geladinhos de repente sumiram do mapa, pelo menos para as bandas de Casa Forte, onde vim a fixar minha residência, há quatro anos. A Transcol, do meu amigo Lucimério, parece que estava gastando muito com o ar-condicionado, e mandou recolher os coletivos. Resultado: voltamos ao velho ônibus comum. No lugar do microônibus, ficamos agora com um microondas. Rarara, hoje estou meio engraçadinho. Como ninguém reclamou, ficou por isso mesmo. São os modismos daqui. Depois do fenômeno, comecei a reparar a ausência de dezenas de velhinhos que faziam caminhadas na Praça de Casa Forte e adjacências. Deve ter sido a praga dos geladinhos, que matou muito vôvô, coisa para uma investigação jornalística posterior. Lamento informar, mas não vejo graça nenhuma em chamar os velhos de gente da “terceira idade”. Velho para mim é velho.

Não sei como anda a questão nas demais cidades brasileiras, mas aqui praticamente não tem mais carro sem vidro fumê. É a moda da vez. O bom é que tem amigo que passa por você, de carro, com aquela cortina preta nos vidros. Ele vê você na calçada, tomando um sol de rachar, suado, e dá um aceno, supondo que você tem um olhar infra-vermelho. Aos amigos que têm carro com vidro escuro, informo que não adianta ficar me acenando de dentro para fora, quando eu estiver na parada de ônibus, que ainda não tenho o dom de ver as coisas através de vidros fume. Melhor que ficar acenando, é parar, baixar o vidro e oferecer uma caroninha básica.

Diante do calor recifense, me surgiu outra pergunta filosófica da maior importância. Quem é a criatura responsável pelas paradas de ônibus dessa cidade? Esse gênio da humanidade deveria ganhar um busto na Sorbonne, pela capacidade de fazer algo misterioso – deixar a sombra sempre na parede mais próxima ou a dois metros da calçada, onde passam os carros e ônibus, e não podemos ficar. O único momento do dia em que o Recifense tem sombra na parada é ao meio dia, sol a pino, debaixo daquelas marquizes de ferro.

O método mais utilizado pelas bandas de cá tem sido mesmo recorrer ao velho e salvador poste, esta composição do cenário que passa desapercebida, mas tem uma enorme função social, além de sustentar fios e ser mictório dos caninos. Quando o sol entra rasgando, fica aquela sobrinha estreita do poste, na calçada, e a turma vai se escondendo por ali. Ontem mesmo, perto do Clube Português, fiquei puto com um camarada que pegou minha vaga detrás de um desses postes. Quando fui caminhando para uma sombrinha mansa, ele zapt!, deu três passos gigantes e ficou lá, na minha vaga, dando umas risadinhas sonsas, igualzinho ao Scoobydoo. E o infeliz ainda estava com a camisa do Náutico! A vida de tricolor não anda fácil mesmo. Até vaga na sombra, atrás de um poste, estamos perdendo.

No último ônibus, já às 18h, eu estava meio desolado mesmo, arrependidíssimo de ter cochilado e batido meu velho Fusca. O Alto Santa Isabel, saindo do Recife Antigo, demora três dias e três noites para chegar à Praça de Casa Forte. Como estava com o volume I de “As Mil e Uma Noites”, comecei a ler, cochilei, li mais umas noites, dormi, sonhei, acordei, li a Sherazade com aquela conversinha fiada, e quando estávamos já chegando à noite de Natal, avistei a Praça de Casa Forte. Desci. Mais uma caminhada, até o Poço da Panela. Pocot, pocot, pocot, lá fui eu.

Cheguei em casa, tirei as sandálias, larguei a bolsa no chão mesmo e decidi: hora de um bom mergulho na piscina.

Piscina? Que piscina?

O chuveirão frio estava uma delícia.

**

Onde encontrar o livro Estuário?
1. Mercearia e bodega de Seu Vital, defronte à Igrejinha do Poço da Panela. Falar com Seu Vital. Fone: 3442.5473.
2. Locadora Altas Horas, do glorioso Vicente, que fica na Avenida 17 de Agosto, 1161, loja 03, Casa Forte. Fones: 3267.9800/3074.6567. Falar com Vicente, lógico.
3. Escola Kabum! de Arte e Tecnologia (mediante autorização especial da chefa Michela). Fica na Rua do Bom Jesus, é 147, no Recife Antigo. Quem quiser uma dedicatoriazinha básica, estou por lá toda terça e quinta, na parte da manhã. Informo que só posso fazer a dedicatória na hora do recreio, que é de 9h45 às 10h15, ou após as aulas, a partir das 12h10.

Nos três locais, a belezoca custa R$ 25,00.

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