Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Perambulações pelo Agreste - I

23 de outubro de 2006, às 11:24h por Samarone Lima

Camocim de São Félix, Pernambuco.

Chego ao Convento das Carmelitas, aqui em Camocim, depois de viajar pela Borborema, saindo do TIP, que por sinal, anda meio derrubado. Ao lado, viajou uma freira, mas não me deu muita bola, e acho inclusive que ela era de outra ordem.

Vou chegando a alguma cidade, pergunto ao camarada da frente se ele sabe onde fica o convento. Ele informa que o ônibus vai parar mesmo na frente, e que me avisa. Cinco minutos depois, digo aquele “e então”, e ele me responde com um “esqueci não, visse?”. Pergunto se faz frio à noite. “É clima de montanha”, informa, e lembro que esqueci meu cachecol e minhas mantas.

À entrada da cidade, veo que meu amigo está certo. “Bem vindo a Camocim de São Félix. Clima de montanha. Altitude: 723 metros”. Eu, que tenho um medo ancestral de altura, já começo a ter vertigens. A cidade foi fundada em 1954, mas fizeram uma covardia com o fundador: sequer o nome completo dele colocaram na placa.

Chego ao convento. Um silêncio santificado no imenso espaço. Ganho um quarto confortável, com duas camas, uma mesinha e banheiro. Ao contrário de muitos conventos espalhados pelo mundo, este tem chuveiro elétrico com água forte e quente. Leio o aviso detrás da porta. Não pode fumar nem dentro nem fora do lugar. Como só tenho fumado ultimamente nos jogos do Santa Cruz, não terei problema.

Feito o reconhecimento do terreno, hora da primeira expedição. Vou ao centro, vejo a igreja, a praça, a prefeitura, as pessoas simples, e à saída da cidade, esbarro na imensa placa:

“São Joaquim do Monte - Santuário de Frei Damião”.

Embico rumo a São Joaquim imediatamente. É uma caminhada longa, pela beira da pista, mas como sou bom no galope manso, vou seguindo, debaixo de um sol cortante. Os carros passam por mim tinindo. É cada fino do caralho. Duas horas depois, chego à cidade. A língua está por ali e os pés doem. Vou olhar qual é o problema: comprei um tênis 43, quando calço 44. Essas minhas distrações me lascam.

Olho a paisagem de São Joaquim do Monte. Farmácia Frei Damião, Mercadinho Frei Damião, Açougue Frei Damião, Foto Frei Damião, Lanchonete Frei Damião, Bomboniére Frei Damião, e por ai vai. Paro e peço uma água de côco. A senhora que me atende é de uma simpatia brutal. Olho na parede uma moldura de Miguel Arraes, com um baita sorrisão. Pergunto quem vai ganhar as eleições por aqui.

“É Lula lá e Dudu aqui”.

Dudu vem a ser o senhor Eduardo Campos, candidato ao Governo. São as tais intimidades eleitorais.

Depois da água, tomo um café. O café é de grátis, e consegue ser mais doce que o de Seu Vital. Ela me informa que o prefeito da cidade também está com Lula.

O Santuário de Frei Damião está a um quilômetro. Vou me arrastando, com os pés doendo. Agora, na verdade, já estou até chateado com o Frei. Descubro que caminhei dez quilômetros com um sapato apertado. Vou devagar, reparando as propagandas políticas. Em toda esquina, tem uma foto de Inocêncio Oliveira. Depois de dez minutos, é impossível não decorar o número dele: 2233. Se a eleição fosse hoje, acho que eu erraria o meu voto para Deputado Federal, e o Paulo Rubem perderia meu singelo voto. Entraria na cabine, e marcaria o 2233 sem nem perceber. É o tal voto por osmose.

Estou a 500 metros do Santuário, cansado, com fome, os pés mastigados, então me vem uma pergunta: Mas que diabo de tanto esforço é esse, para ver o Santuário do Frei Damião?

Logo me vem aquela preguiça fundamental e descubro que nunca tive essas simpatias todas pelo velho frei (que ninguém na cidade perceba). Sou mais o Padim Ciço Mesmo, depois do amadíssimo São Francisco, Gustavo não me deixa mentir. Dou meia volta, esbarro na milésima propaganda de Inocêncio e paro em uma pracinha, para tomar minhas notas aleatórias.

Passo de novo na lanchonete, peço outro côco.

“Mas já visse o Santuário?”, pergunta.

“Era só para rezar uma oraçãozinha e agradecer pelas coisas boas que têm acontecido”, respondo.

De novo, café de graça.

Olho a paisagem e me vem aquele cansaço da metade da tarde. O sol ainda está rasgando. Inocêncio fica rindo para mim, e penso em como voltar para casa. Olho ao norte e vejo uma tuia de motoqueiros. São os famosos Moto-Táxi. A viagem de volta sai por R$ 7,00. Contrato o serviço, mas como o capacete não entra em minha cabeça, vou com o vento no focinho.

O motoqueiro tem um plano secreto de se suicidar comigo. Estamos voando pela pista, e de vez em quando ele se vira, para comentar alguma coisa. Olha pra frente, infeliz, penso em dizer. Se a moto virar, eu viro uma papa.

Chego ao mosteiro vivo, suado, cansado com número de Inocêncio na cabeça: 2233. Penso em ligar para Seu Vital, para ele jogar no bicho, mas preciso me desapegar do Poço, pelo menos por uns três dias.

Mais tarde, antes de dormir, coloco mais uma postagem. Descobri uma lan house com dez computadores, mas está invariavelmente entupida. A moçada do Agreste também adora um Orkut, então fico na linha de espera.

Ps. desculpem eventuais erros, escrevi na tora, porque o troço aqui cai direto.

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