Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Conversinhas sobre pessoas ocupadas e o amor aos livros, antes de mais uma viagem

24 de novembro de 2006, às 22:28h por Samarone Lima

Uma leitora mandou um comentário, reclamando que estou demorando a atualizar o Blog, pois gosta de ler logo de manhã etc. Não deixou o nome, de formas que nem posso responder diretamente. Mas aqui vai uma informação, minha cara leitora: a vida de professor, numa escola de Arte e Tecnologia, não é lá essas tranqüilidades todas não. Tem o planejamento da disciplina, a avaliação (a cada três meses), os planos de aula, as reuniões semanais, enfim. Ah, tem o principal, que são as aulas. E vejam bem onde me colocaram: a disciplina que leciono se chama “Oficina da Palavra”. É uma responsabilidade e tanto. Palavra para mim tem algo de sagrado, e me esforço para ser um educador decente.

Some-se isso ao fato de estar me mudando (hoje, mais uma viagem) do Poço para o Cabo, a uns 40 quilômetros do Recife, o que é uma trabalheira danada. Informo que não tenho carro. Fora isso, tenho um trabalho jornalístico-esportivo com meu amigo Inácio França, algo da maior responsabilidade cívica e espiritual, que é um Blog sobre o nosso glorioso Santa Cruz Futebol Clube, que precisa ser atualizado diariamente (aos curiosos: www.blogdosantinha.com). O clube vai mal, mas nosso Blog está bem, com uns 500 acessos por dia, vocês nem imaginam como tem gente maluca no mundo, apaixonada por um clube de futebol, o que é meu caso e o do Inácio.

De formas que estou sendo, como dizem por aí, uma pessoa ocupada.

Cá estou, sexta-feira à noite, escrevendo estas poucas linhas para informar que gostaria de escrever muito mais, de preferência todo dia, mas para escrever algo decente, e publicar no Blog, é preciso tempo. Mais que isso, é preciso alguma idéia razoável e um texto que tenha algo a acrescentar. Não dá para ficar postando bobagem, porque a turma pega a parte dos comentários e desce a lenha. Lembro que todos os comentários vêm diretamente para minha caixa de email, de formas que é muito ruim o camarada abrir o email de manhã e receber uma sova ou uma vaia. Os leitores têm sido muito bacanas comigo, mas é preciso ficar esperto. Nada pior que um texto ruim, burocrático, só para constar. O leitor é sabido, vai procurar outras coisas na Internet.

Fora a escola, as aulas, o Blog do Santinha e a mudança em curso, tenho atividades paralelas. Aqui-ali, uma palestrinha sobre Jornalismo e Literaruta, uma oficina de alguma coisa, um seminário, um debate, um free-lancer para ganhar uns trocados a mais, e por aí vamos. Amanhã mesmo, estarei viajando à gloriosa cidade de Cachoeira do Taepe, perto de Surubim, para a inauguração de uma Sala de Leitura, projeto encabeçado pelo glorioso José Paulino, pai do Thiago, que foi meu aluno de Jornalismo. Ele, o pai, quer que eu fale, na inauguração da Sala, sobre a questão da leitura, dos livros etc. Depois, vai ter cantoria, o forró vai comer no centro e desconfio que a turma vai beber bem. Vai ser a melhor parte.

Esse universo dos livros é algo encantador. Entrar numa livraria me acalma. Entrar em um sebo me faz perder a noção do tempo. Fico horas em pé, acocorado, de lado, subo em banquinhos, escadas, vou descobrindo, colocando meu focinho para funcionar. Sou bom para fuçar e encontrar coisas boas. Foi por conta própria que descobri “O homem sem qualidades”, do Robert Musil. Foi pelo meu instinto literário que comecei a ler o velho Juan Carlos Onetti, há muitos anos, quando era vendido a R$ 3,00 em uma daquelas livrarias safadas de São Paulo. Agora o Onetti está saindo em edições de luxo, mas o conheci quando amargava um purgatório básico, ali na rua Augusta.

Quando vou à casa de algum novo amigo ou quando tenho que entrevistar alguém, faço a pergunta em poucos minutos: posso ver tua biblioteca? Ali, na biblioteca, está um pedaço da alma da pessoa.

Costumo dizer que tenho poucas coisas de bens materiais, mas tenho um bem que fui juntando aos poucos, entre compras em sebos, livrarias, presentes – uma boa biblioteca. Boa não, Samarone, deixemos de modéstia, é ótima mesmo. Estão todos lá, os amadíssimos, aqueles que fizeram a humanidade sorrir, sofrer, que mostraram os abismos da alma e o céu sem limites da criação. Há, o velho Guimarães, Porchia, Juarroz, Sábato, Soriano, Píglia, Rilke. Ah, sem nomes, por favor…trata-se mesmo de uma legião de anjos.

Sim, cometi algumas gatunagens literárias, mas são folhas passadas. Não fui um larápio contumaz. Livreiros de todo o Brasil e de alguns países latino-americanos: perdoem meus atos de apropriação indevida de produtos destinados à venda!

Não sei ainda o que vou falar na inauguração da sala. Sei apenas que não consigo me imaginar sem livros por perto. Sempre li, sempre lerei, apaixonadamente. Lembro do sentimento de deslumbramento que me tomou, quando li “Papillon”, ali pelos 12 ou 13 anos. Desde então, virei um leitor. Depois esbarrei em “Justine”, do Lawrence Durrell, e por acaso, nesta biblioteca meia boca, da minha casa, tinha todo o “Quarteto de Alexandria”. Até hoje, compro edições de “Justine” e releio como quem toma um bom vinho. É misterioso e belo o momento em que você descobre que é, de fato, um leitor.

Lembro que cheguei ao Recife com 18 anos, algumas roupas, muitos sonhos, e uma caixa de livros. Estou agora com 37, e tenho uma biblioteca. Na escola em que ensino, estou ajudando a montar uma biblioteca. Vou escolhendo pacientemente cada um, pensando nos jovens. Este sim, este não, este compraremos mais tarde, este tal aluno vai adorar, enfim. Então vejo que já li um bocado, e fez muito bem para minha alma.

Não tem aquele negócio chatíssimo e petulante do “vim, vi e venci”?

Eu acho melhor assim: “vim, li e reli”.

ps. Quem quiser doar livros para a Sala de Leitura de Cachoeira do Taepe “José Sebastião”, pode entregá-los no Box Sertanejo, que fica no Mercado da Madalena. Diga que é para a Sala de Leitura do professor Paulino.

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