Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Perambulações pelo Agreste (final)

4 de novembro de 2006, às 0:08h por Samarone Lima

Como eu vinha dizendo numa crônica anterior (antes das eleições), estava hospedado no Convento da Ordem Carmelita, em Camocim de São Félix, fazendo minhas tradicionais perambulações espirituais, quando o espaço religioso foi invadido pelo conhecido fenômeno da “excursão da terceira idade”. Eu detesto essa definição “terceira idade”, e prefiro velho mesmo, que é uma palavra muito mais forte e bonita. “É um homem velho” não tem maquiagem, enrolação, tem história, verrugas, história de vida, força. “Está na terceira idade” não me diz nada.

Pois bem, no final da manhã, a turma da excursão estava uma arara com a coordenação do convento, porque a piscina não estava liberada para o banho. O sujeito que conserta piscina (piscineiro?) teve que ir a Caruaru. A água estava marrom.

“A gente toma banho assim mesmo”, disse uma velhinha. Não teve acordo.

Depois fiquei meditando. Convento com piscina? Se o Bento XVI souber disso, manda tapar tudo e construir um mausoléu.

Uma das velhinhas me olhava atentamente. À noite, no café, ela não resistiu. Passei com meu pedaço de bolo e um copo de café, e ela comentou:

“Esse aqui esqueceu de crescer”.

Como tenho quase um metro e noventa, dei uma risadinha. Sentei na mesa ao lado. Ela ficou em silêncio, depois recomeçou.

“E essa barba, heim? És algum missionário?”

“Da Ordem dos Franciscanos Menores”, respondi.

Ela arregalou os olhos.

“Eu sabia”.

Veio diretamente para minha mesa. Fiz uma cara muito séria. Me animei com a brincadeira.

“Eu tinha certeza que você era missionário. Faz tempo que você está aqui, no convento?”

Como já morei com o ex-frade Gustavo e conheço a rotina das ordens religiosas, fora as hospedagens em diferentes mosteiros, tinha muito o que falar.

“Não senhora. O convento aqui é da Ordem Carmelita, e sou da Ordem dos Franciscanos. Não posso ficar em duas ordems ao mesmo tempo. Mistura o entendimento pessoal”.

Não sei de onde tirei esse “mistura o entendimento pessoal”, mas caiu bem. Ficaria melhor “entendimento espiritual”.

“É como jogar no Santa Cruz no primeiro tempo, e no Central de Caruaru no segundo”, continuei. Eu jamais iria comparar com nosso arqui-inimigo rubronegro.

“Sei, sei”, dizia ela, muito atenta.

“Estou num pequeno retiro, repensando meus caminhos. Serão sete dias de muito silêncio e recolhimento”.

“Sei, sei”.

Fiz aquele silêncio grave. Comi o bolo lentamente, cheio de metafísica, como quem está com uma hóstia na boca.

“Mas você vive mesmo em qual convento?”

Lembrei do Gustavo e resolvi fazer uma pequena homenagem.

“Já morei em vários, seguindo as orientações do nosso superior, Dom Castro. Comecei em Caruaru, onde os franciscanos estão bem assentados, depois segui meu périplo, onde não posso escolher. Estive em muitos lugares, passei um período na África, vi muito sofrimento, mas agora devo retornar às minhas origens. Semana que vem, retorno a Caruaru, para um novo ciclo”.

“Você gosta mesmo dessa vida? Não sente falta das coisas da mocidade? “, seguiu minha inquisidora.

“Já não sou tão moço assim, caminho para os 40 anos. Mas é um caminho sem volta. A gente sente a mesma alegria, só que de outra forma. Com o tempo, os valores mudam. Não me vejo num boteco, jogando dominó e conversando bobagens com os amigos”.

Olhei-a atentamente.

“A senhora já pensou quanta energia uma pessoa gasta numa arquibancada de um estádio, torcendo por um time de futebol?”.

Lembrei das temporadas de 2005 e 2006, acompanhando o Santa Cruz no Estadual, Série B, Copa do Brasil, Série A etc.

A conversa se estendeu e ela ficou muito feliz em conhecer um missionário franciscano. Inventei mais algumas histórias, improvisei uns dois ou três milagres menores, ressaltei o caráter inabalável de Dom Castro, que andava escrevendo sobre as formas elementares do ser humano, amparadas na espiritualidade do novo milênio e a poesia do cotidiano, e a velhinha ganhou a noite.

Mais tarde, informei que precisava “me recolher” mais cedo.

No dia seguinte, no café da manhã, ela foi a primeira a vir falar comigo. Trazia uma amiga pela mão.

“Frade, frade, preciso de um favorzinho”.

“Pois não”.

“É que minha amiga está com alguns problemas familiares e precisa de uns conselhos espirituais…”

Senti a barra pesar.

“Olhe, quando estamos em retiro, em outro convento, não podemos desenvolver nenhuma atividade de aconselhamento espiritual. Espero que me entenda, são as regras da Igreja, agora bem mais severas com o nosso novo Papa, Bento XVI”.

“Mas era só uma conversazinha…”

“Não é possível. Além disso, Dom Gustavo de Castro é muito severo”.

Ela sorriu, sem graça, e bati em retirada.

À tardinha, pela graça divina, era o momento de retornar ao Recife, terminando a peregrinação pelo Agreste.

Só lamento ter esquecido de perguntar o nome da velhinha, dom Gustavo.

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