Cronista segue sua peregrinação pelo semi-árido nordestino
Samarone Lima
Ah, amigos leitores, vou chegar ao final do ano com alguns débitos neste blog. Estou em uma caravana que vai percorrer mais de cinco mil quilômetros, até 23 de dezembro. Até agora, vamos com uns reles 2.300. Ufa la lá. Hoje consigo escrever algumas coisas em Arcoverde, numa lan house defronte à praça principal da cidade, que o sujeito me informou o nome, mas esqueci. Sei que aqui mora a Teresa, minha ex-aluna, mas não sei onde está o telefone de Teresa, que agora é mamãe e tudo o mais. O motoboy que me trouxe do Max Hotel, na BR, até a lan house, é muitíssimo desinformado. Perguntei a população da cidade, ele ficou em silêncio. Insisti e ele respondeu:
“Rapaz, é muita gente, visse!”
Oquei, garotão, meus leitores ficarão sem saber da população arco-verdense.
De manhã toma-se café, seguimos para alguma cidade, os palhaços e pernas-de-pau fazem uma apresentação, encerra-se a cerimônia, voltamos para a estrada, almoçamos, vamos para outra cidade, repete-se a dose, e à noite, pela graça divina, dormimos em algum hotel. Durmo ao lado de um palhaço e de um cara que cuida do som, o Valentim.
Vamos percorrendo a paisagem do Semi-Árido brasileiro. Antes de ontem, em Palmeira dos Índios, surgiram uns flamboyants que eu vou dizer. O vento quente é constante, mas à noite, em algumas cidades, passa aquele ventinho bom, sossegando a gente, uns ventinhos que levantam as cortinas da alma.
Tenho feito o meu exercício diário de olhar o povo. Em cada cidade, uma multidão de crianças e adolescentes aguarda a tal “Caravana do Unicef”. Vejo uns sorrisos para lá de esperançosos, misturados com aquele jeito inocente de quem vive longe dos grandes centro urbanos. Enquanto os artistas se apresentam, vou entrevistando professores, agentes de saúde, diretores de escola, crianças.
Informo que tem, sim, muita coisa boa acontecendo neste país, que muitos projetos estão sendo tocados com seriedade e persistência. Em Traipú, a secretária de Educação conversou comigo e quando falamos de livros, seus olhos vazavam luz. A Dulcinéia (sim, como em Dom Quixote) me levou ao prédio onde funciona a biblioteca e vi o “cantinho da leitura”. É ali que ela começa a fisgar as crianças para o mundo da leitura.
Converso muito com as crianças, evitando fazer aquela estúpida pergunta “o que você quer ser quando crescer?” Tenho perguntado coisas mais simples, que fazem parte do hoje: se na escola tem merenda, e se a professora é boa. Sim, amigos, a meninada está comendo na escola, e tem muita professora comprometida com educação. Em muitas prefeituras, os livros para 2007 já chegaram. A palavra compromisso ainda viceja em muitos grotões do Brasil.
Por conta da correria, não tenho lido jornais ou assistido TV, o que parece ser muito saudável para a saúde psíquica. Tive que trazer minha cota de livros, pois livraria é algo que não existe no interior do Nordeste.
Em meio a esse vendaval de cidades e gentes, já vou perdendo as primeiras confraternizações deste final de ano. Domingo é o aniversário de Emília, ela já sabe como sou, nem esquenta. Domingo é também o dia da confraternização da nossa torcida desorganizada “Sanfona Coral”. Pelo andar da carruagem, parece que até a confraternização do Poço da Panela, minha eterna pátria espiritual, vou perder. Será a primeira vez, em cinco anos. Mas eu não me incomodo com essas coisas. Uma hora chego lá, puxo o banquinho, tomo umas com os amigos, e fica tudo certo.
Vou terminando o ano com as pata no mundo. Isso me deixa novinho em folha. É como se o cansaço físico devolvesse à alma o regozijo das vivências, dos olhares, dos sorrisos encantados das crianças, com os palhaços da Caravana. Vejo o povo brasileiro em sua infância. Queria tempo e espaço para relatar tudo o que tenho visto, escutado, presenciado. Vai ficar para janeiro, já que o Unicef pretende publicar minhas anotações de viagem.
Quando a poeira baixar um pouco, vou contar umas duas ou três histórias de crianças que andei encontrando, conversando e fotografando.
Fico por aqui. Vou ali, ver o ensaio do Côco Raízes de Arcoverde. Fiquem bem. Ou, como disse uma uruguaia ao velho amigo Gustavo, à saída de uma livraria, em Montevidéu:
“Merece-te!”
ps.não deixem de ler o blog do poeta Gustavo de Castro: www.razaopoesia.zip.net
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