Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Cronista on the road

21 de outubro de 2006, às 1:52h por Samarone Lima

Caríssimos leitores,

A partir deste sábado, estarei pelas bandas de Camocim de São Félix, nestas minhas perambulagens pelo mundo. Vou com o mochilão, alguns livros e cadernos, para me desatualizar do mundo. É trabalho e vagabundagem, em proporções iguais.

Se por acaso eu encontrar uma lan house perdida, mandarei crônica nova, tratando, obviamente, das minhas besteirinhas habituais.

Como ficarei num convento da Ordem Carmelita, certamente encontrarei histórias carmelitas para contar.

Caso contrário, somente na segunda-feira teremos novidades.

E la nave va.

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Anotações sobre o dia mais quente do ano e outras lorotas

18 de outubro de 2006, às 7:49h por Samarone Lima

Amigos, passei o dia de ontem pensando em uma crônica supimpa, algo inovador e criativo, mas ao final da jornada, depois de seis ônibus para destinos os mais diversos, o personagem da semana acabou sendo apenas um: esse calor miserável que está derretendo o Recife e seus milhares de habitantes. Não me furto em proclamar do alto da minha prosopopéia, que tivemos, nesta terça-feira, o dia mais quente do ano.

O pessoal da metereologia pode negar, apontar seus dados e números, mas dentro do ônibus da Transcol, na 17 de Agosto, voltando para casa, o menos suado tinha uma bica na cabeça. Ali pelas três da tarde se transpirava um calor infame, daquele em que a pessoa solta uns gemidos de vez em quando e implora por um ventilador no três, junto ao focinho. A camisa está devidamente colada às costas. Sonha-se com um banho de açude, com um picolé da Maguary-Kibom, sente-se inveja de quem passa naqueles carros macios e com ar-condicionado ligado no três. Nesse momento, dá saudades daquelas féias na Suiça.

Como o Recife é uma cidade muito temperamental, as coisas aqui aparecem e somem numa velocidade espantosa. Outro dia, tivemos a febre dos microônibus-com-ar-condicionado. Era o seguinte: o sujeito saía do inferno, aquele calor insano na parada de ônibus, e entrava num pequeno ônibus, delicadamente apelidado de “geladinho”.

Minto. O sujeito entrava era numa fria mesmo, porque o ar-condicionado do tal geladinho parecia ter vindo ali da Sibéria, com lufadas típicas do inverno Russo. Informo que os citados veículos não serviam vodka, para a turma se segurar. Desconfio inclusive que alguns velhinhos tenham sucumbido, diante dos problemas pulmonares causados pela mudança de um clima quente e úmido recifense, para o gelo de uma Europa oriental, numa questão de segundos.

Pois bem, depois da morte em massa dos velhinhos, os tais geladinhos de repente sumiram do mapa, pelo menos para as bandas de Casa Forte, onde vim a fixar minha residência, há quatro anos. A Transcol, do meu amigo Lucimério, parece que estava gastando muito com o ar-condicionado, e mandou recolher os coletivos. Resultado: voltamos ao velho ônibus comum. No lugar do microônibus, ficamos agora com um microondas. Rarara, hoje estou meio engraçadinho. Como ninguém reclamou, ficou por isso mesmo. São os modismos daqui. Depois do fenômeno, comecei a reparar a ausência de dezenas de velhinhos que faziam caminhadas na Praça de Casa Forte e adjacências. Deve ter sido a praga dos geladinhos, que matou muito vôvô, coisa para uma investigação jornalística posterior. Lamento informar, mas não vejo graça nenhuma em chamar os velhos de gente da “terceira idade”. Velho para mim é velho.

Não sei como anda a questão nas demais cidades brasileiras, mas aqui praticamente não tem mais carro sem vidro fumê. É a moda da vez. O bom é que tem amigo que passa por você, de carro, com aquela cortina preta nos vidros. Ele vê você na calçada, tomando um sol de rachar, suado, e dá um aceno, supondo que você tem um olhar infra-vermelho. Aos amigos que têm carro com vidro escuro, informo que não adianta ficar me acenando de dentro para fora, quando eu estiver na parada de ônibus, que ainda não tenho o dom de ver as coisas através de vidros fume. Melhor que ficar acenando, é parar, baixar o vidro e oferecer uma caroninha básica.

Diante do calor recifense, me surgiu outra pergunta filosófica da maior importância. Quem é a criatura responsável pelas paradas de ônibus dessa cidade? Esse gênio da humanidade deveria ganhar um busto na Sorbonne, pela capacidade de fazer algo misterioso – deixar a sombra sempre na parede mais próxima ou a dois metros da calçada, onde passam os carros e ônibus, e não podemos ficar. O único momento do dia em que o Recifense tem sombra na parada é ao meio dia, sol a pino, debaixo daquelas marquizes de ferro.

O método mais utilizado pelas bandas de cá tem sido mesmo recorrer ao velho e salvador poste, esta composição do cenário que passa desapercebida, mas tem uma enorme função social, além de sustentar fios e ser mictório dos caninos. Quando o sol entra rasgando, fica aquela sobrinha estreita do poste, na calçada, e a turma vai se escondendo por ali. Ontem mesmo, perto do Clube Português, fiquei puto com um camarada que pegou minha vaga detrás de um desses postes. Quando fui caminhando para uma sombrinha mansa, ele zapt!, deu três passos gigantes e ficou lá, na minha vaga, dando umas risadinhas sonsas, igualzinho ao Scoobydoo. E o infeliz ainda estava com a camisa do Náutico! A vida de tricolor não anda fácil mesmo. Até vaga na sombra, atrás de um poste, estamos perdendo.

No último ônibus, já às 18h, eu estava meio desolado mesmo, arrependidíssimo de ter cochilado e batido meu velho Fusca. O Alto Santa Isabel, saindo do Recife Antigo, demora três dias e três noites para chegar à Praça de Casa Forte. Como estava com o volume I de “As Mil e Uma Noites”, comecei a ler, cochilei, li mais umas noites, dormi, sonhei, acordei, li a Sherazade com aquela conversinha fiada, e quando estávamos já chegando à noite de Natal, avistei a Praça de Casa Forte. Desci. Mais uma caminhada, até o Poço da Panela. Pocot, pocot, pocot, lá fui eu.

Cheguei em casa, tirei as sandálias, larguei a bolsa no chão mesmo e decidi: hora de um bom mergulho na piscina.

Piscina? Que piscina?

O chuveirão frio estava uma delícia.

**

Onde encontrar o livro Estuário?
1. Mercearia e bodega de Seu Vital, defronte à Igrejinha do Poço da Panela. Falar com Seu Vital. Fone: 3442.5473.
2. Locadora Altas Horas, do glorioso Vicente, que fica na Avenida 17 de Agosto, 1161, loja 03, Casa Forte. Fones: 3267.9800/3074.6567. Falar com Vicente, lógico.
3. Escola Kabum! de Arte e Tecnologia (mediante autorização especial da chefa Michela). Fica na Rua do Bom Jesus, é 147, no Recife Antigo. Quem quiser uma dedicatoriazinha básica, estou por lá toda terça e quinta, na parte da manhã. Informo que só posso fazer a dedicatória na hora do recreio, que é de 9h45 às 10h15, ou após as aulas, a partir das 12h10.

Nos três locais, a belezoca custa R$ 25,00.

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Somente mais um feriado

13 de outubro de 2006, às 16:28h por Samarone Lima

Não sei de onde saem essas minhas idéias. Quinta-feira, feriadão de Nossa Senhora, estou no Cabo de Santo Agostinho, um sol de rachar o cano, todo mundo está na praia. O que o pateta aqui resolve fazer, depois do almoço? Ir à livraria Siciliano, no Shopping Guararapes. Motivo: a lenda de que a citada livraria estaria com um queima generoso – 50% de desconto em todos os livros.

O Shopping é longe pra chuchu. O fato é que às 14h33 estava lá, cutucando as prateleiras. Amigos, informo que a promoção é uma balela: muito livro ruim. A muito custo, depois de horas de pesquisa, consegui comprar os dois volumes de “As mil e uma noites”, que saíram por R$ 104,00. Com a promoção, as belezocas foram adquiridas por R$ 52,00.

Sobre o shopping, nada a declarar. A turma não tem do que reclamar do Lula, porque havia engarrafamento de gente. Acho que o mais liso ali era eu.

Saio caminhando pacificamente, com meu passo de camundongo, em direção à parada, e descubro que sou o homem errado na hora infame. São 16h22 e a praia inteira de Piedade está indo embora. Milhares de pernambucanos, à espera de um coletivo. Milhares bêbados e queimados do sol, por sinal.

Estou ali, de cara, no meio da confusão. É gente dando tapa em gente, para entrar no coletivo. Só há uma solução. Ir à praia, tomar uma cerveja, enquanto espero a massa partir.

Vejamos a cena. Sento na cadeirinha, o sol começa a morrer. Estou de calça jeans, com “As mil e uma noites” na bolsa. Tiro o livro, dou aquela lambida, cheiro, vejo as primeiras páginas.

O brega come solto. Há vários bêbados remanescentes, aqueles que esqueceram de ir para casa. Passa um menino com sua pipa. À minha esquerda, tremulando, uma bandeira esfarrapada do Palmeiras. Mas que diabos uma bandeira do Palmeiras faz aqui, em Piedade, em pleno feriado de Nossa Senhora? Onde estão as bandeiras do Santa Cruz?

“Caldeirada! Caldeirada!”, grita um vendedor de caldeirada. Ninguém liga. Isso lá é hora de vender caldeirada!

Registro a presença de várias gordinhas charmosas, essas que não estão nem aí para academias, e curtem tudo. Uma criança mama uma Coca-Cola imensa e penso no arroto, a mais tarde. À minha frente, quatro camaradas derrubam mais um litro de Rum Montilla. Passa um vendedor de pulseiras. O camarada está mamadinho mamadinho. Ele pára, olha para mim, estende a mão.

“Barbudo… ô barbudo…”

Sinto que é comigo.

“É Lula ou não é?”

E eu lá sou homem de votar em tucano?

“Lógico. É Lula-la”.

Apertos de mão os mais diversos. Ele comenta:

“Do caralho, do caralho”.

Sai tropicando. Mais à frente, derruba um dos colares, pega, assopra, pendura na mão esquerda e segue.

Já estou com uma cervejinha. Olho o ambiente. A praia é de gente simples. Não tem aquelas bonitonas e gostosonas de Boa Viagem. Uma gordinha requebra muito, ao som de um brega. Está vermelhíssima, torrada pelo sol do feriado. Quer é curtir a praia, o sol, a cerveja, os amigos. Regime e academia o cassete.

Passa um casal por mim. Ele tem os cabelos pintados de loiro, é horrivel Está mamadinho da sila. Ela o arrasta.

“Vamos, Noé, já bebesse demais”.

Um Noé em pleno feriado. Cadê a arca, meu querido?

Ali, a uns vinte metros de mim, um homem bebe sozinho. Usa um boné para trás, tem um saco de amendoim na mesa. Que solidão, amigos, que solidão.

O brega come solto.

“Não me mande embora/Não sou seu amante/Você vai por mim/Por bem ou por mal/Eu pego suas coisas e quebro no pau”.

Eita poesia…

“Por isso eu quero e tenho direito de ter você/Um homem safado somente pra mim”.

Todo mundo canta, principalmente os homens safados.

Passa um vendedor de algodão doce. Nunca mais eu tinha visto algodão doce. Dá vontade de comprar um saquinho, só pela poesia

“Tu morre pela boca, visse”, diz alguém na mesa ao lado.

Ao longe, duas pipas no céu. Uma do Santa Cruz, outra do Sport. Já sonho com a pipa do Sport caindo, em alto mar.

“OIlha, Lula não ganhou não”, diz a gordinha ao lado.

“Mas vai ganhar, que vou votar nele”, responde um senhor, convicto.

Daqui a pouco, aparece uma pipa do Náutico. Que praia mais esquisita, meu Deus!

Um senhor de uns 40 anos dança. Usa uma tanga ridícula. Ele bebe, está animado, com sua turma, ri muito, me parece feliz. Quem sou eu, para achar sua tanga ridícula? Ridículo sou eu, de jeans e com “As mil e uma noites” em cima da mesa. O reles cabeça, em pleno feriado.

Passa um casal ajustado, de mãos dadas.

“Vamos tomar uma lá em João?”

“E apois”, reponde ela.

Isso é que é um casal, pensando em tomar a saideira, depois da praia. Lembro do Joãozinho Peruca, meu amigo, que adora esse “e apois”.

Os biquinis não são tão belos, as tatuagens são meia-boca, os corpos não são modelados pelas academias, mas há uma estranha e confusa felicidade por aqui. Há uma multidão de brasileiros, curtindo o feriado da quinta-feira. Vai entardecendo e ainda são milhares, na praia, curtindo uma roda-de-samba, curtindo algo. Estão sendo felizes por hoje.

É outra estética. As crianças não têm tantos brinquedos. Muitas famílias trouxeram o isonor, com a bebidinha básica.

Passa uma família por mim. Estão cobertos de areia.

“Mainha, quando é que a gente volta?”, pergunta o menino, vermelhíssimo.

A mãe tem os pelos da coxa bem loiros, a la anos 80, quando era moda as mulheres passarem água oxigenada nos pelos. Dizem que o troço saiu de moda porque os pelos ficavam muito duros, e agradavam somente aos olhos.

“Vai depender de você”, respondeu ela.

Cá entre nós, não gostei da resposta. Mas de calça jeans, com um livro cabeça na mesa, que direito eu tenho de gostar da resposta da mãe, neste final de tarde?

Tomo mais uma cerveja. A tardinha vai morrendo. Desconfio que ganhei uma crônica de presente.

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Sorte

11 de outubro de 2006, às 12:01h por Samarone Lima

Nunca ganhei nada em sorteios, rifas, loterias. Há muitos anos, numa distração divina, acertei uns números no jogo do Bicho, e levantei uma graninha. Coisa pouca, merreis, trocados, uns trinta contos. E foi só. Nunca me considerei um homem de sorte.

Uma vez, em São Paulo, fizeram um sorteio grande num jornal em que eu trabalhava. Tinha uma cafeteira linda, perfeita, acho que era italiana, e fiquei pensando: puxa, se eu ganho essa cafeteira, heim?

Eu estava com o número 147 na mão, creio, eu lá vou lembrar um sorteio de fim de ano em São Paulo, há dez anos? Fica o 147 para facilitar o andamento da crônica.

Lá pelas tantas, a mulher do sorteio chamou o número 147. Eu fiquei olhando o papel e não me caiu a ficha. Eu via outro número. Ela chamou o número três vezes:

“O cento e quarenta e sete, está ai?”

Como ninguém se apresentou, porque o 147 era eu mesmo, perderam a paciência e sortearam outro número. A pessoa sorteada deu um pulo e correu para pegar a cafeteira.

Um amigo ao lado viu o 147 e berrou:

“Ei, o Samarone aqui ganhou!”

Era tarde, a mulher já estava com a cafeteira na cozinha de casa, fazendo seu capuccino e torrando uma boa tapioca, para tudo ficar completo.

Eu estava distraído demais com a sorte. Voltei para casa e mandei ver no velho Nescafé. Tem um conto do Júlio Cortázar em que ele compara a miséria absoluta à falta do Nescafé. Quando nem isso o sujeito tem em casa, está mesmo fodido. Mas que aquela cafeteira seria uma maravilha na minha desértica cozinha, isso seria.

Há uns dois meses, a locadora perto daqui de casa, a famosa “Altas Horas”, inventou uma promoção. A cada filme locado, o camarada poderia colocar a notinha numa urna, e concorrer a um DVD. A primeira coisa que pensei foi somente uma: jamais esse DVD vai lá para minha casa, porque não tenho sorte para essas coisas. Seria até uma boa ganhar o prêmio, porque meu aparelho está engasgando em tudo que é filme, e sempre na melhor parte. A última vez que passei por lá, Vicente me informou que a segunda urna já estava quase cheia. Essa é que não ganho mesmo, pensei.

Pois bem. Ontem, cheguei em casa cansado, escutei os recados na secretária eletrônica e tinha uma mensagem do Vicente, que vem a ser o dono da locadora.

“Samarone, passa aqui, que tu ganhasse o sorteio do DVD”.

Né fogo?

Passei lá hoje de manhã, para ver se eu não tinha sonhado. Como abre às 10h, às 9h55 eu estava lá. Vicente me recebeu com aquele sorrisão e foi logo pegando a caixinha, que está aqui ao meu lado.

“Mas Vicente, eu quase nem coloquei cupom nenhum…”

“Você é um homem de sorte”.

Puxa, a frase ficou assim, reverberando. Homem de sorte, homem de sorte.

Saí perambulando para o Poço da Panela. Iria tomar um táxi, para ir a uma ONG, receber meu salário de professor. Quando eu vou receber o salário, gosto de pegar táxi, porque o Recife está um festival de assaltos. Naná veio passando na Kombi e me ofereceu uma carona. Economizei uns dez reais, e ainda botamos nossa conversa fiada em dia.

Acho que isso é sorte também.

Tive algumas sortes na vida. Em algumas vezes, estava distraído demais, nem percebi o presente. Em outras, estava querendo demais o que julgava merecer, e não veio. Da última vez, eu nem lembrava que tinha arriscado um pouquinho de nada, e esse quase nada ficou lá, brincando.

Parece que é isso, a sorte. Esse quase nada, que fica brincando com a gente.

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O homem dos olhos azuis, (ou A partilha das intensidades)

8 de outubro de 2006, às 20:35h por Samarone Lima

Ela trabalha como voluntária em um hospital que atende portadores do HIV e já me contou muitas histórias de amor, perdas, reencontros, frustrações, dores. Ontem, ela me ligou de Fortaleza, e conversamos longamente. Foi então que me contou a história do homem de olhos azuis.

Ele chegou ao hospital inconsciente. Era já um senhor de uns 70 anos, forte, aprumado, aqueles homens do interior, acostumados às lidas com a terra. Ficou em uma enfermaria sozinho, e naquela solidão, iria caminhar para os últimos dias.

Então, a minha amiga chegou para o seu plantão e ficou sabendo dele. Foi visitá-lo. Como faz habitualmente, se aproximou com aquela delicadeza das pessoas que convivem com a dor e começou a conversar com aquele homem. Não lembro agora o nome dele. Ela, a minha amiga, se chama Mirtes. É um tipo de gente que faz o mundo ser mais bonito, mais intenso, mais mundo.

Cada plantão, Mirtes visitava o senhor inconsciente, mergulhado em sua penumbra. Ela sequer sabia a cor dos seus olhos. Chegava mansamente e falava as coisas que sua intuição mandava, mesmo sabendo que não teria resposta. Dizia para ele não ter medo, que não estava sozinho, que tinha gente cuidando, que ficasse tranqüilo. Mais que falar, ela tocava em suas mãos, passava a mão no rosto. Acho isso uma reverência.

Até que um dia, Mirtes tomou um susto. Logo que chegou ao hospital, uma enfermeira a procurou.

“Ele voltou!”

Sim, depois de várias semanas naquela solidão da enfermaria, na solidão do próprio corpo, o homem despertara. Mirtes foi ao seu encontro. Olhou para aquele senhor e viu um par de olhos imensamente azuis, um azul que nenhuma literatura poderia definir. Azul-esquecimento, azul-saudade, azul-ternura, azulíssimos olhos de um senhor idoso, agora brilhando.

Emocionada, ela tocou em suas mãos e começou a falar:

“Amigo, que bom que você reagiu…”

“Eu reconheço essa voz. Era a pessoa que conversava comigo”, respondeu ele.

Ela confirmou. Sim, estivera várias vezes com ele. Conversaram longamente. Ele disse que só tinha medo de uma coisa. Era quando uma voz metálica chamava algum médico ou enfermeira, pelo auto-falante do hospital.

“Eu achava que a voz iria chamar meu nome, me chamando para o inferno”.

Riram um bocado. Ele repetiu várias vezes que reconhecia muito bem a sua voz, era a mulher que sempre falava com ele. A Mirtes contemplou aqueles olhos azuis sereníssimos com a felicidade dos extremos. Deve ter juntado os cacos das tantas perdas dos últimos meses, os olhares que fecham e não voltam a brilhar para o luminoso da vida.

Um belo dia, o senhor voltou para sua cidade, no interior do Ceará, e nunca mais se viram.

Mirtes me contou essa história ontem, ao telefone. Não sei o que há, mas ultimamente tenho escutado histórias assim, intensas.

Faço aqui a partilha das intensidades.

Para Mirtes Machado, que não lê coisas na Internet, mas lê a alma de tantas criaturas…

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