Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Tocando em frente

16 de novembro de 2006, às 13:13h por Samarone Lima

Vou tocando em frente, levando as coisas como um boiadeiro leva sua boiada. Vou aqui, ruminando bovinamente alguns sentimentos, tentando simplesmente viver, sem querer tanto a experiência de tudo. Essa de amadurecimento também cansa. Quero esverdear, pronto.

Um leitor comentou que estou ficando melancólico, como se isso fosse um problema. Não foi um comentário, foi quase uma denúncia. Meu amigo, obrigado pelo comentário, mas cada dia que posto uma nova crônica, estou vivendo algo distinto. O último texto deste Blog, postei de uma casinha de fim de rua no Cabo. Não achei melancólico, porque tinha um certo lirismo. Era a tal melancolírica, que fala meu amigo Gustavo. Agora, escrevo de uma escola de Arte e Tecnologia, no Recife Antigo. De lá pra cá, muita água passou debaixo da ponte. Ao meu lado, alunos escrevem redações e esperam minhas correções. Tudo se entrelaçando. Pensando bem… qual o problema com a melancolia?

Vou aprendendo outras coisas que pareciam não ter importância. Já sei aferir pressão, graças à ajuda da amada Bebete, médica do Posto de Saúde do Poço da Panela. Comprei um tensiômetro e um estetoscópio, e estou com ares de médico. Aprendo a ler histórias para minha tia. Na manhã do feriado, li para a amada Flocely, “As três maçãs”, uma das muitas coisas lindas de “As mil e uma noites”. Ler histórias não é fácil, acreditem, estou tentando.

Outro dia aprendi a calar mais. Certas coisas não precisam ser repetidas para os amigos. Eles também cansam, enchem a paciência.

Primário, secundário, Universidade, essas coisas são fáceis. Difícil mesmo é este tocar em frente, saber a hora de algumas coisas, não alimentar tanto as angústias da vida, e saber que nem tudo é esta alegria. Há dias, sim, em que tudo vai mal, mas há dias que descem como dádivas. Há dias como o de hoje, em que tudo está por ali, a ponto de chegar - ou não.

Não sei quando uma coisa cicatriza. Apenas vem aquele sentimento de que estamos sarados, e não dói mais. Deve ser o aprendizado da cura. Não sei também quando a gente perdoa. Outro dia, perdoei meu pai por algumas coisas, e acho que o perdão veio para mim mesmo, de forma redobrada.

Logo que comecei a escrever crônicas, algumas pessoas me abordavam e diziam que liam, acompanhavam, gostavam do meu trabalho. Eu geralmente ficava sem graça, vermelho, até que um dia aprendi algo simples: a receber um agradecimento. Depois, tudo ficou mais simples.

Vou por aqui. Hoje não me ocorreu uma inspiração maior, nem menor.

Há mesmo os dias em que apenas empatamos com a vida, mas há um grande truque nisso tudo: a vida continua sendo vida.

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