Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Mudanças

8 de novembro de 2006, às 10:21h por Samarone Lima

Não sei exatamente quando chega a hora da mudança. Em algum momento, a pessoa vai de uma casa para outra, ou vai de um apartamento para um sítio, de uma cidade para outra. Em algum momento, os filhos já não estão, a casa fica imensa, aqueles quartos, antes plenos de aleluias, se enchem de vazio, é preciso sair. Em algum momento, saiu a aprovação para o Mestrado, e é urgente começar de novo. Uma determinada hora, a dona do apartamento pede de volta, ou a família cresceu, é preciso novos espaços.

Chega o momento de buscar outras paredes, pendurar fotos em outros lugares, entregar as plantas queridas para o vizinho cuidadoso. Deixar para trás aquele quintal com uma mangueira, botar os livros dentro de caixas, pensar pela milésima vez que está guardando cacarecos demais, e esquecer disso pouco depois.

Surgem os aprendizados. A geografia da nova casa precisa ser percorrida sem pressa, de preferência com o espaço vazio. É preciso sentir o cheiro, apalpar alguma brisa, olhar onde o sol bate. Percorrer descalço o quarto novo, o corredor, inaugurar janelas. Sim, é preciso muito cuidado com a inauguração das janelas. Imaginar onde ficará aquela moldura de algum Carnaval passado, quando todos estavam felizes, no tumulto do frevo. É preciso acender um incenso e começar a chegar mansamente.

Não, amigos, não concordo com essas mudanças que chegam com o caminhão brusco e os homens que mal falam, suados e apressados. Eles carregam caixas, nunca as nossas coisas. Levam, esbaforidos, uma caixa de livros, nunca “a” caixa, com nossos poetas prediletos. É preciso um contato íntimo, uma celebração. Ver a cozinha, tomar um café inaugural, dar uma espiada no quintal, ver onde bate a sombra, onde cresce o sol, obseravar quais as plantas poderão ser levadas. Usar o sanitário, em silêncio, lembrando que durante algum tempo, este será o novo trono. Observar quietamente os azulejos, se estão nos conformes. Nunca, mas nunca, ficar no impasse das comparações.

Só depois, quando algumas ternuras estiverem vingando, passar para a transferência dos móveis, livros, discos, essas coisas que vamos juntando durante a vida. O fenômeno da ocupação. Redesenhar a geografia, repovoar os vãos, encher de vida o silêncio e a quietude. Colocar, na entrada, aquele singelo, esperançoso e por vezes patético “Nesta casa mora gente feliz”. Por último, chamar os amigos, os parentes, e celebrar. Aqui recomeço minha jornada pelo mundo. Aqui descansarei. Aqui me recolherei do tumulto do mundo. Que os deuses nos permitam bons vizinhos, e que o cachorro do lado não seja daqueles que latem o dia inteiro.

Mudança é parte do meu caráter, das minhas células, é uma herança genética, espiritual, familiar. Minha família se mudou muitas vezes. Morei em várias cidades, em muitas casas diferentes, em geografias as mais diversas. Sou de mundos. De uma casa sentimental no Crato da minha avó, a uma residência bem mais ampla, em Imperatriz, no Maranhão. De umas repúblicas bolorentas, no centro do Recife, à uma bucólica casa, no Poço. Alguns apartamentos em São Paulo, uma casa numa rua sem saída no Cabo. São muitas as moradas do ser.

Aprendi, desde cedo, a me despedir sem dores, sem saudosismo, aceitando o novo destino. Outro dia, descobri que meu avô era um andarilho, e morreu no Rio de Janeiro, sabe-se lá como, após mudar mais uma vez.

Às vezes tenho uma inveja sentimental distante de quem nasceu e morou no mesmo lugar, criou a tal raiz, não consegue se ver em outro lugar, bate no peito dizendo “aqui é minha terra”. Cinco minutos depois, a inveja já passou e fico lembrando das aventuras, dos lugares que já vivi. Minha terra é o planeta, que leva o mesmo nome.

Algo se perde, em cada mudança. Algo se quebra. Algo não encaixa mais na nova casa, e parece não se encaixar na própria vida. O espelho do antigo banheiro não cabe no novo. A estante imensa fica fora de ordem na nova biblioteca. Mas é preciso deixar, aceitar. Algo também parece compensar, de alguma forma. Uma vista maravilhosa às vezes não existe no novo lugar, mas tem um vento formidável, que antes não estava. O jardim imenso de outrora é trocado pelo silêncio profundo e inspirador, em plena tarde. Essas compensações da vida, que são muitas, o tempo todo, e às vezes nos falta um olhar mais acolhedor.

Para o lugar que fica para trás, é preciso somente uma cerimônia: a do agradecimento. O incenso derradeiro. Percorrer os espaços lentamente, caiando todas as paredes com a precariedade da memória. Aqui amei. Aqui escrevi meu trabalho da faculdade. Aqui fizemos muitas farras. Aqui vimos os jogos da Copa. Aqui recebi aquele telefonema tão triste. Aqui a Lulu aprendeu a dizer “água”, enquanto aguávamos as plantas. Aqui, nesta rede, li pela primeira vez o Guimarães Rosa. Ah, a memória, esta criatura vertical e imperecível…

Vou aqui, pacientemente, embalando minhas caixinhas…

ps. a partir de hoje, este blog passa a ser publicado também no belíssimo www.mutuca.com

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