Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Lembranças do Armazém Paraíba, dinheiro para o aluguel de Marcos Pioleiro, Orkut e outras histórias

21 de dezembro de 2006, às 6:33h por Samarone Lima

Estou em Patos, a 305 quilômetros de João Pessoa, no Semi-Árido da Paraiba. São 3h57 da manhã e cheguei há meia hora, numa viagem pela Viação Progresso, que fez a gentileza de reajustar as passagens justamente no final do ano. Devem ter se inspirado em nossos deputados federais, que se presentearam com quase 100% de reajusta.

Pois bem. À minha frente está o famoso “Armazém Paraíba”, com sua contundente marca em preto e amarelo, imagem que acompanhou as cidades da minha infância. Ao lado, o Banco Cruzeiro do Sul (empréstimos para aposentados e pensionistas do INSS e servidores públicos). Ao lado do banco, a loja “Realce” e depois a “Narciso”. Para o lado da esquerda (contando do Armazém Paraíba), tem uma unidade odontológica, parceria do município com o Governo Federal. Mais à esquerda, a casa lotérica Esperança (o nome de quase toda casa lotérica) e a “Farmácia dos Municípios”. Na esquina, uma casa toda pintada de amarelo, a cor oficial do PFL, que julgo ter sido outrora (estava louco para usar esta palavra hoje) o comitê de algum candidato na eleição passada.

Reparo o nome dos febrentos: Cássio-45; Antônio Mineral- 45.444; Gilvan Freire - 1234 (esse só não se elegeu se for mesmo ruim de voto).

Uma simpática, bucólica, singela e típica árvore de natal ilumina a pequena praça. Não deve ter custado nem dez reais, mas é mil vezes mais linda que a patética decoração-mulambo que a prefeitura do Recife reservou para este período do ano.

Eu estava assim, tomando minhas notinhas neste velho caderno de viagens, quando fui cutucado por um sujeito moreno, de uns 43 anos, meio sambado pela vida, cabelos indescritíveis, vestido de forma mais ou menos. Veio com uma conversa inacreditável, quase cinco horas da manhã, de que faltava somente dois reais para pagar o aluguel. Sinceramente, o sujeito que sai de bar em bar, em plena madrugada, com uma conversa dessa, deveria estar era escrevendo para o cinema.

“Dois reais para o aluguel? Ah, velho, tenho não. Se fosse para tu tomar uma dose, eu dava um jeito”, respondi.

“Não, velho, estou falando na real”, insistiu.

Diante do meu desdém, ele apelou:

“Dia 26 de dezembro, completo dois anos sem beber”.

Aí pegou de jeito. Lembrei que meu tio Ademar outro dia completou um ano sem beber, com a ajuda do AA. Súbito, me veio uma ternura com todos os que pararam de beber e ficaram mais felizes, centrados e calmos. Sim, porque tem uma amiga minha que parou de beber que mudou do vinho para a água. Parece outra pessoa. Quando ela bebia, era mais interessante.

“Tu escreve poesias?”, perguntou ele.

“Só quando tenho saudades de alguma coisa que não lembro”, respondi, e não sei de onde veio esta resposta.

“Pois eu escrevo poesias”, disse meu amigo.

Depois de um breve silêncio, ele mudou o pedido. Dispensou o vale-aluguel e pediu para que eu anotasse um poema dele.

“Vamos lá, mande brasa”. Então ele começou a recitar, em tom emotivo mas pausado:

“Terra seca, pobre e nua
falta água, falta pão
falta tudo nessa vida
só não falta coração”.

Era um poema longo, que anotei em meu caderninho, mas agora não dá tempo transcrever por inteiro. Ele recitou mais dois poemas, que anotei. Queria mais um, mas aí eu me arretei, porque não iria transcrever o livro do sujeito.

“Tá bom por hoje, né?”, eu disse.

“Sabia que eu tenho uma comunidade no Orkut?”, comentou o poeta.

Lembrei de meus 80 alunos, entre 16 e 19 anos: 79 têm Orkut.

“Anota aí para tu dar uma olhada: www.orkutcomunidademarcospioleiro.com.br

Houve um silêncio repentino. Ele falou de peito estufado:

“Tem muita gente na minha comunidade. Até dos Estados Unidos”.

Então ele esqueceu do dinheiro do aluguel e foi embora.

Na TV, aqui na lanchonete “Pão Quente” (padaria, lanchonete e conveniência 24 horas) começa a rolar Gasparzinho. As primeiras Toyotas e Rurais começam a passar. São 4h27 da manhã. Na mesa ao lado, quatro camaradas discutem meio exaltados sobre cheques, falcatruas, notas fiscais frias, acertos sobre cargas com material paraguaio, um disse que só ele mesmo “teve coragem de resolver aquela bronca com o João”. Ficou liso no interior do Maranhão, e arrematou:

“Bota os pneus em cima do caminhão dele e toma dois mil conto!”

Não entendi nada, mas tudo bem. A viagem segue, a vida segue.

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