Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Viagem ao interior, inauguração de uma sala de leitura, os bêbados de sempre, violeiros etc (final da história em dois capítulos)

29 de novembro de 2006, às 15:07h por Samarone Lima

(Continuação da crônica de ontem, favor ler para entender)

Pois bem, chegou a hora da inauguração. Seu Paulino, muito cuidadoso, fez ata, organizou tudo. Fui chamado para a mesa sob a alcunha de “jornalista e escritor”, o que me dá duas profissões na vida, e me exclui da de professor, ou educador, como queiram. Como sempre, fiquei suando frio, especialmente com o tema a ser falado. Rabisquei no meu caderninho algumas coisas para falar, inclusive a pérola “com um livro, você nunca está sozinho”, que li não sei onde. Iria falar que cheguei ao Recife em 1987, apenas com uma caixa de livros e hoje tenho uma biblioteca, mas desisti de imediato. Alguém iria sussurrar no ouvido do outro:

“Esse camarada veio foi de longe para falar besteira, né?”

De formas que falei sobre a importância a leitura e lembrei que algo importante na Sala de Leitura, era a homenagem que estavam fazendo às antigas professoras. Três delas estavam presentes, e ganhei sorrisos. No final, aplausos tímidos e fiquei livre para curtir a noite.

Seu Virgulino Pereira da Silva, o aluno mais velho da escola, pediu para falar, e falou. Não anotei nada e agora não lembro o que ele disse. Perdão. Depois, Seu Paulino foi lendo o nome do Conselho Gestor. Dizia o nome e o apelido da pessoa. “Tué”, “Mema”, “Pitó” e Edmilson “Mimoso” eram alguns dos novos conselheiros. Louvados sejam.

Após a cerimonia, com “Cheiroso” passando para cá e para lá, chegaram os violeiros Edwaldo Zuzu e Severino Diniz. Também apareceu outro bebinho exaltado, que não me ocorre o nome. Este camarada daria muito trabalho, ao final da noite.

A cantoria rasgou a noite, que tinha uma lua no princípio de minguante. Anotei alguns trechos, no calor da hora:

“É pelo olho do livro que se lê o mundo” (Diniz).

“Paulino não é Paulo Freire, mas é seu sucessor” (Zuzu).

“Quem bota um livro na alma leva o mundo na mente” (Diniz).

“Escreve com duas coisas, o lápis e o coração”. (Não anotei o autor”.

Apareceu dona Nazinha, juiza perpétua da festa de Cachoeira, que ocorre dia 12 de dezembro, pela graça divina. O filho, Luís Antônio, era o que já estava fazendo concorrência com “Cheiroso”. Pediu para os violeiros puxarem um mote sobre sua mãe. Aí foram outros quinhentos.

Após a cerimônia, ficamos jogando um dominó cheio de blefes, com Cabeção roubando feito o cão. A cachaça de cabeça comia no centro, acompanhada de queijo e bolacha cream cracker. Lá pelas tantas, Luís Antônio estava virado pelo avesso, quando resolvemos que ele só iria embora se acabássemos o dominó. Dito e feito. Após uma imensa peleja, ele entrou no carro de Seu Paulino. Como gosto de aventura, fui com eles, levar nosso camarada em casa. No caminho, ele disse que criava cinquenta perús, e eu caí na besteira de dizer que ele era um “Perucultor”. O cara ficou brabo, me esculhambou até a nona geração. Sobrou até para Seu Paulino, um santo homem.

Voltamos com noite alta. Deu somente para traçar outra dose e entrar debaixo do cobertor. O friozinho do Agreste é um ar-condicionado no três. Dorme-se bem por ali, em Cachoeira do Taepe. Antes de cochilar, ainda lembrei dos violeiros. Concordei com eles:

“Isso aqui não é o céu, mas passa tirando um fino”.

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Viagem ao interior, inauguração de uma sala de leitura, livros, um bêbado chamado cheiroso e outras histórias – Parte I

28 de novembro de 2006, às 7:19h por Samarone Lima

Cachoeira do Taépe fica 13 quilômetros a Noroeste de Surubim. Não sei se é Noroeste, mas fica sendo, porque quando a gente lê algo dizendo “a Noroeste de”, já se sente imediatamente bem localizado. Para chegar lá, é preciso ir até a avenida Caxangá e pegar uma vaga numa daquelas Toyota imensas, que cabe umas trinta pessoas, graças às mágicas diversas. A viagem custa R$ 7,00.

Na viagem acontece de tudo. No meu caso, peguei uma família que vinha de um casamento, na noite anterior. Era gente pra dédéu. Lá pelas tantas, descobriram que uma “bolsa preta” tinha ficado na Kômbi, e foi um deus nos acuda. Depois de muita discussão, tive que intervir. Sugeri parar a Toyota, ligar para o proprietário da Kômby, um amigo da família, e saber se a tal bolsa tinha ficado mesmo. Paramos em Carpina, creio, o rapaz desceu e confirmou. A bolsa estava mesmo na Kômbi. Respiramos aliviados, eu mesmo fiquei muito mais leve. Ele voltou para o Recife, a Toyota ciscou para frente. Mais na frente, fiquei sabendo que a família era toda de cerarenses, e que moram num bairro vizinho ao da minnha mãe. O senhor ao meu lado apresentava fortes dores na coluna vertebral.

A gente passa por Paudalho (à direita, Chã de ALegria e Glória do Goitá; à esquerda, Vitória de Santo Antão, se não anotei errado). Perto de Carpina, tem o Museu da Cachaça, vale a pena dar uma olhada e uma provada. Fica em Lagoa do Carro. O camarada ao meu lado teve um colóquio comigo, insistindo que era “Lagoa do Carmo”, mas ele confundiu uma santa com um objeto. Ficou provado cientificamente, pelo dono da Toyota, que a cidade se chama Lagoa do Carro. Com dono de Toyota não se discute.

Mais à frente, você pode pegar à direita para Arassoiaba (estava escrito assim, na placa), Nazaré da Mata ou Timbaúba. No caminho, pode-se ler placas as mais diversas, como “vende-se galinha caipira”; “Manteiga da terra”; “Cachaça de cabeça” etc. Viajando de carro, minha sugestão é dar paradas homeopáticas e saborear tudo, além de comprar coisas para os amigos. Lá pela frente, algo tranquilizador, que é uma placa gigantesca:

“Fique tranqüilo: Limoeiro tem Unimeds”.

Nada como ficar tranqüilo com uma simples frase.

As fazendas estão cheias de mensagem á turma dos Sem Terra. “Fazenda Sonho Meu”; “Fazenda “Meu refúgio”, “Fazenda Meu Sossego”, e por aí vai. Tudo é “meu”.

De Surubim, você pode ir para Machado ou Timbaúba. À esquerda, você vai chegar em João Alfredo. No meu caso, fiquei na rodoviária, esperando o Thiago vir me buscar. Achei caríssimo ir de moto até Cachoeira do Taepe: R$ 6,00 – quase o preço da viagem de Toyota. Pechinchei por cinco pratas, mas o sujeito não quis acordo, deixei de lado.

Como ninguém é de ferro, pedi uma cerveja e comecei a anotar minhas bobagens. Lá pelas tantas, começou a tocar um brega clássico, “Sara/onde é que você se esconde”, e lembrei imediatamente do tio Paulo, irmão da tia Flocely. Nos últimos tempos de vida, gravei Sara numa fitinha cassete, e ele ficava escutando várias vezes. Eu tinha que voltar a fita muitas vezes. Grande tio Paulo, o maior contador de histórias que já vi.

À noite, aconteceria o grande evento: a inauguração da Sala de Leitura José Sebastião, de Cachoeira do Taepe. Fui convidado para falar em cima de um mote invocadíssimo: “A lavra da palavra e o livro como fruto”. Eu me meto em cada fria, que vou dizer.

Os preparativos foram imensos, mas destaco aqui o jantar. Amigos, que rango! Galinha de capoeira, cuscuz, ovo estrelado, etc. Destaco a presença do seu Virgilio Pereira da Silva, de 97 anos, o aluno mais antigo da escola local, que agora se transformava em sala de leitura. Forte como um touro, vigoroso, conversador, ele disse que as comidas de antes eram saudáveis, hoje comem muita porcaria. Pela cara, ele não precisa de Viagra.

Depois de alimentados, descemos as escadas, passamos pelo descampado e chegamos ao local da inauguração. Uma mesa na calçada alta, cadeirinhas brancas para os convidados, gambiarras iluminando o terreiro. Do outro lado, a igreja. Do lado de cá, a Sala de Leitura. os vira-latas brincavam o tempo todo, e quando me descobriram (outro vira-lata), fizeram a festa. Brincamos um bocado. Ao lado, um boteco bastante movimentado. Um camarada se movimentava muito, muito mais bicado que todos os meus amigos no Carnaval. Estava sendo sempre empurrado por um vento forte que não existia, e parecia querer cair por qualquer motivo.

“Já tomasse alguma hoje?”, perguntei, provocando.

“Cheiroso já tomou muitas, desde cêdo”.

Pois bem, daqui a pouco, falo sobre a inauguração, propriamente dita, e o final da festa, quando fomos levar outro bêbado em casa. Foi um trabalho dos diabos. Ele cria perús, e fui inventar de dizer que o cara era “Perucultor”. Amigos, quase apanho.

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Conversinhas sobre pessoas ocupadas e o amor aos livros, antes de mais uma viagem

24 de novembro de 2006, às 22:28h por Samarone Lima

Uma leitora mandou um comentário, reclamando que estou demorando a atualizar o Blog, pois gosta de ler logo de manhã etc. Não deixou o nome, de formas que nem posso responder diretamente. Mas aqui vai uma informação, minha cara leitora: a vida de professor, numa escola de Arte e Tecnologia, não é lá essas tranqüilidades todas não. Tem o planejamento da disciplina, a avaliação (a cada três meses), os planos de aula, as reuniões semanais, enfim. Ah, tem o principal, que são as aulas. E vejam bem onde me colocaram: a disciplina que leciono se chama “Oficina da Palavra”. É uma responsabilidade e tanto. Palavra para mim tem algo de sagrado, e me esforço para ser um educador decente.

Some-se isso ao fato de estar me mudando (hoje, mais uma viagem) do Poço para o Cabo, a uns 40 quilômetros do Recife, o que é uma trabalheira danada. Informo que não tenho carro. Fora isso, tenho um trabalho jornalístico-esportivo com meu amigo Inácio França, algo da maior responsabilidade cívica e espiritual, que é um Blog sobre o nosso glorioso Santa Cruz Futebol Clube, que precisa ser atualizado diariamente (aos curiosos: www.blogdosantinha.com). O clube vai mal, mas nosso Blog está bem, com uns 500 acessos por dia, vocês nem imaginam como tem gente maluca no mundo, apaixonada por um clube de futebol, o que é meu caso e o do Inácio.

De formas que estou sendo, como dizem por aí, uma pessoa ocupada.

Cá estou, sexta-feira à noite, escrevendo estas poucas linhas para informar que gostaria de escrever muito mais, de preferência todo dia, mas para escrever algo decente, e publicar no Blog, é preciso tempo. Mais que isso, é preciso alguma idéia razoável e um texto que tenha algo a acrescentar. Não dá para ficar postando bobagem, porque a turma pega a parte dos comentários e desce a lenha. Lembro que todos os comentários vêm diretamente para minha caixa de email, de formas que é muito ruim o camarada abrir o email de manhã e receber uma sova ou uma vaia. Os leitores têm sido muito bacanas comigo, mas é preciso ficar esperto. Nada pior que um texto ruim, burocrático, só para constar. O leitor é sabido, vai procurar outras coisas na Internet.

Fora a escola, as aulas, o Blog do Santinha e a mudança em curso, tenho atividades paralelas. Aqui-ali, uma palestrinha sobre Jornalismo e Literaruta, uma oficina de alguma coisa, um seminário, um debate, um free-lancer para ganhar uns trocados a mais, e por aí vamos. Amanhã mesmo, estarei viajando à gloriosa cidade de Cachoeira do Taepe, perto de Surubim, para a inauguração de uma Sala de Leitura, projeto encabeçado pelo glorioso José Paulino, pai do Thiago, que foi meu aluno de Jornalismo. Ele, o pai, quer que eu fale, na inauguração da Sala, sobre a questão da leitura, dos livros etc. Depois, vai ter cantoria, o forró vai comer no centro e desconfio que a turma vai beber bem. Vai ser a melhor parte.

Esse universo dos livros é algo encantador. Entrar numa livraria me acalma. Entrar em um sebo me faz perder a noção do tempo. Fico horas em pé, acocorado, de lado, subo em banquinhos, escadas, vou descobrindo, colocando meu focinho para funcionar. Sou bom para fuçar e encontrar coisas boas. Foi por conta própria que descobri “O homem sem qualidades”, do Robert Musil. Foi pelo meu instinto literário que comecei a ler o velho Juan Carlos Onetti, há muitos anos, quando era vendido a R$ 3,00 em uma daquelas livrarias safadas de São Paulo. Agora o Onetti está saindo em edições de luxo, mas o conheci quando amargava um purgatório básico, ali na rua Augusta.

Quando vou à casa de algum novo amigo ou quando tenho que entrevistar alguém, faço a pergunta em poucos minutos: posso ver tua biblioteca? Ali, na biblioteca, está um pedaço da alma da pessoa.

Costumo dizer que tenho poucas coisas de bens materiais, mas tenho um bem que fui juntando aos poucos, entre compras em sebos, livrarias, presentes – uma boa biblioteca. Boa não, Samarone, deixemos de modéstia, é ótima mesmo. Estão todos lá, os amadíssimos, aqueles que fizeram a humanidade sorrir, sofrer, que mostraram os abismos da alma e o céu sem limites da criação. Há, o velho Guimarães, Porchia, Juarroz, Sábato, Soriano, Píglia, Rilke. Ah, sem nomes, por favor…trata-se mesmo de uma legião de anjos.

Sim, cometi algumas gatunagens literárias, mas são folhas passadas. Não fui um larápio contumaz. Livreiros de todo o Brasil e de alguns países latino-americanos: perdoem meus atos de apropriação indevida de produtos destinados à venda!

Não sei ainda o que vou falar na inauguração da sala. Sei apenas que não consigo me imaginar sem livros por perto. Sempre li, sempre lerei, apaixonadamente. Lembro do sentimento de deslumbramento que me tomou, quando li “Papillon”, ali pelos 12 ou 13 anos. Desde então, virei um leitor. Depois esbarrei em “Justine”, do Lawrence Durrell, e por acaso, nesta biblioteca meia boca, da minha casa, tinha todo o “Quarteto de Alexandria”. Até hoje, compro edições de “Justine” e releio como quem toma um bom vinho. É misterioso e belo o momento em que você descobre que é, de fato, um leitor.

Lembro que cheguei ao Recife com 18 anos, algumas roupas, muitos sonhos, e uma caixa de livros. Estou agora com 37, e tenho uma biblioteca. Na escola em que ensino, estou ajudando a montar uma biblioteca. Vou escolhendo pacientemente cada um, pensando nos jovens. Este sim, este não, este compraremos mais tarde, este tal aluno vai adorar, enfim. Então vejo que já li um bocado, e fez muito bem para minha alma.

Não tem aquele negócio chatíssimo e petulante do “vim, vi e venci”?

Eu acho melhor assim: “vim, li e reli”.

ps. Quem quiser doar livros para a Sala de Leitura de Cachoeira do Taepe “José Sebastião”, pode entregá-los no Box Sertanejo, que fica no Mercado da Madalena. Diga que é para a Sala de Leitura do professor Paulino.

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O retorno terno

22 de novembro de 2006, às 4:08h por Samarone Lima

Ah, nada como uma nova casa e a nova vizinhança! No meu caso, é um reencontro com uma vizinhança que deixei para trás em 1994, naquele rumoroso dia em que viajei para São Paulo, onde fiquei por seis bons anos.

À esquerda, um depósito de material de construção, nada a declarar. Um depósito de material de construção é um depósito e ponto final. À direita, pasmem, infelizmente, uma escola. Nunca pensei que fosse dizer isso: como é horrível morar ao lado da Escola Estadual Luisa Guerra, Deus do céu!

Tem aulas os três turnos. Daqui escuto uivos, gritos, e parece que na escola tem tudo, menos aula. Daqui da janela, posso ver as aulas no primeiro andar. Olho, reparo, busco um lenço para enxugar as lágrimas. Os jovens não estão nem ai, a falta de professores é constante. Os que dão aulas, dedicam um bom tempo a escrever coisas intermináveis, no quadro branco, aquele negócio que é um tédio completo para quem está na cadeira. Outro dia, vi uma professora de Português explicar o que era um verbo “intransitível”.

Um amigo disse que tem um termo na Medicina que se chama “poliesculhambose”. Essa escola é um exemplo. A cena mais normal do mundo é as turmas serem liberadas lá pelas 10h da manhã. Outro dia, soltaram uma bomba de São João numa sala. A providência da diretora foi de uma pedagogia incrível: liberou todo mundo, e foi a maior festa.

Pela graça divina, a escola vai embora no próximo ano. Volta ao seu lugar de origem, após uma interminável reforma. Voltaremos a ter silêncio. Minha tia, que foi a primeira diretora, há muitos anos, acompanha meio desolada o rumo que sua escola tomou. Essa escola me parece ser uma pequena metáfora do que estão fazendo com a Educação no Brasil, mas isso não é tema para minha cronicazinha de hoje.

Mais adiante, a casa de Luizinho e Neide, depois da de Jorge, filho de Biliu, que morreu quando eu morava aqui, em 1993, creio. Tem uma bandeira do Sport pendurada na janela, objeto perfeitamente desnecessário em logradouro público. Do lado de cá, depois do depósito, a casa de Detinha, as filhas e agora um bocado de netos e netas. Virando à esquerda, o glorioso Centro das Mulheres do Cabo, uma ONG conhecida e muito atuante. Daqui a uns dias, vou levar meu curriculum, para ver se descolo alguma oficina de literatura ou coisa parecida. Virando à direita, temos uma pequena jóia que é o Fernando, o sujeito que conserta coisas diversas. Mais que isso: ele conserta máquina de datilografia. Conserta máquinas e bebe uma garapa incrível.

Foi lá que encontrei esta maravilha, chamada Olivetti Lettera 25, não sei o ano. Ele começou me pedindo oitenta reais, e tivemos uma seqüência de 12 assaltos e julgo que ganhei por pontos. Lá pelo terceiro round ele baixou para setenta mangos. Fui de esquerda, de direita, apliquei-lhe uns jabs, me esquivei várias vezes, mandei uns cruzados de esquerda (meu forte, Joãozinho Peruca sabe disso), até que o negócio ficou em R$ 60,00. No último segundo, baixou para R$ 50,00 e o gongo tocou.

Ela está aqui, e belezoca. Estou passando todos os poemas a limpo nela, graças à pressão psicológica do Gustavo, e batucando outras besteirinhas. Fico no primeiro andar escutando aqueles plec plec plec e lembro do curso de Datilografia, que fiz em Fortaleza, há muitos anos. A primeira aula eu lembro bem: asd asd asd asd, até encher umas folhas. Então, eu nunca mais na vida parei de encher folhas.

Eu adoro o som da máquina de escrever. Faz bem para a alma. Quando comecei a estagiar no Diário de Pernambuco, a redação ainda era movida a máquina de datilografia. Eu gostava daquela confusão, aquele ruído das máquinas. Redação sempre foi uma coisa barulhenta, animada, divertidíssima. Os computadores chegaram acompanhados de uma nova ordem – as coisas ficaram mais silenciosas. Acostumado com as máquinas de ferro, eu batuco com uma certa força no teclado. Acho que é uma tentativa inconsciente de escutar a música dos primórdios. Vou perguntar a Ana e Wal, psicólogas da minha escola, se uma coisa tem a ver com outra.

Na última vez que estive em Fortaleza, encontrei a minha velha Remington, aquela mesma que usei durante todo o curso de Jornalismo e Educação Artística. Ela torrou a paciência de muitos colegas de quarto, na Casa do Estudante Universitário (CEU). Fiz o contrabando para cá, sem que minha mãe percebesse.

Lembro que uma certa feita eu tinha que entregar um trabalho no dia seguinte, os colegas de quarto estavam dormindo, não tive dúvidas. Fui ao banheiro da CEU, levei a cadeira, a máquina, fechei a porta e fiz o trabalho todinho, madrugada adentro. Tem hora na vida que não adianta – ou o sujeito tem raça, esfrega a venta na vida, ou fica.

O Fernando cobrou R$ 25,00 para consertar, limpar, botar óleo, deixá-la tinindo. Tivemos uma nova guerra civil, que só terminou quando ele baixou para R$ 15,00. Isso é uma forte herança materna. Minha mãe pechincha até em loja de R$ 1,99.

À noite, passam uns vigilantes com uns apitos. Eu não gosto de escutar apito três horas da manhã, porque acordo e lembro que o Santa Cruz caiu para a Segunda Divisão. Minha tia disse que é para eles, os vigilantes, mostrarem que estão trabalhando. Sim, podem trabalhar meus amigos, mas precisa apitar às três da madruga?

Será que estou vivendo aquele negócio do Eterno Retorno? Volto a viver com a tia que me acolheu, quando saí da Casa do Estudante. Eu estava começando no Jornalismo, minha bagagem só tinha mesmo livros, ela tinha acabado de se aposentar, estava morando sozinha, fazia caminhadas e nadava.

Aqui, neste primeiro andar, vou trabalhar pra valer, nos próximos meses, para terminar meu terceiro livro-reportagem. É o último, fruto das minhas pesquisas sobre as ditaduras e outras coisas. Adoro esse negócio de “Trilogia”. Mas esse tem também uma história de amor no meio, talvez outras coisas, vamos ver, é surpresa, tomara que eu consiga costurar bem as muitas histórias que se cruzam.

É fascinante saber que foi aqui, em 1993, que comecei as pesquisas para este livro. Lembro que eu voltava das entrevistas apaixonadamente encantado com as histórias de vida de uma geração que lutou contra a Ditadura, e mostrava alguns trechos das gravações para a tia. Ela se emocionava e compartilhava tudo, dando suas opiniões.

Não, não é eterno retorno o que estou vivendo. É o retorno terno, como bem diz o querido Rubem Alves.

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Alguns motivos para comprar a segunda edição de “Estuário”

19 de novembro de 2006, às 20:10h por Samarone Lima

1. Livro é um ótimo presente de amigo secreto. Como os livros estão custando uma nota preta (nunca entendi essa expressão “Custando uma nota preta”, mas tudo bem, isso não vem ao caso agora), você dá um presente razoável e gasta apenas R$ 25,00;

2. Se você é leitor novo do Blog, vai poder ler uma coletânea dos textos publicados no JC On Line, em 2004 e 2005;

3. Se você é leitor velho das crônicas deste que vos escreve, vai se lembrar de algumas coisas que gostou e outras que achou horríveis;

4. A edição do livro, a cargo dos amigos do Ateliê, ficou supimpa e foi bastante elogiada;

5. A apresentação, feita pelo senhor João Valadares, ficou tão boa, tão empolgante, que ele comentou crônicas que não apareciam no livro, o que não deixa de ser um fato inédito no mercado editorial brasileiro;

6. O autor ganha um percentualzinho, que dá para ir juntando e pagar à Editora Bagaço, que fez a loucura de colocar a edição quase inteira nas minhas mãos. Resultado: já vendi um bocado de livros e gastei tudo com diversões;

7. Como diz o Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Sim, mas… e as mulheres, onde ficam nessa?

Mais tarde, depois do merchandising, boto crônica nova no ar.

Ah, “Estuário” está sendo vendido na mercearia de Seu Vital, defronte à Igreja do Poço da Panela, e na Livraria Imperatriz (qualquer uma). Se não encontrarem na Imperatriz, me avisem, que tomo as providências cabíveis e necessárias.

O autor também vende avulsamente o livro, basta mandar um comentário neste Blog, informando do interesse, acompanhado de email, que entrarei em contato.

Quem for de outro estado, melhor eu mandar o livro como encomenda, porque o Sedex está os olhos da cara (outra expressão que não entendo) – mais caro que o próprio livro.

Ps. a capa do livro foi escaneada pelo Renato, a quem agradeço muito.

O autor.

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