Viagem ao interior, inauguração de uma sala de leitura, livros, um bêbado chamado cheiroso e outras histórias - Parte I
Samarone Lima
Cachoeira do Taépe fica 13 quilômetros a Noroeste de Surubim. Não sei se é Noroeste, mas fica sendo, porque quando a gente lê algo dizendo “a Noroeste de”, já se sente imediatamente bem localizado. Para chegar lá, é preciso ir até a avenida Caxangá e pegar uma vaga numa daquelas Toyota imensas, que cabe umas trinta pessoas, graças às mágicas diversas. A viagem custa R$ 7,00.
Na viagem acontece de tudo. No meu caso, peguei uma família que vinha de um casamento, na noite anterior. Era gente pra dédéu. Lá pelas tantas, descobriram que uma “bolsa preta” tinha ficado na Kômbi, e foi um deus nos acuda. Depois de muita discussão, tive que intervir. Sugeri parar a Toyota, ligar para o proprietário da Kômby, um amigo da família, e saber se a tal bolsa tinha ficado mesmo. Paramos em Carpina, creio, o rapaz desceu e confirmou. A bolsa estava mesmo na Kômbi. Respiramos aliviados, eu mesmo fiquei muito mais leve. Ele voltou para o Recife, a Toyota ciscou para frente. Mais na frente, fiquei sabendo que a família era toda de cerarenses, e que moram num bairro vizinho ao da minnha mãe. O senhor ao meu lado apresentava fortes dores na coluna vertebral.
A gente passa por Paudalho (à direita, Chã de ALegria e Glória do Goitá; à esquerda, Vitória de Santo Antão, se não anotei errado). Perto de Carpina, tem o Museu da Cachaça, vale a pena dar uma olhada e uma provada. Fica em Lagoa do Carro. O camarada ao meu lado teve um colóquio comigo, insistindo que era “Lagoa do Carmo”, mas ele confundiu uma santa com um objeto. Ficou provado cientificamente, pelo dono da Toyota, que a cidade se chama Lagoa do Carro. Com dono de Toyota não se discute.
Mais à frente, você pode pegar à direita para Arassoiaba (estava escrito assim, na placa), Nazaré da Mata ou Timbaúba. No caminho, pode-se ler placas as mais diversas, como “vende-se galinha caipira”; “Manteiga da terra”; “Cachaça de cabeça” etc. Viajando de carro, minha sugestão é dar paradas homeopáticas e saborear tudo, além de comprar coisas para os amigos. Lá pela frente, algo tranquilizador, que é uma placa gigantesca:
“Fique tranqüilo: Limoeiro tem Unimeds”.
Nada como ficar tranqüilo com uma simples frase.
As fazendas estão cheias de mensagem á turma dos Sem Terra. “Fazenda Sonho Meu”; “Fazenda “Meu refúgio”, “Fazenda Meu Sossego”, e por aí vai. Tudo é “meu”.
De Surubim, você pode ir para Machado ou Timbaúba. À esquerda, você vai chegar em João Alfredo. No meu caso, fiquei na rodoviária, esperando o Thiago vir me buscar. Achei caríssimo ir de moto até Cachoeira do Taepe: R$ 6,00 - quase o preço da viagem de Toyota. Pechinchei por cinco pratas, mas o sujeito não quis acordo, deixei de lado.
Como ninguém é de ferro, pedi uma cerveja e comecei a anotar minhas bobagens. Lá pelas tantas, começou a tocar um brega clássico, “Sara/onde é que você se esconde”, e lembrei imediatamente do tio Paulo, irmão da tia Flocely. Nos últimos tempos de vida, gravei Sara numa fitinha cassete, e ele ficava escutando várias vezes. Eu tinha que voltar a fita muitas vezes. Grande tio Paulo, o maior contador de histórias que já vi.
À noite, aconteceria o grande evento: a inauguração da Sala de Leitura José Sebastião, de Cachoeira do Taepe. Fui convidado para falar em cima de um mote invocadíssimo: “A lavra da palavra e o livro como fruto”. Eu me meto em cada fria, que vou dizer.
Os preparativos foram imensos, mas destaco aqui o jantar. Amigos, que rango! Galinha de capoeira, cuscuz, ovo estrelado, etc. Destaco a presença do seu Virgilio Pereira da Silva, de 97 anos, o aluno mais antigo da escola local, que agora se transformava em sala de leitura. Forte como um touro, vigoroso, conversador, ele disse que as comidas de antes eram saudáveis, hoje comem muita porcaria. Pela cara, ele não precisa de Viagra.
Depois de alimentados, descemos as escadas, passamos pelo descampado e chegamos ao local da inauguração. Uma mesa na calçada alta, cadeirinhas brancas para os convidados, gambiarras iluminando o terreiro. Do outro lado, a igreja. Do lado de cá, a Sala de Leitura. os vira-latas brincavam o tempo todo, e quando me descobriram (outro vira-lata), fizeram a festa. Brincamos um bocado. Ao lado, um boteco bastante movimentado. Um camarada se movimentava muito, muito mais bicado que todos os meus amigos no Carnaval. Estava sendo sempre empurrado por um vento forte que não existia, e parecia querer cair por qualquer motivo.
“Já tomasse alguma hoje?”, perguntei, provocando.
“Cheiroso já tomou muitas, desde cêdo”.
Pois bem, daqui a pouco, falo sobre a inauguração, propriamente dita, e o final da festa, quando fomos levar outro bêbado em casa. Foi um trabalho dos diabos. Ele cria perús, e fui inventar de dizer que o cara era “Perucultor”. Amigos, quase apanho.
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